Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Cancioneiro Alegre’ Category

 

Conheci Augusto Soromenho muito infeliz nos mais florescentes em que o gear da desgraça requeima as flores. Ele não tinha flores, nem bifes, nem fraques. Era escrevente em um escritório de barreiras, recebia doze escassos vinténs por dia, desvelava as noites lendo de empréstimo livros obsoletos; e, nas horas feriadas ao seu emprego quotidiano, ia a livraria publica afligir os empregados pedindo livros em línguas mortas, como se os anémicos e românticos funcionários da biblioteca de S. Lazaro pudessem conhecer e carrejar os pulvéreos folios-máximos dos Santos Padres!

Camilo Castelo Branco

in Cancioneiro Alegre, vol. II

 

 

Anúncios

Read Full Post »

Gil Vicente


“Descobri o sítio onde ele nasceu em Guimarães. Já o disse ao País em uma novela, e ninguém fez caso disso. El-rei não me deu o hábito de Santiago, que eu tinha de olho. Também eu desisti, por vingança, de fazer saber a el-rei e ao País onde nasceu Manuel Mendes Enxúndia.
Dos peitos nobres a vingança é esta.
Era filho de Martim Vicente, ourives, e neto de Fernão Vicente, sapateiro, morador no Casal da Laje, freguesia de Santo Estêvão de Urgeses, nos arrabaldes da antiga Guimarães. Gil Vicente é o criador da grande e gordurosa chalaça lusitana em diálogo e o revelador da linguagem usada na corte de D. Manuel e nas alcovas das rainhas quando elas davam à luz os seus infantes ou festejavam o natalício do Menino Jesus. Como só temos impresso o vocabulário desse século nas obras de Gil Vicente e nos falta a crónica dos costumes da vida íntima, não sabemos se o comportamento das famílias era cândido como os seus dizeres. As rainhas riam muito quando assistiam ao parto duma personagem em cena, ajudado pelas pitorescas reflexões da parteira, que, em presença de Suas Altezas, fazia o mesmo que fez o filósofo Alcidamas, com o mais cínico desvergonhamento, no banquete do grego Luciano. Com tal baptismo, raiou a arte cénica em Portugal, e não há confrontá-la com os mistérios franceses e italianos, com os milagres em Inglaterra e com as comédias de Nabarro, impressas em Nápoles em 1517.
Gil Vicente saiu da Idade Média com toda a sua originalidade estreme e crua.”
Camilo Castelo Branco
In Cancioneiro Alegre, 1879

Read Full Post »

sem-titulo.jpg

Isabelle Arsenault

“Tudo o que nos alegre, poema ou tolice, é um raio da misericórdia divina”
Camilo Castelo Branco

In “Cancioneiro Alegre”

Read Full Post »

%d bloggers like this: