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Archive for the ‘Camilo Castelo Branco’ Category

miguel_torga

Camilo! Criado à sombra escalvada do Marão, viera perder-se entre videiras de enforcado. Mas deixara nos seus livros, viva, indelével, a paisagem da infância. E as suas novelas do Minho não são nunca um pacífico enlevo à sombra das ramadas, pastoris cenas de amor do litógrafo Júlio Dinis. Rangem como turbulentas paixões entre o céu e a terra, nuas e ossudas. As verduras da mocidade com Ana Plácido acabaram numa secura de fraga.

Encontrei a sombra do romancista ainda mais trágica do que a deixara da última vez. O tempo afundara-lhe a marca das bexigas, aumentara-lhe a cegueira, acrescentara-lhe a loucura. Era um prisioneiro revoltado num jardim de avencas. Percorreu a meu lado, sinistramente, cada compartimento da casa, reviu os desenhos do filho doido, anatematizou a lápis, numa das estantes, um volume d´A Relíquia, acompanhou-me ao patamar da escada, e esgalhou um rebento serôdio e agoirento da acácia do Jorge. Já nem o viço daquela lembrança podia tolerar! Fugi, aterrado. Não havia dúvida que os quilómetros de esmeralda lhe não tinham pacificado o coração. A paisagem é, realmente, um estado de alma…

Miguel Torga

In Portugal, Coimbra, 1950

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Tão longe dos Amores de Perdição que o condenaram mais uma vez a frequentar a antiga Cadeia da Relação. O Camilo de S. Miguel de Seide está mesmo muito escondido ali na avenida que tem o seu nome.
Esta obra do escultor Henrique Moreira (1890-1979) foi oferecida à cidade por “O Comércio do Porto” em 1925.

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Com 136 anos de vida, feitos em Novembro último, e palco de encontro, no passado, de escritores portugueses célebres como Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós, o Grande Hotel de Paris já passou por momentos bons e maus. Na última década, tem tentado recuperar e preservar a sua história.

Situado nos números 27 a 29 da Rua da Fábrica, na baixa do Porto, o histórico hotel, que ascendeu recentemente à categoria de hotel de  3 estrelas, está agora apostado em recuperar a aura de outros tempos. A confirmação de que esta era a unidade hoteleira mais antiga da cidade chegou com o livro “Grande Hotel de Paris – Uma História no Porto”, publicado por Octávio Miguel Félix, em 2011.

“Com uma nova direcção, em 1999, o hotel começou a renascer e a partir de 2001, houve uma nova vontade de preservar e recuperar. O hotel foi adquirido em 1999 pela nova direcção e percebeu-se que havia grande potencial”, explica Amílcar Gomes, responsável pela comunicação do Grande Hotel de Paris.

À conversa com o P24, o responsável conta como a actual equipa tentou”recuperar o máximo possível”. “Este é um exercício que tem sido feito até hoje, o de recuperação, mas também o de perceber a história e valorizar o autêntico”, refere Amílcar Gomes, que recorre a uma citação do livro de Octávio Félix para explicar as mudanças que o hotel sofreu. “Além da reestruturação dos serviços hoteleiros fundamentais, dezenas de peças de época têm sido recuperadas, despontando, nas suas alas, um simpático ‘hotel museu’”.

Actualmente, o Grande Hotel de Paris tenta “catalogar algumas peças, por exemplo, o PBX [sistema de telefone com múltiplas linhas, outrora utilizado sobretudo em empresas], a central telefónica e o piano”, revela Amílcar Gomes.

Edifício é de 1857

Apesar de o hotel ter surgido em 1877, foi em 1857 que o edifício foi construído. Nesse ano, funcionava como casa da Filarmónica Portuense, como explica o livro de Octávio Félix, sendo, na altura, “uma construção apalaçada tipicamente portuense dos arruamentos da época”. O edifício tinha um “alçado sóbrio com uma impressão de verticalidade” e, escreve o autor, ganhava “em profundidade” o que perdia “de frente”. “Foi mandado construir pelo negociante da cidade Manuel Fernandes da Costa Guimarães”, conta Octávio Félix.

Em 1877, “Manuel Fernandes preside o conselho de administração [do Grande Paris Hotel]. O cargo de director responsável é do francês Léopold Cyrille Gabriel Dupuy. Ernesto Chardron e Mathieux Lugan são vogais da sociedade. Os 2 últimos proprietários da Livraria Internacional Ernesto Chardron, depois a famosa Livraria Lello”, relata o livro de Otávio Félix.

“Quando o hotel surge, o Porto estava a viver o crescimento da revolução industrial. Por isso, quando [o hotel] foi inaugurado pretendia ser hotel de primeira [classe], com aquilo que de nacional havia para oferecer. E, durante o período de crescimento da cidade, o hotel também cresceu, transformando-se numa referência”, conta Amílcar Gomes.

No hotel, ficaram alojadas várias celebridades. Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Rafael Bordalo Pinheiro são alguns dos notáveis que passaram pelo Grande Hotel de Paris. Reza a história que foi aqui que Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro reataram uma amizade que andava de “costas voltadas”. “Há uma história engraçada, quando o Camilo Castelo Branco estava no final de vida. O Ricardo Jorge, um médico, patrocinou a visita do Guerra Junqueiro aqui, quando os 2 estavam de costas voltadas, por defenderem teses diferentes. Sendo amigos, ficavam de costas voltadas. E foi nesse encontro que reacenderam a amizade”, conta Amílcar Gomes.

Tertúlias políticas e literárias

Com o tempo, o hotel  ”começou também a ser apelidado de ‘Casa Transmontana’ no Porto. Havia hóspedes estrangeiros, mas a população do Porto também vinha para as tertúlias e discussões politícas, literárias, entre outras”, refere o responsável.

Porém, a ligação umbilical do hotel com a cidade do Porto, que no início ajudou a fazer crescer o Paris, também contribuiu para o seu declínio. “No [início da década de] 80,passou a ser uma residencial. Isto esteve relacionado um pouco com o declínio da cidade do Porto”, explica Amílcar Gomes.

“A autentecidade que o caracteriza, também a localização, o facto de existir uma boa relação com os hóspedes, um ambiente familiar”, são actualmente os pontos fortes do Grande Hotel de Paris e são “vários” os hóspedes “que voltam todos os anos”.

“O segredo é mesmo a autenticidade”, diz, por seu turno, David Ferreira, o director do hotel, que lamenta que os portuenses “que passam na rua não se apercebam” de que ali fica um hotel e um hotel com tanta história.

“A biblioteca [do hotel] é feita pelos hóspedes e para os hóspedes”, que podem deixar e requisitar livros ‘à boleia’ do bookcrossing. “Neste momento, a nossa biblioteca tem livros da Coreia do Sul, da Noruega, obras em inglês de referência a autores menos conhecidos de Itália, por exemplo”, explica Amílcar Gomes.

Dependendo da época do ano, uma noite neste histórico do Porto, que serve pequenos-almoços numa sala ao estilo “Belle Époque” e organiza saraus, pode ficar entre 45 e 75 euros.

Fonte: Porto 24

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Amor – Crónica

«O amor é uma luz que não deixa escurecer a vida.» Assim pensava Camilo Castelo Branco, após anos de experiências exaustivas com a vida, o objecto científico dos que estudam isto de se ser humano.

É sempre difícil falar de amor. Porque o perigo está em o re­duzir a uma ideia romântica ideal repetida por histórias e novelas. O amor a que Camilo se referia será, porventura, maior do que aquele que se comemora apenas num dia frio de Fevereiro. Ou mais diverso do que o amor romântico. E mais duradouro do que a pró­pria vida, certamente. Principalmente, o amor terá de ser uma constante, para que a centelha não se apague nunca. Permanecerá depois como fogo-fátuo para relembrar que, na sua ausência, tudo se apaga sem chama e sem pulsação. Há quem diga que equivale à vida e que sem ele morre-se, mesmo continuando o coração a bater.

O amor de que fala pode estar depositado noutras pessoas, mas quer-me parecer que primeiro terá de estar depositado em nós. Para saber amar o outro, há que reservar algum amor a nós mesmos. O amor-próprio anda mal cotado, porque a ele se atri­buem os excessos de personalidade. Na verdade, o amor não pode existir em demasia. É contra a sua natureza. Não se pode amar de mais. Senão não é amor. É outra coisa. Uma projecção de medos ou inseguranças, ou desejos e impulsos. Se alguém é egoísta ou cheio de si, não será porque terá demasiado amor a si mesmo, mas porque não sabe sequer amar-se. Consequentemente, não saberá amar os outros.

Não sei o que significa alguém que se entrega aos outros sem se entregar primeiro a si. Entregará, porventura, um invólucro vazio. Mas o vazio não é capaz de amar. Confundir-se-á o acto de amar com o acto de precisar. Um invólucro precisa de algo que o preencha. Na impossibilidade de se preencher a si mesmo, procura o contributo dos outros. Fica dependente do mes­mo para ter existência própria.

É imperativo sermos bons amantes de nós próprios. Estimarmos esta luz que vive cá dentro para que nunca se extin­ga. Serão estes pequenos pontos de luz que vamos deixando pelo caminho que preservarão a nossa memória, muito depois de nos termos ido. E ajudarão a alumiar outras vidas, enquanto estas não se apagarem também.

Dividir é a operação aritmética mais importante nisto de amar. Atrás dela virão todas as outras. Quando se partilha afecto com alguém, soma-se o bem-estar e a felicidade, multiplicam-se vidas e alegrias, subtrai-se a solidão e o isolamento. É uma mate­mática que não assusta, nem é difícil de entender. Mas, por vezes, é difícil de pôr em prática. Se falar sobre o amor é complicado, amar é ainda mais. Nada que seja bom se consegue sem um míni­mo de esforço. O amor não se isenta portanto de algum esforço de manutenção. Para já porque o caminho entre nós e quem amamos quer-se bem cuidado. Tentar não lhe colocar obstáculos parece-me importante. Ou desviar os que já lá estão, também. O objecti­vo será traçar um caminho que cada um sinta vontade de percor­rer até ao outro, encontrando-se os dois a meio.

Não entendo o amor sem um encontro a meio. Quem es­teja à espera que o outro faça o caminho todo até si, sem que seja preciso dar um passo em frente, esperará em vão. Antes de se construírem caminhos em conjunto, há que estimar aquele que irá levar ao nosso encontro. E que não se pense apenas em encon­tros românticos. O amor em relação ao outro reveste-se de muitas formas, mas obriga aos mesmos esforços. E traz a mesma recom­pensa. Uma luz vibrante que nos aquece o rosto e nos alivia o peso da morte, transformando-a em vida.

ANA BACALHAU 

Fonte: Notícias Magazine, 23 fevereiro 2014

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O novo filme do cineasta Manoel de Oliveira, “O velho do Restelo” começou a ser rodado  junto à casa do realizador, na Cidade Invicta, junto à Foz, conta com a participação dos atores Luís Miguel Cintra, Ricardo Trepa, Diogo Mória e Mário Barroso, a partir do argumento assinado pelo realizador de 105 anos.

“O Velho do Restelo” inspira-se na personagem pessimista e derrotista de “Os Lusíadas” e associa-lhe uma leitura pessoal de textos de Miguel de Cervantes, Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco, além de excertos de filmes anteriores do próprio realizador.

Trata-se de um filme sobre «um presente suspenso da realidade» da crise económica que se abateu sobre Portugal e é baseado em partes do livro “O Penitente”, de Teixeira de Pascoaes, que evoca as diferenças entre Cervantes e Camilo Castelo Branco.

Luís Miguel Cintra vai dar corpo a Camões, Ricardo Trepa encarnará a personagem D. Quixote, Diogo Dória o escritor Teixeira de Pascoaes e Mário Barroso será Camilo Castelo Branco.

” Pascoaes e D. Quixote, cada um trajando à sua época, cada um sentado na sua extremidade de um banco de pedra. A eles irão juntar-se Camilo Castelo Branco e Camões”.

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Cavidade craniana

Era 1860. Naquele fim de primavera, entrava pelas portas de Guimarães um homem com pouco mais de trinta anos e o rosto coberto de buracos. Não vinha em busca das preciosidades históricas da cidade nem das “mais lindas mulheres da Península”, de que falara um viajante francês. Os seus passos inseguros procuravam tão somente o refúgio onde pudesse repousar o corpo metido a tormentos de febre e de cansaço. Guiaram-no até ao largo da Oliveira onde, junto aos Paços do Concelho, estava a casa da Joaninha. Não da Joaninha silvestre, de Garrett, perdida no meio da Charneca, mas de uma velha repelente, “curtida em camadas de lixo empedrado”. Obrigado a acoitar-se em tal hospedaria, que era, tal como a descreveu um dia, “um pântano de miasmas”, o viajante encontrou no leito onde ansiara acalmar o estado febril “muito bicho, coevo do rei Bamba, que lhe cravou a oliveira à porta”. E os alimentos que lhe deram, esses, eram capazes de desfazer “febra a febra” o seu estômago agoniado.
O homem agoniado de quem falámos chama-se Camilo Castelo Branco. Ainda jovem, a sua figura já se erguia entre os maiores escritores do seu tempoQue livro traçaria ele naquela altura? Apenas o romance das horas incertas da sua vida. A sua presença em Guimarães era a de um foragido que viajava incógnito, em fuga aos quadrilheiros da justiça, que o perseguiam com um mandato de captura na algibeira. E estranho crime era o seu: apenas uma paixão feroz por uma mulher casada: Ana Plácido.
Camilo apenas permaneceu uma noite entre os bichos do leito da Joaninha. Lembrou-se que, nas Taipas, tinha um conhecido, Francisco Martins, o qual, alguns anos antes, havia publicado um livro de poemas marcado por uma espessa amargura e “um impenetrável desengano”. Do seu encontro com aquele homem dirá Camilo nas “Memórias do Cárcere”: Procurei o conhecido e achei um amigocomo usam raramente ser os irmãos”.
Anos mais tarde, em 1990, aquando da passagem do centenário da morte de Camilo, escrevi um outro texto sobre sobre o tema Camilo e Guimarães, que foi publicado no mesmo jornal:
Eram antigas as ligações de Camilo Castelo Branco a Martins Sarmento e a Guimarães. No ano de 1855, vinha a lume um livro intitulado Poesias, assinado por F. Martins. Camilo dedicou-lhe um artigo, que incluiria nos seus Esboços de Apreciações Literárias (l865). Aí se lê:
As setenta e seis poesias do sr. Francisco Martins, que venho a ler com o vagar de quem estuda uma vida e decifra um homem de vinte e dois anos, são daquelas que marcam o paroxismo da última flama da fé para a escuridão impenetrável do desengano.
E, perante toda a carga de amargura e tragédia humana que transpirava daquele livro, Camilo conta que perguntou ao poeta se tudo aquilo seria verdade. Entrou então no segredo de grandíssimas dores. Tal segredo tem sido apontado como a causa do envolvimento de Martins Sarmento nas investigações arqueológicas. É o próprio Camilo que o refere, na dedicatória a Sarmento do seu livro No Bom Jesus do Monte (l864):
[…] Desde que o amor das cristãs lhe desmiolou a cavidade craniana, anda em caça de mouras encantadas no ímpio propósito de mourizar-se, se alguma o envolver nas madeixas negras, destrançadas com pente de ouro e pérolas.”
António Amaro das Neves
In Jornal O Povo de Guimarães

 

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Artigo de António Amaro das Neves

Ver aqui:

https://docs.google.com/viewer?url=https%3A%2F%2Fsites.google.com%2Fsite%2Fa4neves%2Faraduca%2FMemAraduca_Docs_05.pdf%3Fattredirects%3D0%26d%3D1

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