Um dia senti curiosidade em saber o que teria Camilo para me dizer sobre a figura lendária do Zé do Telhado que com ele partilhara a Cadeia da Relação do Porto. Que me contaria ele sobre aquela personagem de quem, na minha infância, o meu avô me falava com admiração porque a imaginação popular fizera dele um bom ladrão que roubava aos ricos para dar aos pobres e que era por uns e outros considerado como um homem generoso e liberal.
A edição a que recorri para colher a opinião de Camilo, porém, antes do capítulo sobre aquele famoso salteador extraído das Memórias do Cárcere, apresenta muito oportunamente um outro seu texto intitulado “Política interna”. E digo oportunamente, porque o autor nele se pronuncia sobre o estado do país à época e denuncia a inércia do governo em resolver a “situação infeliz das classes pobres no Minho e Trás-os-Montes.” A dada altura exclama mesmo Camilo: “E depois admiram-se que o roubo e o assalto seja um modo de vida especialmente naquelas imediações! [...] Ao homem desamparado não se lhe podem pedir contas do pacto social, porque a sociedade não quis aliança com ele quando o desamparou.” E termina com uma afirmação tão verdadeira ontem como hoje: “O trabalho, bem remunerado, é o único expediente que pode reconciliar com a sociedade os que a exploram com desonra, porque ela não lhes dá um emprego honesto.”
Só depois deste enquadramento é que o escritor me passa a falar do Zé do Telhado, que considera ” o mais afamado salteador deste século”, embora não lhe reconheça “vulto de romance”. Conta-me então que José Teixeira da Silva nasceu na aldeia de Castelões, Penafiel, no seio de uma família já votada ao roubo, mas que iniciou ainda jovem uma vida de trabalho honrado. Até conseguir concretizar o sonho de desposar a mulher amada, foi um lanceiro garboso e valente. Nos inícios da sua vida de casado “era querido dos seus vizinhos, porque aos ricos nada pedia, e aos pobres dava os sobejos da sua renda e do seu trabalho de castrador.” Diz Camilo que, por ocasião da revolução popular de 1846, José Teixeira serviu a Junta na arma de cavalaria, de onde saiu condecorado. Quando volta a casa, esperam-no a mulher e os cinco filhos… Vê-se “quase pobre, e perseguido pelos credores e pelas autoridades”. A miséria e a falta de apoio das “pessoas importantes” a quem pediu ajuda, arrastam-no para o roubo. Comete um primeiro assalto. Pronunciado, foge para o Brasil de onde voltará em breve, afirma ele que por saudades da mulher e dos filhos, mas logo retoma a sua actividade de salteador que culminará com a sua prisão.
Inquestionável era o seu amor pela família e a sua natural generosidade. Assevera Camilo que “José Teixeira nunca proferiu as palavras os meus pobres meninos, que se lhe não vidrassem os olhos”, e, já preso na Cadeia da Relação, o salteador continuou a dar “largas ao seu antigo prazer de esmolar necessitados, e em volta dele todos o eram. [...] Às levas de degredados distribuía grandes esmolas; e presos indigentes doutras repartições da Relação acharam sempre nele a ardente caridade que seria a glória e o céu de um justo.” A mulher, quando o visitava, pedia-lhe que despendesse menos para poder alimentar os filhos “O pai chorava com ela; mas parecia ter adoptado filhos todos os famintos e nus.” Não lhes retribuíram do mesmo modo os companheiros de prisão, quando ele empobreceu.
O escritor fez quanto pôde para o animar até ao dia em que foi “julgado como réu de uma única morte sem premeditação, e como caluniado na maioria dos roubos arguidos”. “Condenado a degredo perpétuo com trabalhos públicos”, enquanto não partiu para cumprir a sua pena, entrava no quarto de Camilo que lhe aquietava “o susto com aceitar a responsabilidade da transgressão” ao que ele já só conseguia responder com lágrimas.
Fiquei grata ao escritor por me ter dado a conhecer os percalços da vida de José do Telhado, os contornos do adverso meio em que se moveu e, sobretudo, a piedade e generosidade que comprovadamente acompanharam todos os seus actos, os quais, diz-se, se terão também pautado pelo cavalheirismo e respeito pela mulher.
Se a sua reconhecida generosidade se considerar suficiente para justificar os seus erros, creio poder continuar a guardar na memória a imagem romântica que o meu avô me transmitiu daquele salteador aventureiro.
Helena Laranjeiro
Braga, 13 de Março de 2008
CASTELO BRANCO, Camilo – Vida do José do Telhado, precedido de Política interna. Lisboa: Frenesi, 2003.
(Vida do José do Telhado, extraída de Memórias do Cárcere (1862), capítulo XXVI; Política interna In O Povo e a Carta, 10 Fev.1855).



