Coração, cabeça e estômago

1. Nos romances de Camilo Castelo Branco, não há uma árvore, resumiu Guerra Junqueiro. Não li Camilo o suficiente para saber se a conta é justa. Resumindo isto em carioca, ele escreveu trocentos livros e eu estou à beira de ler apenas mais um por nele surgir o seu compincha, defunto desde 1869, Faustino Xavier de Novais, que, depois de “um amor baixo, ignóbil até à miséria” (palavras de Camilo), rumou do Porto ao Rio de Janeiro. Mas não era por aqui que eu ia, pelo menos, pra já. Vou a caminho de Estremoz, paisagem que só pelos sobreiros merece um romance.

2. Sábado é dia de feira em Estremoz. Duas amigas (que um dia saíram de casa pra comprar uma casa em Lisboa e se acharam a comprar uma ruína no Alentejo) tinham mandado uma mensagem a perguntar se eu queria ir à feira, passavam a apanhar-me. Não me lembro quando foi a última vez que fui a Estremoz, acho que Mário Soares ainda era Presidente da República, o que quer dizer que alguns leitores não eram nascidos. Pois, aqui vamos.

3. O Rossio de Estremoz está lotado. Todo um parque automóvel, jipes de chegar aos montes, rulotes. Rulotes? A amiga que não veio ao volante arrisca uma tese: são os novos nómadas em rota pelo Alentejo. Eis senão quando um cidadão de clara extracção sedentária, género treinador de sofá, emerge de uma rulote e a minha amiga repensa. Mas não é uma nem duas rulotes, e carros são às dezenas (literalmente, não no sentido figurado de o meu amigo-agricultor-que-lê-Agamben ter dezenas de gatos, quando, na verdade, dele mesmo, são apenas sete; é importante repor a verosimilhança, do ponto de vista da agricultura biológica, tal como esclarecer que seis meses de leitura à lareira são serões, não dias inteiros; o meu amigo agricultor considera as implicações de cada palavra, a que está e a que falta, não vá o demo andar no meio da rua, como diria Guimarães Rosa).

4. As bancas de queijo têm um saldo para os que saíram meio tortos. Vendem-se em saquinhos de cinco euros, mistura grossa de amarelos e ruivos, vários tamanhos, curas várias. Para quem morou no Rio é um festim (o Rio quer a paz-o pão-a habitação, mas também não ia mal um queijinho). E além dos aleijados, portanto sobreviventes, acho-me ainda com um fresco que vai azedar se andar ao sol, avisa o mercador, tirando-me a pinta. Nisto, as minhas amigas, alcofa já cheia de enchidos, além de um garrafão de azeite (é tudo verdade, cariocas, continuamos nisto dos garrafões, não sendo o vinho é o azeite, mas melhores do que nunca), encontram amigos de Lisboa, daqueles com monte perto, e acabamos a almoçar todos em Estremoz, deixando queijos, enchidos e garrafões no Rossio das rulotes, e levando connosco os frescos, espinafres, morangos, manjericão e o queijo (que ficará guardado na vitrine da sericaia, essa bomba calórica com nome de cobra da Amazônia). E sobre a mesa? Ensopado de borrego, migas com carne de alguidar, lombinhos, pimentinhos, 15 euros por cabeça, incluindo vinho (está bem que só uma garrafa). Pede algum pousio, de modo que seguimos para o tal monte, em Evoramonte.

5. Não tenho memória de aqui ter vindo, nem como repórter de campanha eleitoral. Atravessando a vila, dando a volta ao castelo lá no alto, um caminho passa a trilho de pedras e aparece o primeiro sobreiro de parar, sair do carro mesmo. A amiga que agora não vai ao volante explica que é um Quercus suber, porque é bióloga, ciência tão vasta quanto a diferença entre uma borboleta e um sobreiro. Calha que a especialidade dela são borboletas, embora não se defina como lepidopteróloga, no sentido em que, por exemplo, Vladimir Nabokov o foi. Pergunto se o foi a sério e ela diz que muito a sério (embora a posteridade tenha concluído que eram variantes da mesma espécie o que ele avaliou como espécies diferentes). Aprendo também que tudo isto são carvalhos, os sobreiros, as azinheiras, não iguais aos do meu leitor lá em cima, em Geraz do Lima, outra espécie. Talvez seja uma problemática semelhante à das variantes entre as borboletas. Mas já não consigo dizer como se chama aquele arbusto que pintalga a berma de cor-de-gema-de-ovo. Tem o perfume de uma flor de que eu não sei o nome, igual à da minha canção favorita de Jorge Ben.

6. No monte há cactos, trazidos e cuidados pela anfitriã. Um quase-perdigueiro hiperactivo, que corre loucamente, e cactos como não me lembro de ver no México, até. Um tem uns pinos cor-de-rosa, outro uma coroa escarlate. A nossa bióloga é mais adepta das espécies endémicas, nem cactos nem nenúfares, que, tal como os cactos, se dão lindamente aqui, plantados no tanque, para alegria das rãs. E mais uma garrafa de vinho branco, porque o sol já caminha para Verão.

7. Antes que se ponha, subimos ao castelo, bizarro castelo de torreões redondos que parece uma construção moderna dentro de uma muralha antiga, também ela pontuada por baluartes redondos. Entramos num cafezinho para perguntar, e o rapaz ao balcão conta-nos que não sabe ao certo mas a muralha é pelo menos de Dom Dinis (está muito certo, foi Dom Dinis que a mandou edificar, leio depois). Significa isto 1306, quando estas ruas seriam bastante mais movimentadas. Agora, vejam bem, são 16 habitantes dentro de muralhas, contando com o rapaz. E saindo para o terraço percebe-se porque já antes de Dom Dinis aqui estavam os árabes: é um horizonte que vai embora, conta-se que até à serra da Estrela.

8. Subimos a um baluarte, contornamos a muralha, passando pelo cemitério dos combatentes da guerra (qual guerra?). Adiante, o castelo está fechado porque já passa das 17h. Miramos aqueles laçarotes em relevo, sem entender nada, parece-nos obra recente (qual quê, leio depois, originalmente século XVI). Antes de partir, uma placa diz que ali foi assinada a paz entre miguelistas e liberais. Eis onde Camilo vai entroncar.

9. À noite, já em casa, abro o texto de uma pesquisadora brasileira, Marta de Senna, sobre a pouco estudada influência de Camilo Castelo Branco em Machado de Assis. Porquê pouco estudada? Talvez os brasileiros tenham relutado em dar peso a Camilo, tão impestivo fora ele com autores brasileiros, sugere Marta, como talvez os portugueses tenham relutado em tirar galões ao maior autor brasileiro, por cerimónia. De qualquer forma, um dos livros de Camilo que mais terão influenciado Machado éCoração, Cabeça e Estômago, onde aparece (assim, com o verdadeiro nome) Faustino Xavier de Novais, o tal que foi para o Rio depois de “um amor baixo, ignóbil até à miséria”, e no Rio veio a ser amigo e a seguir cunhado de Machado de Assis. Não é de excluir, sugere a pesquisadora, que os irmãos Xavier de Novais tenham tido um passado miguelista e que isso também os tenha empurrado para o Rio de Janeiro, um a um. Se assim foi, estavam entre os derrotados da guerra que acabou em Evoramonte. Quanto aos sobreiros, diga quem souber se algum chegou a Camilo.

 

Alexandra Lucas Coelho

Fonte: Público, 11 maio 2014

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