Homenagem a Vasco Graça Moura | do Amor como Fatalidade

É um Camilo Castelo Branco já na idade madura e de há muito consagrado como romancista quem escreve a sua obra-prima, o Amor de Perdição, quando se encontra preso na Cadeia da Relação do Porto, sob a acusação de adultério com Ana Plácido e devido à sanha persecutória do marido desta, Manuel Pinheiro Alves.
Quem leia o livro e tenha também percorrido os autos do processo em que o escritor foi réu e a que já dediquei um pequeno ensaio há alguns anos, pode aperceber-se de duas dimensões distintas que radicam na situação do detido: por um lado, ele defende-se com unhas e dentes, negando a pés juntos a existência de uma qualquer sua relação ilícita com Ana Plácido, atitude que manterá até final do julgamento e para a qual já aventei uma hipótese explicativa; por outro lado, e baseando-se num caso de família cujo registo encontrou nos arquivos da prisão, escreve em poucos dias a mais
dilacerante novela passional da literatura portuguesa.
Pode ver-se uma conexão importante, conquanto discreta, entre estes dois aspectos em que, de algum modo, à negação sistemática em que a defesa baseou to da a sua estratégia, vem acrescer não propriamente uma «confissão» do arguido, mas um texto de profundo dramatismo sobre a intensidade e a tragédia do amor quando este tem de lutar contra os mais poderosos obstáculos sociais. O facto de a história de que arranca o enredo se ter passado com um tio do autor poderia até reforçar esta observação, na medida em que o situa como alguém em cuja família há precedentes dessa natureza.

Óscar Lopes fala algures da sacralização do amor na obra dos Românticos, e em especial na de Camilo, numa linha que, entre outros casos, também deriva do de Tristão e Iseu. No tocante ao Amor de Perdição pode todavia explorar-se mais esse parentesco.
A situação romanesca tratada por Camilo espelha o paradigma do amor total, de um amor desvairado e fatal, como o de Tristão e Iseu, incapaz de redenção neste vale de lágrimas, ou só susceptível de redenção pela morte. Transpondo do domínio da velha lenda medieval, tanto para o do incipiente capitalismo portuense como para o da prosápia altaneira e fidalga do interior do
país em tempos do Constitucionalismo, poderíamos buscar alguns paralelismos estruturais e ver que o Tristão-Camilo se apodera da Iseu-Ana Plácido, mulher do
Rei Marco-Pinheiro Alves, tal como o Tristão-Simão Botelho se perde de amores por Iseu-Teresa de Albuquerque, destinada pela palavra irreversível de seu pai ao Rei Marco-Baltasar Coutinho.
A morte não espreita os actores do drama judiciário que corria seus termos pelos tribunais do foro do Porto, mas recorta-se no horizonte dos protagonistas do romance como se estivesse a ser pressentida enquanto desfecho na vida real para aqueles, pelo menos como morte civil ou banimento, por força do escândalo, do meio social a que pertenciam.

Ler mais aqui 

Vasco Graça Moura

Prefácio “Amor de Perdição, editado Leya, 2008

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