A morte como transcendência em Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco

Amor de Perdição é uma novela passional, levando em conta a forma com que agem seus personagens – que seguem cegamente os impulsos do coração – , o final trágico e a atmosfera dramática que permeia toda a obra. Levando-se também em conta o fato de a obra estar inserida no contexto do Romantismo, ao qual apresenta-se como excelente exemplo.

Na época do Romantismo uma forma de sentir concretizou-se no plano literário e artístico: sentimentos conflituosos, de entusiasmos e paixões desmedidas e ilimitadas. Se há impedimentos ao amor, igualmente há uma saída para que ele triunfe, mesmo no caos. Essa saída é a morte, transcendência do amor não possibilitado em vida. O que seria o amor na vida perante a eternidade do amor na morte?

Nesta novela, as intrigas constroem-se em torno de três elementos fundamentais: a família, o casamento e o amor. O casal luta pela concretização de seus sentimentos, passando por todo tipo de provações, mas com a permanente idéia de que sua união através do amor poderá ser conseguida na morte, se esgotados todos os recursos em vida. Esse é o amor ideal, verdadeiro, ilimitado, objeto de trabalho dos românticos.

Chama a atenção a permanente vinculação do amor à idéia da morte, chegando-se mesmo a concluir por sua necessidade em determinado contexto narrativo, quando os caminhos se estreitam de tal forma que outra escolha não se faz possível.

Inicialmente temos o triângulo amoroso formado por Teresa, Simão e Baltasar. Depois, a formação de outro triângulo amoroso: Teresa, Simão e com a presença de Mariana como elemento de ligação entre o amor de Simão e Teresa. Mesmo amando Simão, Mariana não rivaliza com Teresa, muitas vezes auxiliando o casal apaixonado, intermediando a correspondência entre eles. Adiante-se que todos eles terão o mesmo final trágico: a morte.

No entanto, há problemas para a concretização do amor de Simão e Teresa: a rivalidade entre as famílias e o comprometimento de Teresa em casar-se com seu primo Baltasar: “Por parte de Baltasar Coutinho a paixão inflamou-se tão depressa, quanto o coração de Teresa se congelou de terror e repugnância.”

No capítulo II há a primeira menção à morte como solução, num bilhete escrito por Teresa a Simão: “Não me esqueças tu e achar-me-ás no convento, ou no Céu, sempre tua do coração, e sempre leal.” Até mesmo o pai de Teresa, no capítulo IV, prefere a morte como solução ao impasse de sua recusa ao casamento com o primo Baltasar: “– Hás de casar! Quero que cases! Quero…Quando não, serás amaldiçoada para sempre, Teresa! Morrerás num convento!”

No capítulo V, Simão é apresentado a Mariana, que lhe vaticina: “– Não sei o que me adivinha o coração a respeito de vossa senhoria. Alguma desgraça está para lhe suceder…”

O ferrador João da Cruz, pai de Mariana, passa a ajudar Simão em sua empreitada por amor. Conta-lhe que Baltasar o queria contratar para matá-lo.

No capítulo VII, Teresa é recolhida ao convento de Monchique, no Porto, e tem contato com a realidade do convento. Teresa começa a arrefecer e acreditar que dificilmente conseguirá realizar seu desejo de se unir a Simão.

No capítulo VIII, Mariana delineia a morte como solução para determinados conflitos. Num diálogo com Simão ela assim diz, referindo à possibilidade de seu pai ser condenado por um crime: “Teria treze anos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço, se ele fosse condenado à morte. Se o degredassem, então ia com ele; ia morrer onde ele fosse morrer.” Neste mesmo diálogo Mariana relata a Simão o sonho que tivera com ele: “[…] eu estava a chorar porque via uma pessoa muito minha amiga a cair numa cova muito funda…”

Simão ama Teresa, que cada vez lhe parece mais distante. Provavelmente essa distância que existe para a concretização de seu amor só faz aumentar ainda mais seu sentimento. Percebe-se a insistência sobre a inseparabilidade do prazer e da dor, como se para amar tivesse também que sofrer, pois o amor seria enaltecido por esse sofrimento numa provável equivalência de sofrimento atroz e amor grandioso. Segundo Walter Benjamin “a vida trágica é a mais imanente de todas as vidas. Por isso seus limites sempre se fundem com os da morte… Para a tragédia, a morte – o limite em si – é uma realidade sempre imanente, indissoluvelmente ligada a cada um dos acontecimentos trágicos.”

Em face de tantas adversidades, Simão sente suas esperanças arrefecerem e no capítulo X escreve uma carta à Teresa, em que coloca como sente já a morte tão próxima, delineando-se como perfeita solução. A carta toda é perpassada por intensa morbidez, como se ele tentasse preparar a amada para o destino que os aguardava em seu amor impossível: “O sol da manhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. Parece que o frio de minha sepultura me está passando o sangue e os ossos.” Note-se que Simão considera a hipótese da morte como viável para ambos, ou seja, desde que morram juntos, unidos por seu desgraçado amor: “[…] o que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti.”

Neste mesmo capítulo, Mariana faz novas previsões pessimistas em relação a Simão: “– Choro porque me parece que o não tornarei a ver; ou, se o vir, será de modo que oxalá que eu morresse antes de o ver.”

Simão parte na tentativa de salvar sua amada das garras de seus algozes e diz: “O destino há de cumprir-se… Seja o que o céu quiser.”

Em diálogo com seu pai, Teresa não volta atrás em sua decisão, seu pai insiste, mas ela mantém-se irredutível: “– Não, meu pai. O meu destino é o convento. Esquecê-lo nem por morte.”

Na tentativa desastrada de fugir com Teresa, Simão Botelho acaba matando seu rival Baltasar, assume seu crime como um cavalheiro e recusa-se a fugir.

O pai de Simão, mesmo podendo ajudá-lo, recusa-se a isso: “– O juiz de fora que cumpra as leis; se ele não for rigoroso, eu o obrigarei a sê-lo.” O pai de Simão também cogita a morte como solução ao impasse: “Eu antes queria ver mil vezes morto Simão que ligado a essa família.”

Seres apaixonados em luta contra uma sociedade injusta, preconceituosa e materialista, que não desistem de sua luta maior, pelo seu amor. Sabem que não deveriam ter se apaixonado um pelo outro, mas não conseguem abdicar da paixão que fatalmente os uniu. Enfrentam todas as vicissitudes que lhes impõem o destino, buscando sofregamente uma felicidade que se apresenta cada vez mais distante.

Simão aguarda o julgamento preso, com a fraterna companhia de Mariana. No capítulo XII é dada a sentença: “Ouviu o réu a sentença de morte natural para sempre na forca, arvorada no local do delito.” Para aumentar ainda mais o sofrimento de Simão, ele percebe o quanto Mariana o ama: “Agudíssima foi então a dor do acadêmico ao compreender […] que Mariana o amava até o extremo de morrer.”

Quanto à Teresa, já conta como certas sua morte e a de Simão: “Não recalcitrou Teresa. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe que a envolvesse a ela, e ao seu amor, e à sua esperança, de todo, na negrura de suas asas.” No capítulo XIII, Teresa envia a Simão uma carta permeada pelo tema da morte: “Simão, meu esposo. Sei tudo…Está conosco a morte.[…] Se tu pudesses viver agora, de que te serviria? Eu também estou condenada, e sem remédio. Segue-me, Simão! Não tenhas saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser feliz, se me não tivesses encontrado no caminho por onde te levei à morte… E que morte, meu Deus!… Aceita-a!”

Note-se que Teresa lamenta que Simão a tenha um dia encontrado e que já se considera culpada por sua morte. No Romantismo há mesmo esse quê de fatalidade, do Mal e da Morte encarnados na figura feminina.

A partir de então, Teresa começa a ficar doente. Seu pai se apieda dela e pensa em tirá-la do convento na tentativa de salvá-la. No entanto, Simão lhe escreve pedindo-lhe que não morra, pois ainda há esperanças. Teresa se desespera, arquejando em pranto: “– Se eu não tenho já forças!… Todos dizem que eu morro, e o médico já nem me receita!… Então melhor me fora ter acabado antes desta hora! Morrer com esperanças, ó Mãe de Deus!”

A sensibilidade romântica separa e une opostos: completamente desesperançados que estavam, agora voltam-se com todo fervor à chance de se unirem – o que bem retrata a experiência conflitiva aguda que vivenciavam estes personagens.

No capítulo XIV, num diálogo entre Teresa e seu pai, ele lhe diz que é sua obrigação como pai corrigir sua má sina, ao que Teresa lhe responde, atendo-se mais uma vez à morte: “– Está corrigida, meu pai. A morte emenda todos os erros da vida.” Neste mesmo diálogo ela reitera que agora sua aspiração é morrer junto de seu amado: “A minha glória neste longo martírio seria uma forca levantada ao lado da do assassino.”

Quando torna-se impossível a resistência, quando os interesses familiares e sociais mostram-se mais fortes, a união dos apaixonados só será possível por uma via: a morte. O amor romântico encontra na morte a sua mais pura forma de realização. O papel da morte é apresentar-se como solução ao amor terrenamente impossível.

No capítulo XVIII é Mariana quem apela para a solução através da morte. Simão mostra-se preocupado em relação a ela, pois seu pai já havia falecido e se ele morresse na forca ela ficaria ao desamparo: “– Falemos, minha amiga, porque eu hei de sentir à hora da morte, a pesar-me na alma, a responsabilidade do seu destino… Se eu morrer?” Percebe-se pela resposta de Mariana sua intenção de suicídio: “– Se o senhor morrer, eu saberei morrer também.” Simão confirma a grandeza de seu amor por Teresa: “– Sabe que estou ligado pela vida e pela morte àquela desgraçada senhora?”

Nesta visão trágica do mundo encontram-se fundidas vida e morte, ascensão e decadência da pretensa realização de desejos. Aceitar um sentimento com tantas forças contrárias é, também, aceitar a infelicidade. A aceitação trágica da morte decorre da impossibilidade da concretização do amor, ou seja, a transcendência deste sentimento. A personagem Mariana ama sem ser correspondida, e parece encontrar forças mesmo neste amor unilateral; ela consegue encontrar prazer em seu sofrimento, pois acompanha Simão por todo o seu calvário, sequer titubeando uma única vez. Nas palavras de Nietzsche “a nossa natureza mais íntima, o fundo comum do nosso ser, encontra um prazer indispensável e uma alegria profunda na imensa paixão de sonhar.”

A pena de Simão foi comutada para dez anos de degredo para a Índia, o que não diminuiu sua dor, nem o fez desapegar-se da idéia de morte como solução ao seu amor impossível.

No capítulo XIX, já caminhando para o final da narrativa, a morte vai se tornando idéia fixa tanto para Simão quanto para Teresa. Ambos cada vez mais se convencem de sua iminente necessidade. Simão assim escreve em sua missiva: “Não temos nada neste mundo. Caminhemos ao encontro da morte…Há um segredo que só no sepulcro se sabe. Ver-nos-emos? […] E, se não, morre, Teresa, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as fibras laceradas pela dor, é o esquecimento que salva das injúrias a memória dos padecentes.”

Teresa lhe responde: “Morrerei, Simão, morrerei […] e morro, porque não posso, nem poderei jamais resgatar-te.”

O pensamento romântico trabalha a união de dois seres pela morte, a verdadeira união, indestrutível, infinita, elevação à unidade suprema. Uma verdadeira união só será conseguida através de muitos sofrimentos e privações; a distância de ambos aumentando ainda mais seu amor.

Simão parte para o degredo a 17 de março de 1807.

Teresa, cada vez mais doente, aceita uma xícara de caldo e murmura com um sorriso: “– Para a viagem…” Já se imagina à qual viagem ela se refere; interessante notar que ela proferiu essas palavras com um sorriso nos lábios, o que denota ter sido esta a sua opção, e para ela estaria se encaminhando.

No penúltimo capítulo, apesar de tantas contingências contrárias, eles conseguem se despedir, mesmo que com olhares longínquos, num êxtase de extremo sofrimento, em despedida não somente um do outro, mas desta vida que não lhes possibilitou a união a que tanto almejavam.

Acrescente-se a esse momento de tensão da narrativa a morte de Teresa durante esta despedida: “Simão, adeus até à eternidade!” Percebe-se que Teresa tinha consciência de sua morte e que esperava outra chance, em outra vida, para encontrar-se com Simão. Este, por sua vez: “– Acabou-se tudo!…- murmurou Simão. – Eis-me livre… para a morte…”

Antes, porém, de sua morte, como cavalheiro que era, preocupou-se com Mariana e só se tranqüilizou quando o comandante jurou-lhe zelar por ela, que, no entanto, já tinha para si outros planos:

“– Estou tranqüilo pelo seu futuro, minha amiga.

– Eu já o estava, senhor Simão – respondeu ela. “

No derradeiro capítulo a morte avança para cumprir seu papel na vida dos três personagens, não como algoz, mas possibilitando a transcendência de seu amor.

Em carta de Teresa, postumamente lida por Simão, ela se coloca como sua “esposa do Céu”.

Depois de tantas emoções, Simão adoece com uma febre e a morte dele se aproxima celeremente. Em seu íntimo, aguarda também a morte de Mariana: “Tu virás ter conosco; ser-te-emos irmãos no Céu.”

O final da narrativa reúne em si toda a dramaticidade da história. Simão morre e Mariana, como já havia deixado entrever pelos seus diálogos com Simão, suicida-se agarrada ao cadáver dele que havia sido jogado ao mar.

No amor romântico há uma permanente vinculação do amor à idéia da morte, muitas vezes à própria necessidade da morte. É como se uma fatalidade tivesse unido os personagens num amor que não deveria ter nascido entre eles, e que, portanto, teria que transcender esta vida. O amor romântico encontra na morte a sua mais pura forma de realização.

BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter. Origem do Drama Barroco Alemão. São Paulo: Brasiliense, 1984.

GINSBURG, Jacob (org.). O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 1978.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Origem da Tragédia. São Paulo: Moraes, 1984.

PRAZ, Mário. A Carne, a Morte e o Diabo na Literatura Romântica. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996.

SARAIVA, António José e Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora, 1996.

Rosana Cássia Kamita

Rosana Cássia Kamita é professora de Português e frequenta actualmente o mestrado em Letras na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, Brasil.

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