Mistérios de Lisboa

O encontro entre o chileno Raul Ruiz e o português Camilo Castelo Branco não estava escrito nas estrelas. Mas aconteceu e Ruiz levou para a tela o romance oceânico de Camilo, Mistérios de Lisboa. Livro longo, filme comprido: quase quatro horas e meia de projeção que, acreditem, não cansa ninguém. Pelo contrário. Por incrível que pareça, quando
termina, ficamos com a sensação de que perdemos alguma coisa, que estamos nos despedindo de personagens que gostaríamos de continuar a conviver. Não vemos um filme como este; moramos nele.

Não é a primeira vez que Ruiz enfrenta obra desse porte. Encarou ninguém menos que Proust, mas a verdade é que, dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, escolheu apenas o último – O Tempo Redescoberto (Le Temps Retrouvé) – que ele adaptou em “apenas” 162 minutos. Quer dizer, Ruiz não tem receio da duração. Quando a obra pede, ele concede o tempo que for necessário. Mas são durações diferentes. Em Proust, o tempo é a própria matéria sobre a qual a obra reflete, uma construção da memória que, através de personagens e acontecimentos, indaga, finalmente, sobre a sua própria natureza.

Em Mistérios de Lisboa, estamos na dimensão mesma dos acontecimentos. O filme dura tanto porque a quantidade de coisas que acontecem assim o exige. A profusão de personagens, as peripécias, as coincidências, a multiplicidade de personalidades contraditórias que se escondem sob uma única máscara – tudo isso pedia um fluir mais pausado, sem pressa, atento aos detalhes, como a navegação de um rio muito longo, que se cruza com atenção ao que se passa em suas margens. Para curtir o filme é preciso colocar-se nessa disposição, digamos, fluvial. Sabendo que, quando se está entregue ao sabor das águas, toda a pressa se revela
inútil. Então, é relaxar, e curtir a paisagem. A recompensa será enorme.

Inútil dizer que Mistérios de Lisboa é folhetinesco, se a palavra implicar um sentido pejorativo, como se folhetim fosse coisa menor. Porque a obra é mesmo um folhetim. Foi publicada em livro em 1854, quando Camilo tinha 29 anos (é seu segundo romance), mas saíra antes, em capítulos, no jornal O Nacional, do Porto. No dizer de Camilo, ao apresentar sua obra, este não é um romance, mas “um diário de sofrimentos, verídico, autêntico e justificado”. Um crítico, Alexandre Cabral, diz, com justeza, que Camilo apaixona-se pela “mórbida complexidade sentimental da humanidade”. E, de fato, a história comporta cupidez material, ciúmes, assassinatos, incesto, um mundo bruto, cru, distante da espiritualidade que o romancista iria buscar em outras obras.

Esse frenesi de acontecimentos é o que torna empolgante a trajetória de Pedro da Silva, os desvarios do padre Diniz, esse sacerdote vicioso, que julgava só haver dois lugares no mundo dignos de um homem de verdade – o claustro e a guerra. Não faltam também uma condessa ciumenta e ávida por vingança. E nem mesmo um pirata. A ação, que é desenvolvida num longo flash back, a partir de um manuscrito deixado por um moribundo, se passa em Lisboa, mas também em vários outros países, inclusive no Brasil. É um gigantesco painel do mundo (da Europa, em particular) no século 19, mas em registro pouco realista. E há, sobretudo, este Pedro da Silva (Afonso Pimentel) um personagem em busca de sua própria identidade.

Tudo isso colocado na tela com o rigor conceitual que Raul Ruiz costuma emprestar aos seus filmes, que contém sempre algo de misterioso, de oculto, como se os personagens, ou melhor, a relação entre eles não se desse nunca num plano de clareza e racionalidade. Há disso já no folhetim de Camilo. Ruiz realça essa característica com um estilo de filmagem que, em boa parte do tempo, nos evoca o caráter fantasioso de toda recordação – por mais verídica que se proponha a ser. Mistérios de Lisboa, como Carlos, de Olivier Assayas, foi concebido em formato duplo.
É o filme que vemos, com suas 4h26 e também uma minissérie, concebida em seis capítulos de 1h cada. No meio de uma mostra gigantesca, mas formada em boa parte por filmes que acabarão por entrar em cartaz, Mistérios de Lisboa é um dos poucos programas imperdíveis de fato.
Ninguém pode ter certeza de ver este filme no circuito comercial. Ou na TV. Melhor correr e garantir ingresso.

Luiz Zanin

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/diario-da-mostra-2010-misterios-de-lisboa/

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