O Riso

“Era meu propósito dizer espalmadamente que, há vinte anos, comecei a ver as duas faces dos lances tristes: uma que entende com as gândulas lacrimais, outra com o diafragma. Primeira, se não choro, condoo-me; depois, esgaravatando na raiz das dores humanas, encontro aí ou sedimento de perversidade ou ridicularias miresabilissimas. Então é o rir. E, a fim de que os padecentes me desculpem, rio primeiro de mim.

Daí se causou que os meus livros, entre muitos defeitos, realçam em um que tem ferido a benevolência da crítica: e é que não conservo, sem intercadências desvanecidamente faceciosas, uma situação plangente, e amarguro com o acerbo da ironia a dulcidão das lágrimas.

É justo o reparo.

E neste livro me quer parecer que tal defeito subirá de ponto, porque vou intender em tragédias amorosas, nesta idade de quarenta e três anos feitos, velhice em que nenhum escritor sincero, obediente a Horácio deu aos seus leitores o exemplo das lágrimas.

D. Francisco Manuel de Melo, em anos cediços, escreveu uma Epanáfora Amorosa. Sucede, por isso, ao extremado estilista que faz rir a gente quando os meus personagens choram. É o providencial castigo de quem manda, fora de sazão, à cata de flores, ou intenta com miradas perpétuas de fragrância de tomilhos ao livro que ressumbra o acre enjoativo do

Camilo Castelo Branco
In A Mulher Fatal

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