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Archive for the ‘Novelas do Minho’ Category

À Memória do Senhor Rei D. Afonso Henriques

Eu não podia escrever uma novela urdida com factos de Guimarães sem me lembrar do mais notável filho daquela terra – o Senhor D. Afonso Henriques.Procurei nas ruas e praças de Guimarães a estátua do fundador da monarquia. A cidade opulenta, que tem ouro em barda, e abriu dois bancos como os pletóricos que se dão duas sangrias, não teve até hoje um pedaço de granito que pusesse com feitio de rei sobre um pedestal!
Se eu fosse rico, ou sequer pedreiro, quem fazia o monumento de Afonso era eu. Assim, como último dos escritores e o primeiro em patriotismo, apenas posso aqui levantar um perpétuo padrão ao vencedor de Ourique – ao real filho da mãe ingrata.”

 

Camilo Castelo Branco,
Dedicatória In “A viúva do Enforcado”, in Novelas do Minho, 1877

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editora Sistema Solar

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Minho

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª. (…)

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila. (…)

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas.

Camilo Castelo Branco
IN O Comendador (Novelas do Minho, 1875)

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O comendador


(da dedicatória da novela O Comendador)

A D. António da Costa

Em testemunho da regalada leitura que V. Ex.ª me deu com o seu MINHO, lhe ofereço uma das novelas de cá. O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família. A paisagem sugeriu-lhe, meu caro poeta, as prosas floridas do ridente livro. O seu estilo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmúrio das ribeiras onde o céu estrelado se espelha.

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª, afora o mais que aformoseia o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feitiçarias da arte com que V. Ex.ª disputa primores à natureza.

Camilo Castelo Branco

Novelas do Minho, In O Comendador

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Esta edição dos Livros RTP reúne três novelas publicadas por Camilo Castelo Branco entre 1875 e 1877. A primeira, que dá o nome a esta colectânea, Maria Moisés, retrata a história de uma jovem com este mesmo nome que, depois de abandonada à nascença, serve-se dos rendimentos que possui para dar auxílio a outras crianças cujo destino foi o mesmo que o dela. A segunda novela dá pelo nome de O Cego de Landim onde se conta a história de António José Pinto Monteiro, um homem cego que ficou conhecido pela designação que dá nome à novela. Por último, a terceira novela que dá pelo nome de A Morgada de Romariz e que conta a história dos antepassados de D. Felizarda, conhecida pelo pela designação que também dá nome a esta novela.
Esta foi uma obra muito interessante de ler. As três novelas presentes neste livro apresentam todas um ambiente muito rural, um pouco ao jeito dos contos de Miguel Torga, que me agradou bastante. Tirando a novela O Cego de Landim, todas elas mostram o lado duro do que eram viver no campo antigamente. Momentos em que o trabalho era duro e o pagamento escasso. Momentos em que as dificuldades eram muitas e, infelizmente, as bocas para alimentar por família também. Existem aqui e ali algumas críticas sociais nos textos, no entanto estão bem dissimuladas.
Isabel Maia
In Blogue Amálgama

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As Senhoras magras

 

“Nós, os rapazes que tínhamos alma e lira, queríamos que as nossas amadas, por várias razões, se alimentassem do aroma das finas flores, como Camões refere de certas famílias vizinhas do Ganges; ora os poetas da última hora, com o zelo de corretores de restaurantes, argúem, acaudilhados pelo Sr. R. Ortigão, as senhoras magras porque não digerem uns tantos quilos de boi com mostarda, nem bebem cerveja preta, nem barram de manteiga fresca o seu pão.”

Camilo Castelo Branco

O Filho Natural, in Novelas do Minho

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