Vasco Pulido Valente declarou neste domingo que leu toda a obra de Camilo Castelo Branco porque o desafiaram a escrever um guião para cinema a partir de “O Esqueleto” e isso lhe trouxe vários embaraços. Por coincidência, eu própria passei a última semana a ler Camilo e percebo o Vasco quando fala da impossibilidade da coisa, das palavras que não vêm nos melhores dicionários e dos adjectivos que não se podem fotografar. Para lá do trágico-romântico “Amor de Perdição” (já filmado), é praticamente impossível representar sem estereótipos fatais a exuberância descritiva e a eloquência narrativa de Camilo.
Reli “A Queda dum Anjo” e leio agora “Eusébio Macário” com o gozo partilhado dos camilianos.
Deliro com a sua gramática e com a maravilha dos seus parágrafos compostos de adjectivos, preposições, conjunções, interjeições e verbos conjugados de formas mais ou menos improváveis.
Esfervilhar, tosquenejar, escorvar ou curvetear são apenas alguns exemplos, mas há muitos mais. Gosto da precisão com que Camilo descreve lugares, pessoas, relações e linhagens: “Uma fidalga magra, com perfil de santa e um sorriso bom para a morte e para o marido” é muito bom. Acho que vou fazer como o Vasco e ler a obra toda de uma ponta à outra.
publicado 8 Setembro 2009
Laurinda Alves | Jornalista
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