Manuscrito da obra “Amor de perdição” (1)

O manuscrito do Amor de Perdição foi escrito por Camilo em quinze dias, os mais atormentados da sua vida, como recorda nas Memórias do Cárcere, «num dos cubículos-cárceres da Relação do Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pelas sombras das abóbadas», palavras do próprio manuscrito no explicit. Passou-se isto em 1861, por alturas de Setembro.

No ano seguinte, sai no Porto a primeira edição do romance, publicada pelo editor francês Nicolau Moré. Antes disso, o manuscrito, libertado da cadeia juntamente com o seu autor, esteve presente na tipografia de Sebastião José Pereira e serviu de original de imprensa para aquela edição inaugural. Dedadas negras de tipógrafo e recados marginais de Camilo para o compositor atestam dessa função e acrescentam novas palpitações de vida ao papel, onde mal tinham arrefecido ainda as elevadas temperaturas de uma escrita criativa assente na velocidade da frase, na travagem a meio da palavra e no arranque em direcção oposta.

Da tipografia veio para a Livraria Moré. Se calhar, Camilo nunca mais o viu; nem muita falta lhe faria, pois, já deixara que um revisor anónimo, certamente na fase de composição da primeira edição, introduzisse no texto numerosas emendas ortográficas, e outras menos leves, que o autor benzeu e fez suas, nessa e nas ulteriores edições que reviu com maior ou menor atenção. O manuscrito já era história. E passou a ser tratado como relíquia de valor, transmitido em heranças não-camilianas, mas pouco arredadas da fonte.

 Foi em casa da filha de José Gomes Monteiro, gerente da Livraria Moré, que Alberto Pimentel o encontrou, quando preparava as suas Notas sobre o Amor de Perdição, saídas em Lisboa, em 1915, com reproduções de páginas do manuscrito. Este já levava, na altura, mais de cinquenta anos de vida. Não se sabe por onde andou depois, até que reapareceu em 1926, já no Rio de Janeiro, fazendo parte de uma valiosa biblioteca entrada clandestinamente no Brasil (pitorescas palavras da Tribuna da Imprensa, do Rio, 17-18 de Dezembro de 1955, p. 6). O proprietário dessa biblioteca, identificado pelo jornal carioca como «ilustre desconhecido», deu o manuscrito de presente a um vendedor ambulante de livros, «Alberto Livreiro» de seu nome ou firma. O qual o cedeu «por quinhentos mil réis, duas camisas de seda e alguns jantares» a Francisco Garcia Saraiva, bibliófilo e comerciante de origem portuguesa radicado no Rio de Janeiro.

 Saraiva legou em testamento a sua camiliana, uma das mais importantes do Brasil, ao Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. É na sua biblioteca (certamente, ao lado da Joanina de Coimbra, o mais belo espaço de leitura do livro português) que reside desde Dezembro de 1943 o manuscrito autógrafo do Amor de Perdição . Nenhuma deslocação digna de nota efectuou depois disso, a não ser a presente visita a Lisboa para restauro. Costume antigo: os portugueses que emigravam para o Brasil e aí adquiriam meios de fortuna tinham o bom hábito de voltar de tempos a tempos à pátria, para tratamentos nas águas e para recolher mostras de apreço e saudade.

Ivo Castro

[A maior parte destas informações foi fornecida pelo Prof. Maximiano de Carvalho e Silva, do Rio de Janeiro]

Fonte

Obra impressa na Biblioteca Nacional de Portugal

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