O beijo, nas Memórias do Cárcere

Sou tão avesso, e tamanho asco tenho a beijos, como aquele frade da mesa censória, que mandava riscar beijo, e escrever ósculo. Os teólogos casuístas, e nomeadamente S. Afonso Maria de Ligório, conjuram unânimes contra o beijo, inscrevendo-o no catálogo das desonestidades. Não digo tanto. Entendo que beijo pode ser acto inocente, mas não pode ser nunca limpo e asseado. É um contacto de extrema materialidade, com toda a sua grosseria corpórea.
Não sei quando se deram os primeiros beijos no mundo. Aqueles de que fala a Bíblia significavam quase sempre desenvoltura. Nos amores de Sara, de Raquel, de Ruth e de outras criaturas santificadas não se mencionam beijos. Os irmãos de José, quando o venderam aos medianitas, beijaram-no. Judas Escariotes, quando malsinou Jesus, beijou-o. Não tenho dos livros primordiais mais agradáveis reminiscências de beijos.
Nos poetas gregos e latinos sei eu que eles simbolizam muita podridão moral, de Lais, de Lésbias, de Frineias, de Márcias e de Cláudias. Um dos poetas coevos delas disse que os próprios deuses de mármore se anojaram de tais lábios. A reforma cristã caminhou e irá indo sempre ladeada do paganismo. Permanecem os beijos; a impureza de muitos não tem inveja à de Roma. E, como os ídolos se baquearam, há imagens de santos para os mesmos lábios, que automaticamente se regelam, no pau, dos brasumes da carnalidade. Madalena beijou os pés de Cristo; mas primeiro lhes lavou de lágrimas. Também Marta lhes beijou, mas primeiro lhes perfumou com o incenso, em que vaporava o melhor de seus haveres. O beijo, após as lágrimas e o incenso, eram um pacto da alma contrita com o seu regenerador. Madalena, depois daquele ósculo, penitenciou-se quarenta anos nas brenhas do deserto.
Mas estes beijos de sôfrega ânsia, saldos como dizem em faíscas do coração, afiguram-se-me golfos de peçonha que arrevessa a cobra cascavel… Chegámos ao segredo da comparação. Aí tem o leitor como muitas belezas se escondem e despercebem nos escritos de quem se não dá à canseira de ser escoliastes de si próprio.
Bem hajas tu, Rosinha, que retraíste o rosto mimoso e virgem de beijos, ao arremesso daqueles lábios do tenente, que outro romancista havia de chamar avelulados, e eu chamo sujos das impurezas do tabaco, e de outras cujo monopolizador encartado é o espírito imundo, o demónio, Deus me perdoe!

In Memórias do Cárcere

Camilo Castelo Branco

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