O destino do escritor

Não obstante, os famintos de romances com recheio de sucosas cabidelas insistem que o romancista deve imolar ao agrado e contentamento da crítica o gosto destragado da maioria dos leitores. Pensam e aconselham discretamente. Eu por mim tenho querido contentá-los; e, se alguma vez o consegui, foi pontualmente nos livros que esperam no limbo das estantes dos editores a redenção do gosto fino, a segunda luz das inteligências esclarecidas. Por onde havemos de concluir que o escrever para a posteridade é um sacratíssimo dever tão-somente a uns bem sorteados da fortuna que têm segura a vida presente, e se esmeram em prolongar a futura pela eternidade fora até encontrar uma geração que lha perpetue no bronze da estátua. Bonito destino, quando os contemporâneos se não persuadem que o aparelho digestivo do escritor é de bronze também, e, como tal, descarecido da refeição das moléculas que dão calor vital ao sangue, ao músculo, à massa que forma os camarins do espírito, esta coisa chamada engenho. Engenho de bem escrever! Palavra oca de que ri galhofeiramente quem tiver um de fazer açúcar ou serrar madeira.”

 

Camilo Castelo Branco

In prefácio à 2ª edição “Doida do Candal”, 1867

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