A escrita dos humanistas é sempre contemporânea

Visita de Manuel Clemente, bispo do Porto, à Casa de Camilo com um grupo de sacerdotes.

Camilo Castelo Branco (1825-1890) é talvez o escritor mais amado e odiado, venerado e esquecido, da toda a literatura portuguesa. Objecto de estudos de todo o tipo (citemos apenas o de Jacinto de Prado Coelho, Introdução ao estudo da novela camiliana, o Dicionário de Camilo, organizado por Alexandre Cabral, ou o Romance de um romancista, de Alberto Pimentel), mestre da mais castiça linguagem portuguesa, homem de infindas ironias e de sarcasmos violentos, retratista de um mundo rural nortenho entre o pícaro e o emocional, analista de sentimentos e de contradições amorosas, presente em filmes como Amor de Perdição e Francisca de Manoel de Oliveira, amigo de padres e caricaturista de figuras eclesiásticas, homem de vivências sentimentais controversas – eis no fim de tudo, um dos nossos mais profícuos escritores de sempre. (…)

Não morreu velho, porque se suicidou aos 65 anos, incapaz de enfrentar a cegueira irreversível. A sua Casa de Ceide (Famalicão) ficou como testemunho e testamento do que foi e do que nos legou. Tendo sofrido múltiplas transformações, acabou por encontrar-se plasmada num restauro que a aproximou da estrutura original, lhe devolveu alguns dos elementos decorativos próximos dos que foram usados por Camilo e Ana Plácido, a mulher que desde o enamoramento o acompanhou até à morte.

Foi neste recanto que quarenta padres da Diocese do Porto, acompanhados por D. Manuel Clemente, homem de história e de letras pensadas, amalgamadas na teologia e na espiritualidade, se acolheu, no dia 4 de Junho, entre o curioso e o tímido. (…)

“Camilo não era um escritor neutral e retratava a sociedade”, salientou o bispo do Porto. “Em algumas obras criticava os padres que diziam uma coisa na igreja e depois faziam outra”, referiu D. Manuel Clemente, que acrescentou: “Camilo Castelo Branco era um humanista e a escrita dos humanistas é sempre contemporânea”.

O grupo era aguardado pelo actual Director da Casa de Camilo, Aníbal Pinto de Castro, investigador emérito das letras nacionais, e que actualmente partilha a responsabilidade da edição crítica dos Sermões do Padre António Vieira. Camilo surgiu-nos assim pela palavra lenta mas certeira de um mestre camiliano, a quem acompanhavam responsáveis pela cultura da Câmara Municipal de Famalicão, autarquia que assumiu a responsabilidades de manter e actualizar as memórias do escritor, não já as Memórias do cárcere, mas as memórias de uma vida dedicada à escrita e a uma vida familiar que decorreu entre a dedicação e a cumplicidade criativa de uma mulher a quem amava e que o amava (Ana Plácido), o drama de filhos difíceis e a necessidade de sobrevivência através de uma forma que não era propícia ao desafogo económico, a escrita de romances que lhe pagavam mal e tarde, quanto menos ao enriquecimento.

Actualmente a Casa de Camilo tem dois pólos: a casa antiga, restaurada, com o amarelo original, memória revivida do escritor; e num edifício recente, nascido da arquitectura de Álvaro Siza Vieira, o Centro de Estudos Camilianos, orientado para preservar os arquivos e para possibilitar o estudo, a investigação, o diálogo e a troca de ideias em torno da figura tutelar de Camilo Castelo Branco e das suas infindáveis sugestões literárias, históricas, sociológicas e de outras dimensões da condição humana. (…)

Aníbal Pinto de Castro quis brindar os visitantes com uma reflexão sobre a relação de Camilo com os sacerdotes. É sabido como algumas dessas figuras que surgem nos seus romances são caricaturas, denunciando alguns vícios. Mas, salientou o professor, Camilo teve em seu relacionamento pessoal vários sacerdotes, a quem reconhecia o mérito que tinham e louvava a acção sacerdotal que realizavam. Está claro que a faceta que é mais comentada é a da crítica e da caricatura.

Não foi Camilo apenas um escritor de mérito, possivelmente o mais prolífico da literatura portuguesa. Ele foi também crítico literário e de outras matérias do quotidiano e da vida pública, manteve com colegas de ofício duras polémicas (a mais conhecida com os próceres da tendência realista na literatura). Também da sua pena brotou a poesia e o teatro, infelizmente pouco representado.

Fonte : Voz Portucalense,  Lusa

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