Missão social do escritor

Reconhece o autor que este livro seria deficientíssimo, se assentasse em alguma ideia fundamentalmente filosófica. Não estamos em terra onde se invista a novela de missão que não seja espairecer o ânimo de estudos atentos, ou desenfastiá-lo dos enojos da ociosidade. Os letrados, que baixam até ao romance, querem-no, dizem eles, filosófico, e apontado a discutir alguma transcendente questão social. Nada mais nem menos que encomendarem ao romancista os serviços que aos legisladores incumbe prestar à sociedade. Fazem-lhe muita honra, dão-lhe grande foro nas coisas da república; mas o pior é que os editores recomendam a menos filosofia que ser possa nestes livros, e queixam-se da míngua da concorrência dos letrados ao balcão, onde a novela discreteadora e pedagógica não ousa medir-se com as facécias da cena cómica. É ver quem leva mais os olhos na sala das mascaradas – se Sócrates sobraçando a túnica e mesurando os poderosos passos, se o palhaço tilintando os guizos…

Camilo Castelo Branco, In prefácio à 2ª edição “Doida do Candal”, 1867

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