Amor – Crónica

«O amor é uma luz que não deixa escurecer a vida.» Assim pensava Camilo Castelo Branco, após anos de experiências exaustivas com a vida, o objecto científico dos que estudam isto de se ser humano.

É sempre difícil falar de amor. Porque o perigo está em o re­duzir a uma ideia romântica ideal repetida por histórias e novelas. O amor a que Camilo se referia será, porventura, maior do que aquele que se comemora apenas num dia frio de Fevereiro. Ou mais diverso do que o amor romântico. E mais duradouro do que a pró­pria vida, certamente. Principalmente, o amor terá de ser uma constante, para que a centelha não se apague nunca. Permanecerá depois como fogo-fátuo para relembrar que, na sua ausência, tudo se apaga sem chama e sem pulsação. Há quem diga que equivale à vida e que sem ele morre-se, mesmo continuando o coração a bater.

O amor de que fala pode estar depositado noutras pessoas, mas quer-me parecer que primeiro terá de estar depositado em nós. Para saber amar o outro, há que reservar algum amor a nós mesmos. O amor-próprio anda mal cotado, porque a ele se atri­buem os excessos de personalidade. Na verdade, o amor não pode existir em demasia. É contra a sua natureza. Não se pode amar de mais. Senão não é amor. É outra coisa. Uma projecção de medos ou inseguranças, ou desejos e impulsos. Se alguém é egoísta ou cheio de si, não será porque terá demasiado amor a si mesmo, mas porque não sabe sequer amar-se. Consequentemente, não saberá amar os outros.

Não sei o que significa alguém que se entrega aos outros sem se entregar primeiro a si. Entregará, porventura, um invólucro vazio. Mas o vazio não é capaz de amar. Confundir-se-á o acto de amar com o acto de precisar. Um invólucro precisa de algo que o preencha. Na impossibilidade de se preencher a si mesmo, procura o contributo dos outros. Fica dependente do mes­mo para ter existência própria.

É imperativo sermos bons amantes de nós próprios. Estimarmos esta luz que vive cá dentro para que nunca se extin­ga. Serão estes pequenos pontos de luz que vamos deixando pelo caminho que preservarão a nossa memória, muito depois de nos termos ido. E ajudarão a alumiar outras vidas, enquanto estas não se apagarem também.

Dividir é a operação aritmética mais importante nisto de amar. Atrás dela virão todas as outras. Quando se partilha afecto com alguém, soma-se o bem-estar e a felicidade, multiplicam-se vidas e alegrias, subtrai-se a solidão e o isolamento. É uma mate­mática que não assusta, nem é difícil de entender. Mas, por vezes, é difícil de pôr em prática. Se falar sobre o amor é complicado, amar é ainda mais. Nada que seja bom se consegue sem um míni­mo de esforço. O amor não se isenta portanto de algum esforço de manutenção. Para já porque o caminho entre nós e quem amamos quer-se bem cuidado. Tentar não lhe colocar obstáculos parece-me importante. Ou desviar os que já lá estão, também. O objecti­vo será traçar um caminho que cada um sinta vontade de percor­rer até ao outro, encontrando-se os dois a meio.

Não entendo o amor sem um encontro a meio. Quem es­teja à espera que o outro faça o caminho todo até si, sem que seja preciso dar um passo em frente, esperará em vão. Antes de se construírem caminhos em conjunto, há que estimar aquele que irá levar ao nosso encontro. E que não se pense apenas em encon­tros românticos. O amor em relação ao outro reveste-se de muitas formas, mas obriga aos mesmos esforços. E traz a mesma recom­pensa. Uma luz vibrante que nos aquece o rosto e nos alivia o peso da morte, transformando-a em vida.

ANA BACALHAU 

Fonte: Notícias Magazine, 23 fevereiro 2014

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