Alguns pintores da idade-média, com a Bíblia na memória, pintavam uns retábulos em que se via o milagre de Jonas engolido e vomitado pela baleia. Tocante mistério!
Mas a piedade do espectador sentia-se intrigada quando reparava e via, depois de um maduro exame, que o profeta Jonas era muito maior que a baleia desses painéis. Coup sur coup. Milagre sobre milagre! parece que havia muita fé e pouca zoologia.
Já não há, na actualidade, quem pinte esses cetáceos em vomitórios de Jonas mais corpulentos que eles; porém, à tona dos pântanos, espadanam uns baleotes mais ou menos bacharéis- formados que programatizam bolsar do seu bojo um Jonas aliterado maior que eles. Acontece todavia que, sendo o conteúdo maior que o continente, o baleote engasga-se, e de Jonas apenas vem ao ar livre a cabeça.
Os Serões de S. Miguel de Seide são isso.
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Possa eu, infeliz baleote arpoado, expelir as substâncias indicadas nestas receitas, e terei vomitado três boticas regulares; e, se eu me safar desta fase de crise com vida para fazer Serões, aí está um milagre, em matéria de vomitórios, pouco inferior ao de Jonas. Ah! Todos temos nos respectivos ventres um profeta maior ou menor que nos faz do coração, do estômago e do fígado a Nínive amaldiçoada das suas terríveis profecias hepáticas, cardíacas e gastrálgicas.
Irmãos! Todos somos mais ou menos baleias.
Novembro de 1835. S. Miguel de Seide
Camilo Castelo Branco
In Serões de S. Miguel de Seide

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