Mariana, a mais romântica em Amor de Perdição (continuação)

A MULHER PORTUGUESA NO SÉCULO XIX
A mulher portuguesa no século XIX tinha a situação idêntica à da maioria das mulheres da Europa, por imposição histórica ela ocupava um papel secundário na família, dependendo sempre do homem e sendo totalmente responsável pelos filhos. Isto significava que o poder estivesse todo concentrado no pai ou no marido, de forma que era permitido que o homem a maltratasse e que deveria obedecê-lo.
A mulher era privada de seriedade da razão. A sociedade que a puseram neste patamar e era feita para obedecer.

“- Hás de casar! Quero que cases! Quero… Quando não, serás amaldiçoada para sempre, Teresa! Morrerás num convento! Esta casa irá para teu primo! Nenhum infame há de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós. Se és uma ama vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que daí te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol.”

Camilo Castelo Branco. Amor de Perdição. p. 141.)

Elas não tinham liberdade de escolha, obedecer era dever, as mulheres eram preparadas para o casamento, em que o pretendente era escolhido pelo pai, ressaltando que o noivo deveria ser da mesma classe social, muitas vezes era de 10 a 20 anos mais velho. O ato do matrimonial para o pai da mulher era um leilão, quem paga mais “leva”. A mulher portuguesa era totalmente submissa, sua obrigação era servir ao pai ou ao marido. Elas não detinham nenhum direito de cidadã. Quando era burguesa vivia para se casar e quando camponesa da mesma forma, ou casava, oi ia para o convento até morrer.
A mulher desta época não tinha identidade, o homem que a dominava, mesmo presa ao tradicionalismo, regras, imposições, muitas cometiam adultério pois eram infelizes, eram violentadas pelos maridos.
Hoje, século XXI a mulher portuguesa conquista pouco a pouco sua identidade e seu espaço, mas falta muito para que a sociedade machista aceite que as mulheres tenham o mesmo direito que os homens. Essas conquistas chegaram através de grandes mulheres.

MARIANA, A MAIS ROMÂNTICA PERSONAGEM DE AMOR DE PERDIÇÃO, DE CAMILO CASTELO BRANCO
O Romantismo consagra a imagem da mulher tradicional e a visão do verdadeiro amor como destino fatal. Na Literatura Portuguesa quem aparentemente mais contribui para isso, foi Camilo Castelo Branco, particularmente com seus romances Amor de Perdição e Amor de Salvação, destacando para nosso estudo apenas Amor de Perdição.
Amor de Perdição, bem ao gosto romântico, sua característica principal é o seu tom trágico, suas personagens estão sempre em luta contra terríveis obstáculos para alcançar a felicidade no amor. Nesta novela passional de temática exemplar, é levada as últimas consequências a idéia de que o sentimento deve sobrepor-se à vida e a razão. Ao tratar um amor impossível e discutir a oposição entre a emoção e os limites impostos pela sociedade à realização da paixão, as personagens confirmam o seu destino trágico sem conseguir o objetivo da paixão. Nele o mesmo amor que redime resulta em morte, conforme antecipa o narrador na introdução do livro, “Amou, perde-se e morreu amando” (p. 17)
Normalmente essa busca é frustrante, os direitos do coração, frequentemente, vão de encontro aos valores sociais e morais. A obra focaliza dois apaixonados que tem como obstáculo para a realização
amorosa a rivalidade entre as famílias e deste obstáculo surge uma terceira personagem, Mariana a que estudaremos neste trabalho. Nossa personagem em estudo é Mariana, filha de João da Cruz, é a amante silenciosa, mulher mais velha de 24 anos, criada no campo, pertence a uma classe social mais popular. Dela o narrador diz ter “formas bonitas” e um rosto “belo e triste”, para realçar a grandeza de seu amor-renúncia. O despreedimento que mostra a moça amando Simão em silêncio e, por isso, ajudando-o a se aproximar da felicidade pela figura representada por Teresa, faz parte do ideário romântico.  Abnegada e fiel, Mariana jamais diz uma palavra e controla obstinadamente seu ciúme. É a personagem que mais sofre no romance, é uma das personagens que nunca se realiza sentimentalmente e tem um final trágico.
Percebemos não só na personagem, como na temática da obra, uma abordagem ao amor nas suas formas mais exaltadas, acima do controle da razão inevitavelmente ligada a morte.  A essência da atitude romântica reside no subjetivismo, individualismo e o egocentrismo que decorrem da noção de liberdade do indivíduo, caracterizando a importância do eu do artista a toda realidade. Mariana é uma personagem diferente, rara. Determina-se no decorrer da obra para direções talvez não prevista pelo autor, dedicando-se a um homem que sabia muito bem estar louco por outra, num amor-vassalagem, aparentemente assexuado.
É uma espécie de confidente e moderadora de impulsos passionais. Dona de casa muito cedo, Mariana começou por ser para Simão uma espécie de mãe, deslizando logo para a situação de companheira amorosa, esperando contra toda esperança unisse ao infeliz moço que um dia lhe apareceu ferido em casa.  Encontramos representados em Mariana a personificação da mulher proposta pela escolha literária, sujeito idealizado subjetivamente pela natureza romântica em que se torna objeto admirável e ao mesmo tempo inalcançável, no tocante à nobreza de comportamento incorruptíveis, Mariana supera o próprio sentimento, anulando-se em função do amor de Simão por Tereza. A sua atitude de resignação total a o ser amado, sem que possa esperar reciprocidade, também caracteriza uma simbologia de caráter perfeito, modelo mistificado do feminino romântico, podemos perceber no trecho seguinte:

“- Ouça-me, Mariana: que espera de mim?
– Que hei de eu esperar!…
Por que me diz isso o senhor Simão?
– Os sacrifícios que Mariana tem feito e quer fazer por mim só podiam
ter uma paga, embora mos não faça esperando recompensa. Abre-me o seu
coração, Mariana?
– Que quer que eu lhe diga?
– Conhece a minha vida também como eu, não é verdade?
– Conheço. E que tem isso?
-Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte àquela desgraçada senhora?
– E daí? Quem lhe diz menos disso?!
-Os sentimentos do coração só os posso agradece com amizade.
-E eu já lhe pedi mais alguma coisa senhor Simão? “

Outra característica do Romantismo que percebemos na obra é o fatalismo e a idéia de morte, a eterna busca da felicidade não é encontrada e os personagens têm um final trágico:

“Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremeçarem longe. E, antes que o baque do cadáver se fizesse ouvir na água; todos viram, e ninguém já pode segurar Mariana, que se atirara ao mar. À voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Mariana. Salvá-la!… Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir a morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços.”

Com a morte de seu amado, Mariana se atira ao mar para acompanhar Simão e poder cumprir a realização de estar ao lado do homem que ama. O mundo romântico é idealizado, povoado de personagens virtuosos e sem contradições, nesse contexto, podem-se contrapor às regras sociais, mas sempre guiados por seus sentimentos. E o suicídio de Mariana é uma das marcas desse sentimento acima de qualquer coisa, resultando na morte para obter a vitória do amor. A figura mais complexa e humana da obra, o narrador salienta a beleza física a respeito de Mariana:

“O ferrador tinha uma filha, moça de 24 anos, formas bonitas, um rosto belo e triste. Notou Simão os reparos em que ela se demorava a contemplá-lo e perguntou-lhe a causa daquele olhar melancólico com que ele o fitava.Mariana corou, abriu um sorriso triste e respondeu.”

Mariana, moça pobre e do campo, de olhos tristes e belos, tem sido considerada como a personagem mais romântica da história porque o sentir a satisfazer, sem necessidade ao menos de esperança de concretizar-se o seu amor por Simão. Independente do amor entre Teresa e Simão, Mariana o ama e tudo faz por ele: cuida de sua ferida, arruma-lhe dinheiro, é cúmplice da paixão proibida, abandonando o pai para fazer companhia e prestar-lhes serviços na prisão e finalmente suicida-se após a morte de Simão, essas atitudes abnegadas, resignadas e totalmente desvinculadas de reciprocidade, fazem de Mariana uma personificação do espírito de Sacrifício e assim caracteriza-a como uma personagem romântica, capaz de abandonar a tudo e a todos para servir ao seu amado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir desta análise, pretendemos especificar a mulher romântica da literatura portuguesa, não apenas como mais uma pessoa da sociedade e sim mais uma pessoa com sentimentos capaz de viver intensamente suas emoções, colocando uma nova ênfase nos obstáculos sociais à realização do amor.
Buscamos na época do romantismo, classificar a nossa personagem em estudo, Mariana em uma personagem romântica, uma personagem feminina que mesmo na época em que o homem dominava, a mulher não tinha identidade, ocupava um lugar secundário na família e sua obrigação era servir, defendia seus sentimentos e conseguia conciliar a obediência à admiração.

Referências

BENEDITO, Nunes. Visão Romantica (in romantismo Guiberg, Jacó. (org) 4ª Ed S.P. Perspectiva, 2005 p.51-74).

Massaud Moises. A literatura Portuguesa, 2005

Antonio José Saraíva e Oscar Lopes. História da Literatura Portuguesa, 2004

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/67083/1/Mariana-a-mais-Romantica-personagem-em-Amor-de-Perdicao-de-Camilo-Castelo-Branco/pagina1.html#ixzz1RPxEq9E7

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