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Archive for the ‘No Bom Jesus do Monte’ Category

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Embarcamos no barco a vapor chamado Jorge IV. Uma criada, que tinha ares de mestre da minha irmã, veio connosco, estipendiada por conta do nosso património. A senhora Carlota Joaquina não me esquece. Era uma mulher gorda, facuda e frescalhona,

que bolsava os fígados do beliche abaixo, e gritava a d’el-rei de aflita com o enjoo. Era imundo, sujo a mais não poder, o Jorge IV. A camara era comum dos dois sexos, com menos resguardo que os mosteiros dúplices da Idade Media; mas os ânimos dos passageiros pareceram-me a negação de toda a ideia monástica. Os homens do beliche do segundo andar conversavam com as mulheres do primeiro diálogo entrecortados de vómitos. A senhora Carlota, que ficou a minha esquerda, praguejava contra o seu destino; e o meu vizinho da direita, sujeito de grandes barbas, saia do beliche em menores para lhe ter mão na testa. Esta caridade absolve a inconveniência da mistura. Dos passageiros nenhum falava inglês, e o criado da camara, que também era fogueiro, atenta a negrura encarvoada da camisa e cara, quando lhe pediam chá, café ou um caldo de galinha, dava sempre água por um canudo de lata.

Carlota exclamava: – Eu morro! – Tenha paciência, menina!, acudia o homem das barbas. – Não há- de morrer querendo os deuses. Devia de ser pagão o monstro! – Eu morro!, rebramia ela. Quero confessar-me!…

Não peca a confissão a estes brutos, observava-lhe o meu vizinho, que alem de não terem deus nenhum, se a menina lhes pede um padre, trazem-lhe agua na lata surrada. Havia muito mar quando se avistou a barra do Porto; e por isso arribamos a Galiza. A nossa Carlota, assim que pôs os quatro pés e os dois estômagos na hospedaria de Vigo engordou outra vez. O pagão não saia da beira dela. No dia seguinte abalou para Tui por uns calinhos que Deus e a civilização já fizeram desaparecer da face do globo. Ao outro dia passamos Valença; e depois a Ponte de Lima, e de la a Braga em romagem ao Bom Jesus.

Camilo Castelo Branco,

in No Bom Jesus do Monte (1864)

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“As primeiras pedras deste monumento glorioso do Salvador lançaram-nas D. Jorge da Costa, arcebispo de Braga em 1474; D. João da Guarda em 1522; e D. Rodrigo de Moura Teles em 1725.

Chamava-se Espinho a serra onde primariamente se arvorou uma cruz com sua capelinha. A ermida, com o impulso de um dignitário da Sé bracarense, alargou-se. Um século depois a devoção achou arrasada a ermida, e reedificou-a, adornando-a com a imagem de Cristo, sob a invocação de Bom Jesus do Monte.

Instituiu-se uma confraria, que se foi esmolando os paramentos para a capela, e a fábrica de umas outras, que estão soterradas nos alicerces das que ora existem. De hoje a trezentos anos, que pompas arquitectónicas hão-de ver ali os crentes do futuro? Quem receará enganar-se, antevendo que nenhuma capela, nenhuma pompa, nenhum braço de cruz quebrada alveje entre a espessura da mata? Quem me diz que haverá árvores e serra por lá?! Estarão ali uns fabricantes ingleses com engenhos de algodão, um algodão que os Ingleses hão-de inventar? A igreja de hoje, desmantelada de retábulos, e brocados, e relíquias, e órgãos, será um soturno receptáculo de protestantes?

Mando esta pergunta ao ano de 1964, se ainda então se contar pelo nascimento de Cristo.

Prendendo o fio da breve narrativa, as obras continuaram prosperamente desde 1722. Os passeios interpostos às capelas datam desta época.

No local onde está S. Longuinhos, oferta de um devoto em 1819, era a torre do antigo templo, inteiramente abatido. Algumas capelas foram feitas à custa dos professores de latim de Braga. Não se julgue da riqueza de um mestre de latim no século passado, nem da sua santimónia por este facto. Ë que os valentes ousaram medir-se arca por arca, sobre a competência do ensino, com a companhia de Jesus. Perderam a demanda, e pagaram as custas, com as quais se construíram principalmente as quinze estátuas dos escadórios. Pobres latinistas! Aquelas estátuas deviam simbolizar a vossa angústia petrificadora, quando vos converteram o suor em Esdras, e Josephos, e Salomões! Os jesuítas meteram-vos à força a imortalidade em casa.

Manuel Rebelo da Costa, falecido em 1771, foi o braço mais poderoso que tirou da rocha o máximo das grandezas do santuário.

Seguiu-se depois a edificação do templo, coadjuvada por Pedro José da Silva, e a plano do arquitecto Carlos Luís Ferreira da Cruz Amarante, falecido no Porto em 1815, e sepultado na igreja da Trindade, cujo risco deste templo oferecera gratuitamente.

Até este ano, eu nunca perguntei que mão piedosa levantara a primeira capela do santuário.”

Camilo Castelo Branco
In No Bom Jesus do Monte. 3ª edição. Porto : Livraria Lello & Irmão; Lisboa : Aillaud & Lellos, Limitada, [19– ], p. 135-137

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“Tinha eu nove anos, e era órfão. Dois meses depois deste desamparo, com o tenro coração fistulado de saudade, a desbordar de lágrimas, e os ouvidos ainda ressoando-me à alma o estertor da agonia de meu pai, é que eu, pela primeira vez, entrei no Santuário do Bom Jesus. As lembranças, gravadas pelas fugitivas impressões daquela idade, são poucas; mas assim mesmo, em todas as épocas ulteriores que ali fui, o tão remoto passado, com as suas quase delidas memórias, vinha entreluzir-me nas comoções melancólicas do presente. Os grupos piedosos das capelas que prendem a curiosidade da criança, já enternecendo-a com o aspecto doce e aflito de Jesus, já apavorando-a com o gesto sanhudo e esgares ferozes dos soldados de Pôncio, pouco me lembram, salvo um rapaz do meu tamanho de então, que chegava os pregos aos crucificadores do mártir. O que ainda indelevelmente diviso na tela do meu espírito dos nove anos, é as grandes árvores, as sombras escuras. os penhascos musgosos, e, lá em baixo, um oceano de verduras ondulando entre outeiros, e à volta dos presbitérios, casalejos, e edifícios de grande porte, que alvejavam de entre a espessura dos arvoredos.”

Camilo Castelo Branco
In No Bom Jesus do Monte. 3ª edição. Porto : Livraria Lello & Irmão; Lisboa : Aillaud & Lellos, Limitada, [19– ], p. 8-9

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Ao reler Camilo, vejo-o reencontrar-se com as suas memórias No Bom Jesus do Monte[1], divagando e reflectindo uma última vez por entre os arvoredos “em rebates de saudade”. Este livro, onde relata amizades e amores que testemunhou ou viveu nas suas diversas estadas no sagrado monte entre 1835 e 1863, no dizer do próprio escritor “Fez-se a pedaços, ou a pedaços o coração o foi encadernando nas florestas do Bom Jesus do Monte.” As suas “carvalheiras”, “o cerrado arvoredo da Mãe-d’Água“, as “salas tapetadas de relva e abobadadas de folhagem” são o cenário privilegiado daqueles episódios.

As primeiras lembranças recuam ao tempo em que o autor, criança e órfão há dois meses, vai pela primeira vez ao Santuário. Dessa visita o que “ainda indelevelmente” divisa são exactamente “as grandes árvores, as sombras escuras, os penhascos musgosos”.

Esse amor pelas árvores confessa-o logo na dedicatória ao amigo de Guimarães, em jeito de carta datada de 6 de Março de 1864. Aí, receando estar a alongar-se demasiado nas suas referências ao sucessor do majestoso carvalho que no tempo de Frei Bartolomeu dos Mártires existiu no lugar de Ruivães, justifica assim o seu entusiasmo: “Desculpe, Francisco Martins, estas delongas à conta de uma árvore. Você sabe que amor eu tenho às árvores. […] Este livro que eu lhe dedico tem muito com arvoredos.” A confirmar esse amor, formula mesmo um especial desejo: “A minha ambição é possuir uma árvore que me cubra com um pavilhão de folhas a casa de sete palmos, que hei-de comprar num cemitério […] quando o preço de um livro me der para a sepultura e para a árvore.”

Mas a verdadeira exaltação das árvores e a evocação do refrigério da sua sombra e do bálsamo da sua música, essa é feita no intróito, cujas primeiras palavras são para elas: “Estas árvores são minhas amigas há vinte e sete anos. Vim hoje aqui despedir-me delas: creio que para sempre me despeço. […] Eu já encaneci; e elas verdejam exuberantes de seiva. Faço trinta e oito anos, inclinado à sepultura; e elas têm três séculos que viver, trezentas primaveras para se vestirem de galas novas. Meus netos virão saborear-se em vossas sombras, ó carvalheiras, ó verdes pavilhões que me cobristes nas máximas tristezas e alegrias de minha vida!”

Insistindo no consolo que traz a música das árvores, diz mais adiante: “Dá Deus estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados, que se acolhem fugitivos a ermos onde eles cuidam que o Céu os há-de ouvir.” Essa é para ele a música verdadeiramente reparadora e divina, e é em defesa dela que condena a prática em uso na época de fazer acompanhar as cerimónias religiosas de música profana: “Acalentava a música o exasperado Saul. Bons tempos! A música de agora é irritante. Há pouco entrei no templo: o sacerdote consagrava a hóstia, e o órgão entoava a Traviata. Santo Deus! Quem quiser música de adormecer dores, e levantar a alma à sua origem, há-de pedi-la à viração e à folhagem das florestas.”

Mesmo se a melancolia dos bosques inclina à tristeza ela é referida como uma tristeza “generosa” e que desperta “salutares pensamentos”, porque é uma “tristeza que nos vem esmolada do Céu.” É entre o arvoredo que se ouvem melodias genuinamente inspiradoras e apaziguadoras e se aprende a soletrar a verdadeira vida: “São as árvores uns grandes livros abertos, onde todos deletreamos coisas que não constam da Via-Sacra,…”.

Para melhor explicar essa voz das árvores, cita versos das Contemplações de Vítor Hugo, como: Crois-tu que Dieu […] / Aurait fait à jamais sonner la forêt sombre, […] Et qu’il n’aurait rien mis dans l’éternel murmure? […] / Tout parle. Et maintenant, homme, sais-tu pourquoi / Tout parle? Écoute bien. C’est que vents, ondes, flammes, / Arbres, roseaux, rochers, tout vit! / Tout est plein d’âmes. Também aqui, o escritor não perde a oportunidade de um toque mordaz: “Se o zeloso clero das cercanias do Bom Jesus vertesse à letra o tout est plein d’âmes, e o livro, que tal afirma, não escapasse ao Index do sacro colégio, veríamos as florestas mansíssimas da montanha invadidas pelos exorcistas e pelo machado, modos sabidos de afugentar almas das árvores. O grande poeta queria dizer que as árvores têm vozes misteriosas, e os corações audição interior que as escuta, e o entendimento lucidez que as compreende.”

Porque Camilo entendeu essas vozes e colheu paz e bem-estar junto dos arvoredos do Bom Jesus do Monte, as últimas palavras do intróito são de tristeza e saudade: “Quando lá ia, voltava sempre melhor. Nunca me aconteceu outro tanto ao dobrar a última página de livro de moral. Enquanto eu soube ler nas folhinhas das árvores, ia lá: agora que o gear da desgraça e do trigésimo oitavo Inverno […] me vai oxidando a alma, que iria fazer eu lá? Já não sei ler aqueles poemas, aqueles sublimes evangelhos, que o Senhor mandou escrever ao seu máximo apóstolo: a natureza. / Se eu tivesse filhos, havia de ir ali passar com eles três meses cada ano. De madrugada, e aos primeiros assomos da noite, iríamos ao bosque da Mãe-d’Água, e ouviríamos a glória do Senhor narrada pelos Céus. E mais nada. / E os meus filhos seriam bons.”

O significado e o poder que vimos conferido às árvores e à sua música fazem-nos sentir no ar o inefável eco de uma melodia que nunca deixará de se fazer ouvir apesar do ruído do mundo. Se quisermos crer nas afirmações do escritor de que “Chorar nas matas do Bom Jesus é chorar em presença de Deus” e de que é Deus que dá “estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados”, teremos como certo que a harmonia da natureza prevalecerá pois, sendo a música das árvores uma dádiva divina, ela estará imune à dissonante actuação dos homens. Saibam eles preservar o templo e as florestas da sagrada montanha de modo a que seja positiva a resposta dos vindouros à questão que Camilo deixa no ar: “De hoje a trezentos anos […] Quem me diz que haverá árvores e serra por lá?!”

Helena Laranjeiro
Braga, 11 de Março de 2008


[1] Castelo Branco, Camilo – No Bom Jesus do Monte. 2ª ed. Porto: Livraria Chardron, 1906.

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