Ponte de arame em Ribeira de Pena

O Outono frio e chuvoso convida ao aconchego da lareira transmontana. Porém, o dia seis de Dezembro acordou ameno e propício aos viajantes. Tinha sido avisado. O destino era Ribeira de Pena. E assim foi. Chegados ao local, por uma estrada alcatroada, mas de piso irregular, entrámos numa estrada inclinada e estreita, em empedrado, até que uma ponte suspensa nos barrou o caminho – A Ponte de Arame.

Sustentada por firmes espias de aço, a ponte balança sobre o rio Tâmega, parecendo a todo o momento que se vai despenhar no rio, para susto dos menos corajosos e avisados. Ao início da ponte, uma alusão a Camilo Castelo Branco. Naquela zona de Ribeira de Pena viveu e igualmente casou. Não consta, porém, que a ponte tivesse sido construída na época de Camilo. Pela informação divulgada, julga-se que já existia aquando da Primeira Grande Guerra Mundial. É a convicção que emerge no caminhar dos tempos e por testemunho oral. A Ponte liga a Ribeira de Santo Aleixo de Além-Tâmega. Nas épocas de Inverno o rio era intransponível, daí a razão da construção da ponte pênsil. Anteriormente, pessoas, bens e mercadorias eram transportadas em barcas de fundo chato, ou através de vaus, nas numerosas poldras e açudes, sempre que o rio se apresentava caudaloso.

Neste bonito país que é o nosso, há muito que descobrir. A Ponte de Arame, de Ribeira de Pena, é destino a visitar. O bucolismo da paisagem, o Tâmega a serpentear por entre margens de arvoredo belo e denso, e todo o enquadramento do local, não deixa certamente de impressionar o menos sensível.

Do painel informativo, respigo duas passagens de livros de Camilo Castelo Branco e alusivas ao local, e que passo a transcrever: “…ao avistar as poldras que alvejavam poídas e resvaladiças ao lume de água teve vertigens e disse: “Eu vou morrer” (…) Depois, benzendo-se, pisou com firmeza as quatro primeiras pedras, mas daí por diante ia como cega; a corrente parecia-lhe caudal e negra … (Camilo Castelo Branco, em Maria Moisés …)

“… Estava de lado de além a barca. Bernardo Pires, chamou algumas vezes o barqueiro. Ninguém respondia; mas dera por ele uma rapariga, irmã do dono da barca e da azenha… (Camilo Castelo Branco, Doze Casamentos Felizes …)

Na vertigem de um suposto progresso, fala-se agora que este idílico local vai ser submerso por uma barragem a construir por “nuestros hermanos”, já no ano que agora começa. A informação é contraditória. Esperemos que reine o bom senso. Que esta bela paisagem descrita pela pena de Camilo não passe apenas a ser algo de ficção, subtraída aos vindouros por mais um desenfreado atentado contra o nosso património. O Tâmega, as suas margens, e a já idosa Ponte de Arame, merecem respeito. E nós também.

Quito

Fonte: Blogue Cavalo Selvagem

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