A Senhora Rattazzi

Opinião literária: ” Sou queirosiana! Admito, desde já, essa minha preferência pelo autor d’ “A Relíquia” sobre o autor d’ “A queda de um anjo”. Mas, quem me conhece, já está familiarizado com essa minha característica. Achava o Camilo algo hipócrita (devido ao contraste da sua ideia literária de amor puro e perfeito em relacção à sua vida pessoal), mas, ainda assim, aceitava-o e tolerava-o como um dos grandes nomes da literatura “clássica” portuguesa (infelizmente tão esquecida e tantas vezes vítima de escárnio pela parte dos ditos “intelectuais”). Assim, decidi pegar neste folheto (pois o livro mais não é do que isso) para me tentar redimir por qualquer injustiça praticada por mim em relação a Camilo Castelo Branco. Grande Erro!!! Não só não aumentei a minha estima pela sua escrita como ganhei alguma aversão ao próprio homem! Tenho consciência que o que estou a afirmar é quase blasfemo, mas fiquei com raiva ao Camilo!

A razão pela qual escolhi este livro foi por conhecer, de antemão, a visada da pena literária do mestre de São Miguel de Seide (e sim, antes que me chamem a atenção por uma suposta gaffe literária, sei bem que Camilo nasceu em Lisboa, mas não é essa a terra que associamos ao seu nome). Tendo trabalhado no Palácio Nacional da Pena tive de estudar a história de Portugal do século XIX (período de que data o palácio) e, obviamente, o nome da Princesa Rattazzi surgiu nos meus estudos. Mulher de diplomata, foram variadas as vindas de Maria Rattazzi ao nosso país (a primeira por volta de 1876), tendo-lhe sido abertas as portas dos mais variados salões, mansões, festas e soirées. Dotada de um espírito observador e crítico (onde não faltava, certamente, uma boa dose dessas características tão frequentemente associadas ao sexo feminino – curiosidade e um prazer em opinar sobre tudo e todos), decidiu, em 1879, editar um livro cuja polémica lhe traria a fama nacional: “Portugal de Relance” (Edições Antígona, ISBN 9789726080909). Infelizmente com a fama chegou a polémica. O povo luso não gostou da maneira como a “estrangeira” os descrevia e várias vozes se levantaram para se lhe opor. Camilo fez questão de que a sua voz se ouvisse alto e em bom som.

No entanto, não foi o seu rancor pelas palavras da Sra. Rattazzi que mais me enfureceram… Afinal, todos têm o direito a ter a sua opinião acerca do que lêem. Foi, isso sim, a sua tendência para ofender e para generalizar a todas as mulheres escritoras as falhas que encontrou numa específica autora. A saber:
“Mulher escriptora, por via de regra pouco exceptuada, é um homem por dentro. O coração, que devia ser urna de suavissimas lagrimas, faz-se-lhe botija de tinta; e as dôces penas da alma metallisam-se-lhe aguçadas em pennas de aço. O fuso de Lucrecia e da rainha Bertha desfez-se em canetas. Em vez de tecerem o seu bragal, urdem intrigas. (…) e, quando não suspiram, bufam coleras represadas, dizem que têm idéias, que se querem emancipar, muito aziumadas, naturalistas, com um grande ar de pimponas que entraram no segredo dos processos; e, se não batem nos homens não é porque elles não o mereçam. (…) O Dom Francisco Manoel de Mello tinha razão; Mulheres doutoras, authoras e compositoras dava-as ao diabo. (…) Não ha feminilidades que se respeitem desde que a mulher se masculinisa, e, como escriptora de virago, salta as fronteiras do decoro, sofraldando as espumas das rendas até à altura da liga azul-ferrête.”

É este tipo de incoerência que me aborrece em Camilo. Da mesma maneira que a sua visão romântica de amor puro nada tinha a ver com a sua vida pessoal, também esta sua opinião sobre o lugar da mulher da literatura só pode ser ou uma ironia (de péssimo gosto) ou a falta de discernimento total por parte de um homem que foi preso pelo seu amor por uma mulher casada, Ana Plácido, ela própria… uma escritora.

Fonte: blogue Nota de Página

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