Miguel Torga escreve sobre Camilo

https://i0.wp.com/farm4.staticflickr.com/3053/2831414082_909de1e939_z.jpg

Camilo! Criado à sombra escalvada do Marão, viera perder-se entre videiras de enforcado. Mas deixara nos seus livros, viva, indelével, a paisagem da infância. E as suas novelas do Minho não são nunca um pacífico enlevo à sombra das ramadas, pastoris cenas de amor do litógrafo Júlio Dinis. Rangem como turbulentas paixões entre o céu e a terra, nuas e ossudas. As verduras da mocidade com Ana Plácido acabaram numa secura de fraga.

Encontrei a sombra do romancista ainda mais trágica do que a deixara da última vez. O tempo afundara-lhe a marca das bexigas, aumentara-lhe a cegueira, acrescentara-lhe a loucura. Era um prisioneiro revoltado num jardim de avencas. Percorreu a meu lado, sinistramente, cada compartimento da casa, reviu os desenhos do filho doido, anatematizou a lápis, numa das estantes, um volume d´A Relíquia, acompanhou-me ao patamar da escada, e esgalhou um rebento serôdio e agoirento da acácia do Jorge. Já nem o viço daquela lembrança podia tolerar! Fugi, aterrado. Não havia dúvida que os quilómetros de esmeralda lhe não tinham pacificado o coração. A paisagem é, realmente, um estado de alma…

Miguel Torga

In Portugal, Coimbra, 1950

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: