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	<title>Camilo 2.0 &#187; No Bom Jesus do Monte</title>
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	<description>coração, cabeça e estômago na Web 2.0</description>
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		<title>Camilo 2.0 &#187; No Bom Jesus do Monte</title>
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		<title>A música das árvores</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Sep 2008 07:36:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luísa Alvim</dc:creator>
				<category><![CDATA[No Bom Jesus do Monte]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[
Ao reler Camilo, vejo-o reencontrar-se com as suas memórias No Bom Jesus do Monte[1], divagando e reflectindo uma última vez por entre os arvoredos &#8220;em rebates de saudade&#8221;. Este livro, onde relata amizades e amores que testemunhou ou viveu nas suas diversas estadas no sagrado monte entre 1835 e 1863, no dizer do próprio escritor [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=camilo20.wordpress.com&blog=3067422&post=250&subd=camilo20&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://camilo20.files.wordpress.com/2008/09/folhas.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-279" src="http://camilo20.files.wordpress.com/2008/09/folhas.jpg?w=300&#038;h=225" alt="" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Ao reler Camilo, vejo-o<em> reencontrar-se com as suas memórias</em> <em>No Bom Jesus do</em> <em>Monte</em><a name="_ednref1" href="#_edn1"><em><strong>[1]</strong></em></a><em>, divagando e reflectindo uma última vez por entre os arvoredos &#8220;em rebates de saudade&#8221;. Este livro, onde relata amizades e amores que testemunhou ou viveu nas suas diversas estadas no sagrado monte entre 1835 e 1863, no dizer do próprio escritor &#8220;</em>Fez-se a pedaços, ou a pedaços o coração o foi encadernando nas florestas do Bom Jesus do Monte.&#8221;<em> A</em>s suas &#8220;carvalheiras&#8221;, &#8220;o cerrado arvoredo da <em>Mãe-d&#8217;Água</em>&#8220;, as &#8220;salas tapetadas de relva e abobadadas de folhagem&#8221; são o cenário privilegiado daqueles episódios.</p>
<p style="text-align:justify;">As primeiras lembranças recuam ao tempo em que o autor, criança e órfão há dois meses, vai pela primeira vez ao Santuário. Dessa visita o que &#8220;ainda indelevelmente&#8221; divisa são exactamente &#8220;as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse amor pelas árvores confessa-o logo na dedicatória ao amigo de Guimarães, em jeito de carta datada de 6 de Março de 1864. Aí, receando estar a alongar-se demasiado nas suas referências ao sucessor do majestoso carvalho que no tempo de Frei Bartolomeu dos Mártires existiu no lugar de Ruivães, justifica assim o seu entusiasmo: &#8220;Desculpe, Francisco Martins, estas delongas à conta de uma árvore. Você sabe que amor eu tenho às árvores. [...] Este livro que eu lhe dedico tem muito com arvoredos.&#8221; A confirmar esse amor, formula mesmo um especial desejo: &#8220;A minha ambição é possuir uma árvore que me cubra com um pavilhão de folhas a casa de sete palmos, que hei-de comprar num cemitério [...] quando o preço de um livro me der para a sepultura e para a árvore.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Mas a verdadeira exaltação das árvores e a evocação do refrigério da sua sombra e do bálsamo da sua música, essa é feita no intróito, cujas primeiras palavras são para elas: &#8220;Estas árvores são minhas amigas há vinte e sete anos. Vim hoje aqui despedir-me delas: creio que para sempre me despeço. [...] Eu já encaneci; e elas verdejam exuberantes de seiva. Faço trinta e oito anos, inclinado à sepultura; e elas têm três séculos que viver, trezentas primaveras para se vestirem de galas novas. Meus netos virão saborear-se em vossas sombras, ó carvalheiras, ó verdes pavilhões que me cobristes nas máximas tristezas e alegrias de minha vida!&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Insistindo no consolo que traz a música das árvores, diz mais adiante: &#8220;Dá Deus estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados, que se acolhem fugitivos a ermos onde eles cuidam que o Céu os há-de ouvir.&#8221; Essa é para ele a música verdadeiramente reparadora e divina, e é em defesa dela que condena a prática em uso na época de fazer acompanhar as cerimónias religiosas de música profana: &#8220;Acalentava a música o exasperado Saul. Bons tempos! A música de agora é irritante. Há pouco entrei no templo: o sacerdote consagrava a hóstia, e o órgão entoava a <em>Traviata</em>. Santo Deus! Quem quiser música de adormecer dores, e levantar a alma à sua origem, há-de pedi-la à viração e à folhagem das florestas.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Mesmo se a melancolia dos bosques inclina à tristeza ela é referida como uma tristeza &#8220;generosa&#8221; e que desperta &#8220;salutares pensamentos&#8221;, porque é uma &#8220;tristeza que nos vem esmolada do Céu.&#8221; É entre o arvoredo que se ouvem melodias genuinamente inspiradoras e apaziguadoras e se aprende a soletrar a verdadeira vida: &#8220;São as árvores uns grandes livros abertos, onde todos deletreamos coisas que não constam da Via-Sacra,&#8230;&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Para melhor explicar essa voz das árvores, cita versos das <em>Contemplações</em> de Vítor Hugo, como: <em>Crois-tu que Dieu </em><em>[...] / Aurait fait à jamais sonner la forêt sombre, </em><em>[...] </em><em>Et qu&#8217;il n&#8217;aurait rien mis dans l&#8217;éternel murmure? </em><em>[...]</em><em> / Tout parle. Et maintenant, homme, sais-tu pourquoi / Tout parle? Écoute bien. C&#8217;est que vents, ondes, flammes, / Arbres, roseaux, rochers, tout vit! / Tout est plein d&#8217;âmes</em><em>. </em><em>Também aqui, o escritor n</em>ão perde a oportunidade de um toque mordaz: &#8220;Se o zeloso clero das cercanias do Bom Jesus vertesse à letra o <em>tout est plein d&#8217;âmes</em>, e o livro, que tal afirma, não escapasse ao <em>Index</em> do sacro colégio, veríamos as florestas mansíssimas da montanha invadidas pelos exorcistas e pelo machado, modos sabidos de afugentar almas das árvores. O grande poeta queria dizer que as árvores têm vozes misteriosas, e os corações audição interior que as escuta, e o entendimento lucidez que as compreende.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Porque Camilo entendeu essas vozes e colheu paz e bem-estar junto dos arvoredos do Bom Jesus do Monte, as últimas palavras do intróito são de tristeza e saudade: &#8220;Quando lá ia, voltava sempre melhor. Nunca me aconteceu outro tanto ao dobrar a última página de livro de moral. Enquanto eu soube ler nas folhinhas das árvores, ia lá: agora que o gear da desgraça e do trigésimo oitavo Inverno [...] me vai oxidando a alma, que iria fazer eu lá? Já não sei ler aqueles poemas, aqueles sublimes evangelhos, que o Senhor mandou escrever ao seu máximo apóstolo: a natureza. / Se eu tivesse filhos, havia de ir ali passar com eles três meses cada ano. De madrugada, e aos primeiros assomos da noite, iríamos ao bosque da <em>Mãe-d&#8217;Água</em>, e ouviríamos a glória do Senhor narrada pelos Céus. E mais nada. / E os meus filhos seriam bons.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">O significado e o poder que vimos conferido às árvores e à sua música fazem-nos sentir no ar o inefável eco de uma melodia que nunca deixará de se fazer ouvir apesar do ruído do mundo. Se quisermos crer nas afirmações do escritor de que &#8220;Chorar nas matas do Bom Jesus é chorar em presença de Deus&#8221; e de que é Deus que dá &#8220;estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados&#8221;, teremos como certo que a harmonia da natureza prevalecerá pois, sendo a música das árvores uma dádiva divina, ela estará imune à dissonante actuação dos homens. Saibam eles preservar o templo e as florestas da sagrada montanha de modo a que seja positiva a resposta dos vindouros à questão que Camilo deixa no ar: &#8220;De hoje a trezentos anos [...] Quem me diz que haverá árvores e serra por lá?!&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#888888;"><strong>Helena Laranjeiro</strong></span><br />
Braga, 11 de Março de 2008</p>
<hr size="1" />
<p style="text-align:justify;"><a name="_edn1" href="#_ednref1">[1]</a> Castelo Branco, Camilo &#8211; <em>No Bom Jesus do Monte</em>. 2ª ed. Porto: Livraria Chardron, 1906.</p>
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