Coração, Cabeça e Estômago

Coração, Cabeça e Estômago (1862) tem por base uma ideia muito curiosa: um homem resolve contar sua vida mostrando como cada parte dela foi regida por um órgão: no período do coração, foi sentimental; no período da cabeça, intelectual; no período do estômago, animal (ou seja, se entregou aos instintos mais básicos). A ironia com que o protagonista, Silvestre da Silva, expõe as mazelas da sociedade portuguesa apontam para o fim claramente satírico da obra. Apesar disso, devo confessar que me arrastei na leitura de alguns capítulos – no que talvez tenham contribuído as divagações do narrador e o próprio léxico de Camilo Castelo Branco.

Trecho 1 (do prólogo do editor a seu amigo Faustino Xavier de Novais)

“Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, se não convencionalmente. Não há morte. O que há é metamorfose, transformação, mudança de feito. Pergunta tu ao doutíssimo poeta José Feliciano de Castilho o destino que tem a matéria. Dir-te-á a teu respeito o que disse de Ovídio, sujeito que não era mais material que tu e que o nosso amigo Silvestre da Silva. ‘Ovídio cadáver’, pergunta o sábio, ‘onde é que pára?’ Tudo isso corre fados misteriosos, como Adão, como Noé, como Rômulo, como nossos pais, como nós, como nossos filhos, rolando pelos oceanos, flutuando nos ares, manando nas fontes, correndo nos rios, agregado nas pedras, sumido nas minas, misturado nos solos, viçando nas ervas, rindo nas flores, recendendo nos frutos, cantando nos bosques, rugindo nas matas, rojando dos vulcões, etc.’ Isto, a meu ver, é exato e, sobretudo, consolador. O nosso amigo Silvestre da Silva, a esta hora, anda repartido em partículas. Aqui faz parte da garganta dum rouxinol; além, é pétala duma tulipa; acolá, está consubstanciado num olho de alface; pode ser até que eu o esteja bebendo neste copo de água que tenho à minha beira e que tu o encontres nos sertões da América, alguma vez, transfigurado em cobra cascavel, disposto a comer-te, meu Faustino.”

Trecho 2

“Em Lisboa não há velho nenhum vivo. É freqüente ouvir a gente esta pergunta feita a um moço de cinqüenta anos: ‘Esteve em Sintra?’ ‘Oh!’, responde, anediando a estriga do bigode encapada em lúcido verniz, ‘estive em Sintra, minha senhora.’ ‘Estava muita gente no jantar da prima viscondessa?’ ‘Sim, minha querida senhora marquesa; damas eram trinta; rapazes éramos vinte e sete.'”

Trecho 3

“Compenetrei-me da estolidez das minhas aspirações a desencharcar da lama um povo aviltado e cego de sua estupidez. Foi uma terrível decepção esta que me deu à cabeça os tratos que as mulheres de Lisboa me ti-nham infligido ao coração. Vi que o homem grande, neste país, no mesmo ponto em que hasteia o estandarte da redenção, aí, de força, há-de amargurar as torturas do seu Gólgota. Achei-me extemporâneo neste século e cobri com as mãos o rosto envergonhado, como os mártires da liberdade romana, que velavam com a túnica o rosto e diziam aos pretorianos: ‘Matai, escravos!'”

Trecho 4

“Abri meu coração às mil quimeras;
Encheram-mo de fel, e tédio, e alma,
Tive, em paga do amor, riso de infama…
Ai!, pobre coração!, quão tolo eras!

Dobrei-me da razão às leis austeras;
Quis moldar-me ao viver que o mundo ama
O escárnio, a detracção me suja a fama,
E a lei me pune as intenções severas.

Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-lo pensei… Crença perdida!

Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova!”

Camilo Castelo Branco
Coração, cabeça e estômago. Lisboa: Europa-América, 1988. 180 p.

Ricardo Duarte

In Blogue Além do muro da estrada

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