Igreja do Bom Jesus do Monte em Braga (3)

“As primeiras pedras deste monumento glorioso do Salvador lançaram-nas D. Jorge da Costa, arcebispo de Braga em 1474; D. João da Guarda em 1522; e D. Rodrigo de Moura Teles em 1725.

Chamava-se Espinho a serra onde primariamente se arvorou uma cruz com sua capelinha. A ermida, com o impulso de um dignitário da Sé bracarense, alargou-se. Um século depois a devoção achou arrasada a ermida, e reedificou-a, adornando-a com a imagem de Cristo, sob a invocação de Bom Jesus do Monte.

Instituiu-se uma confraria, que se foi esmolando os paramentos para a capela, e a fábrica de umas outras, que estão soterradas nos alicerces das que ora existem. De hoje a trezentos anos, que pompas arquitectónicas hão-de ver ali os crentes do futuro? Quem receará enganar-se, antevendo que nenhuma capela, nenhuma pompa, nenhum braço de cruz quebrada alveje entre a espessura da mata? Quem me diz que haverá árvores e serra por lá?! Estarão ali uns fabricantes ingleses com engenhos de algodão, um algodão que os Ingleses hão-de inventar? A igreja de hoje, desmantelada de retábulos, e brocados, e relíquias, e órgãos, será um soturno receptáculo de protestantes?

Mando esta pergunta ao ano de 1964, se ainda então se contar pelo nascimento de Cristo.

Prendendo o fio da breve narrativa, as obras continuaram prosperamente desde 1722. Os passeios interpostos às capelas datam desta época.

No local onde está S. Longuinhos, oferta de um devoto em 1819, era a torre do antigo templo, inteiramente abatido. Algumas capelas foram feitas à custa dos professores de latim de Braga. Não se julgue da riqueza de um mestre de latim no século passado, nem da sua santimónia por este facto. Ë que os valentes ousaram medir-se arca por arca, sobre a competência do ensino, com a companhia de Jesus. Perderam a demanda, e pagaram as custas, com as quais se construíram principalmente as quinze estátuas dos escadórios. Pobres latinistas! Aquelas estátuas deviam simbolizar a vossa angústia petrificadora, quando vos converteram o suor em Esdras, e Josephos, e Salomões! Os jesuítas meteram-vos à força a imortalidade em casa.

Manuel Rebelo da Costa, falecido em 1771, foi o braço mais poderoso que tirou da rocha o máximo das grandezas do santuário.

Seguiu-se depois a edificação do templo, coadjuvada por Pedro José da Silva, e a plano do arquitecto Carlos Luís Ferreira da Cruz Amarante, falecido no Porto em 1815, e sepultado na igreja da Trindade, cujo risco deste templo oferecera gratuitamente.

Até este ano, eu nunca perguntei que mão piedosa levantara a primeira capela do santuário.”

Camilo Castelo Branco
In No Bom Jesus do Monte. 3ª edição. Porto : Livraria Lello & Irmão; Lisboa : Aillaud & Lellos, Limitada, [19– ], p. 135-137

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