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Archive for the ‘O Comendador’ Category

Minho

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª. (…)

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila. (…)

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas.

Camilo Castelo Branco
IN O Comendador (Novelas do Minho, 1875)

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O comendador


(da dedicatória da novela O Comendador)

A D. António da Costa

Em testemunho da regalada leitura que V. Ex.ª me deu com o seu MINHO, lhe ofereço uma das novelas de cá. O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família. A paisagem sugeriu-lhe, meu caro poeta, as prosas floridas do ridente livro. O seu estilo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmúrio das ribeiras onde o céu estrelado se espelha.

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª, afora o mais que aformoseia o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feitiçarias da arte com que V. Ex.ª disputa primores à natureza.

Camilo Castelo Branco

Novelas do Minho, In O Comendador

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As Novelas do Minho, do Camilo Castelo Branco, foram editadas originalmente em 12 fascículos mensais, a partir de 1875 até 1877. Todas as oito novelas foram escritas em S. Miguel Seide, excepto precisamente esta que aqui se apresenta “O Comendador”, escrita em Coimbra e dedicada a D. António da Costa, e originalmente publicado n´ “O Minho”. Esta novela escrita em plena maturidade intelectual do escritor, retrata a vida de Belchior, que em criança foi abandonado, pela mãe, à porta da igreja e que foi adoptado por uma viúva. Na sua juventude, apaixona-se pela filha de um homem rico e engravida-a. Furioso com a desonra, o pai dela e os irmãos dele arranjam maneira de o enviarem para o exército. Com a ajuda de um parente, Belchior foge para o Brasil. Vinte anos depois, regressa a Portugal com outro nome e rico, volta à aldeia e descobre o que se passou com a apaixonada e o filho, e arranja maneira de finalmente de se casar com ela.
Hoje podemos ouvir esta novela em mp3, descarregando-a do Boal – Biblioteca On-line Áudio de Literatura que é um excelente projecto de António Fidalgo e Rita Duarte da Universidade da Beira Interior, Covilhã.

“O Comendador” de Camilo Castelo Branco
(lida pelo actor Pedro Fonseca)

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