
A obra poética de Camilo já estava editada nas Obras Completas da Lello, publicadas sob a direcção de Justino Mendes de Almeida. Surge agora uma bela edição da poesia do autor de ‘Amor de Perdição’. Alguma datada, sentimentalista, outra reveladora de um belíssimo sonetista.
É uma antologia do Camilo poeta – a sua área menos estudada – que Ernesto Rodrigues acaba de organizar com o apoio do Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de Lisboa (Fundação para a Ciência e Tecnologia). Mais completa do que as de Manuel Simões (a do poeta religioso) e de José Viale Moutinho (que não chega a ser antológica), este volume tem a utilidade de dar a conhecer uma faceta mais desconhecida do autor, cuja obra Justino Mendes de Almeida editou, na totalidade, pela mão da Lello & Irmão.
Camilo começa e fecha a obra com a poesia. Estreia-se, em 1845, com Os Pundonores Desagravados; O Juízo Final e O Sonho do Inferno (inspirado na Divina Comédia) e encerra com Nas Trevas (1890), onde se encontram alguns dos seus melhores sonetos.
“Não é de desprezar esta faceta de um autor que abre e fecha o seu caminho literário com a poesia”, diz o professor Ernesto Rodrigues, acrescentando que, “com esta, o escritor constrói uma espécie de narrativa, de épica.” Ou seja, toda a galeria de figuras que entram na ficção são esboçadas na poesia, sendo que o seu vocabulário é do mais copioso que existe.
Na opinião de Justino Mendes de Almeida, “os seus giros de locução, as suas cadências de frase, as suas formas sintáxicas, o equilíbrio e o ritmo da sua prosa têm a fluência, a harmonia e a limpidez literária das obras magistrais.” Na poesia, versos de lamento, desespero, excessivos e amortalhados, correctos, cabem ao lado da produção contemporânea ultra-romântica. Lembre-se imagens trágicas como a do coração “sepulcro vivo de dois filhos mortos”, na morte quase simultânea de dois filhos únicos de Teófilo Braga (A Maior Dor Humana), ou o poema Jorge quot ; Meu triste filho, passas vagabundo/Por sobre um grande mar calmo, profundo,/ /Sem bússola, sem norte e sem farol!”(ambos in Nas Trevas, 1887)
Na realidade, diz Ernesto Rodrigues, “a prosa vive saturada de verso” e a poesia antecipa a ficção: “Se buscamos Camilo enquanto poeta, exige-se conhecê-lo como crítico, depoente, prefaciador, antologiador, intertextualizado, leitor, em suma, dos outros, e de si mesmo, na extensão do possuidor de uma biblioteca de poesia, real e imaginária.”
Na opinião do ensaísta, “face ao ficcionista o poeta perde, mas era um belíssimo sonetista com poema raros no plano da épica paródica.” Entre esses momentos, comenta, “era criador de uma poesia sentimental hoje ultrapassada.”


