«Amor de Perdição. Uma Revisão»: uma entrevista com Abel Barros Baptista

Abel Barros Baptista organizou o volume inaugural da nossa colecção Revisões, dedicada à releitura das grandes obras da literatura portuguesa, volume que incidiu sobre A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. E acaba de editar, na mesma colecção, o volume que coordenou sobre o Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, que conta com a colaboração de Ana Paiva Morais, Ângela Fernandes, Luís Prista, Roberto Mulinacci, Clara Rowland e Sérgio Guimarães de Sousa. Falámos com o coordenador da obra sobre o livro «revisionista», sobre a «novela» camiliana que o livro revisita, e, naturalmente, sobre Camilo, autor ao qual Abel Barros Baptista dedicou um já vasto conjunto de ensaios, em forma de livros ou de artigos.

P. A primeira e mais paradoxal conclusão que se extrai desta operação de releitura do Amor de Perdição é que o livro foi muito menos lido na Escola do que se pensa: entrou tarde nos programas e nunca de forma muito convincente. A que se deve, em seu entender, esta situação, estranha para uma obra cujo estatuto canónico permanece incontestado?

R. Não sei se será assim tão incontestado. Entre os conhecedores da obra camiliana, não existe unanimidade a respeito de qual seja a mais representativa das novelas de Camilo. Pode até dizer-se que o Amor de Perdição colhe pouco apoio nessa eleição; mas deve dar-se o caso de nisso os próprios admiradores se deixarem influenciar pelos lugares-comuns e pelos preconceitos que cercam o livro. Como quer que seja, o que essa conclusão sobretudo atesta é que o Amor de Perdição não é ou nunca foi visto como a novela convencional que se pretendeu que era durante muito tempo e que, por uma razão ou por outra, os programas escolares a foram considerando inconveniente, inadequada, imprópria para figurar na educação dos jovens estudantes. Não é uma situação estranha, em todo o caso. Não creio que o Estado Novo achasse aceitável a divulgação de uma novela em que o protagonista proclama que a «submissão é uma ignomínia quando o poder paternal é uma afronta»… Às vezes dá-se o caso de os poderes intransigentes serem mais lúcidos leitores do que os supostos leitores lúcidos porque amantes da literatura.

P. Quais lhe parecem ser os maiores contributos deste livro para uma efectiva revisão crítica desta famosa «novela» de Camilo?

R. O maior contributo do livro é precisamente destruir a imagem que tem persistido dele nos últimos tempos. Desde logo a imagem de livro convencional e escolar. Depois, mostrá-lo disponível para certos exercícios que o complicam, que o abrem a várias possibilidades novas e, em particular, que expõem o abismo entre a por vezes extrema simplicidade do que o texto materialmente diz e aquilo que nele se incrustou como verdete interpretativo mais ou menos anónimo. Outro contributo importante: desenhar uma pequena mas eficaz linha de leitura unindo alguns críticos, permitindo pensar numa tradição de leitura que responde a problemas do texto ainda quando não sabe que responde.

P. Camilo parece sobreviver pior do que Eça. Deste, diz-se que o seu retrato do país permanece vivo, e que nele percebemos que o país não mudou. De Camilo diz-se o oposto: o Portugal de que nos fala morreu, e Camilo escreveria sobre «amores de perdição», coisa que hoje nos diria pouco. Pode comentar?

R. Não sei se ainda alguém diz coisas dessas, pelo menos a respeito de Camilo. A respeito de Eça decerto: ainda há poucos anos, no centenário da morte, viu-se que o maior mérito da sua obra lhe é dado pelo pior demérito do país, que é não ter emenda. O que vejo de mais nocivo é o facto recente de os camilianos se terem decidido a gostar de Eça e os queirosianos se terem aventurado a defender Camilo. É uma situação bizarra, e desnecessária, interromper um clássico conflito, que tinha mais razão de ser do que se pensa. A ideia de que cada um é bom escritor à sua maneira, de que há lugar para todos, e coisas análogas, é extremamente nociva, porque dissolve diferenças importantes. Há uma diferença que não permite confundir Camilo com Eça. E há uma diferença que não permite dissolvê-los numa mesma linha de evolução do romance português. Hoje, no entanto, pouco se quer saber disto, e dir-se-ia que os camilianos, se os há, estão mais interessados em provar que Eça admirava Camilo, como se assim desejassem fugir ao anacronismo.

P. Como vê o estado actual dos estudos camilianos?

R. Vejo assim, como disse no fim da pergunta anterior, os camilianos a dissolverem-se numa sopa genérica. Estudos camilianos, hoje, creio que só por liberdade poética. Por motivos que seria longa expor aqui, os estudos camilianos dependeram sempre, na sua constituição e para a sua sobrevivência, da afirmação da singularidade irredutível de Camilo na história literária portuguesa. Infelizmente, preferiram afirmar essa singularidade num plano biográfico, anedótico, psicológico às vezes, e isso tornou-os vulneráveis à passagem inexorável do tempo, com os seus narradores heterodiegéticos, as heroínas reduzidas a funções e a história tornada diegese mesmo quando esfrangalhada até ao limite do grotesco. Talvez fosse melhor, por isso, concluir simplesmente dizendo que os estudos camilianos não têm estado actual.

P. É o segundo livro que coordena nesta colecção, após um volume inicial dedicado a A Cidade e as Serras. Se tivesse de fazer (ou pudesse) um terceiro, qual seria? Agrada-lhe esta tarefa de coordenação de um colectivo entregue a um trabalho revisionista?

R. Gostaria de fazer um livro análogo sobre a heteronímia pessoana, e quem sabe não farei mesmo. Creio que este tipo de trabalho é hoje mais importante do que a produção de leituras individuais, por muito indispensáveis que continuem a ser. Há um sentido particular de trabalho de equipa, possível nos estudos literários, em que a própria individualidade, a desconexão ou o desconcerto da equipa não só concorrem para a mesma finalidade como são mesmo necessários para unir esforços díspares ou até contraditórios. Não há muitos campos do saber em que isto seja possível num mesmo livro. Pode ser uma via de adaptação do trabalho dos estudos literários às actuais condições de estudo e investigação na  universidade.

Fonte Blogue Angelus Novus

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