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Archive for the ‘A Queda de um Anjo’ Category

Muitas são as facetas da personalidade literária de Camilo Castelo Branco, que publicou mais de uma centena de volumes e foi uma figura central do Romantismo português. Poeta, polemista, pesquisador de documentos antigos, foi porém como novelista que se celebrizou.
Na obra novelística de Camilo, o veio mais conhecido é o da novela de amor e paixão. Nesse género, seu Amor de Perdição (1862) ocupa o lugar de obra-prima. Nessa novela, que fez enorme sucesso, encontramos o traço principal da novelística passional de Camilo: a concepção do amor como uma espécie de destino, de fatalidade, que domina e orienta e define a vida (e a morte) das personagens principais. Marcado pela transcendência, esse amor trará consigo sempre um equivalente de sofrimento e de infelicidade: ou porque a paixão se choca frontalmente com as necessidades do mundo social, ou porque significa, em última análise um desejo luciferino de recuperar o paraíso na terra. Para as suas personagens, basta essa percepção do caráter transcendente da paixão amorosa para que ela acarrete logo um cortejo de sofrimentos: o remorso, a vertigem do abismo, a percepção de que o amor mais sublime é aquele que se apresenta e se revela, em última análise, como impossibilidade. Por isso, nas suas novelas sentimentais desfilam tantos “mártires do amor”, tantos sofredores que, no sofrimento, encontram a razão de ser e o sentido mais profundo da sua vida.
Mas há um outro veio, quase tão rico como o primeiro, na obra de Camilo: a novela satírica, humorística, de crítica de costumes. Nesse gênero, a obra-prima é justamente A Queda dum Anjo.
Entretanto, antes de passar ao comentário dessa novela, talvez valha a pena lembrar que, em 1862, no mesmo ano em que publicou Amor de Perdição, Camilo também lançou sua primeira grande obra de prosa satírica: Coração, cabeça e estômago. Em ambos os gêneros, apesar das óbvias diferenças de enfoque e execução, encontramos as principais características de seu estilo e visão de mundo: a agilidade do diálogo, a notação muito realista e simpática dos costumes e falas populares, a convincente fixação dos traços característicos das personagens e, sobretudo, a crença de que o ideal amoroso não pode ser conciliado com a prática social cotidiana. Só que, enquanto na novela passional a realidade se apresenta principalmente como entrave à realização dos desejos e o mundo se recobre de um sentido trágico em que cada acontecimento ou circunstância se reveste de valor simbólico, na novela satírica não há por sobre os acontecimentos nenhum véu, nem sob eles nenhum sentido transcendente: tudo se passa no nível dos interesses mais imediatos. Isto é: quem fornece as diretrizes da vida das personagens já não é o desejo amoroso, mas a injunção social; não é a paixão, mas o apetite.
Assim sucede em A queda dum anjo, como se verá. Mas há, nessa novela, vários níveis em que se processa a crítica social. Vejamos apenas dois.
Num primeiro plano, o que temos aqui é a crítica da vida portuguesa da época da Regeneração. Calisto Elói, fidalgo, representante do velho Portugal, vai para Lisboa como deputado e passa a contrapor-se ao que julga serem os maus costumes do tempo. É pelos seus olhos que o narrador vai mostrando ao leitor a miséria moral e intelectual do novo mundo político lisboeta, em que o liberalismo produz mau português e muito oportunismo. Entretanto, ambientado na vida citadina e bafejado pelo amor, Calisto transforma-se radicalmente. É durante o processo de transformação que passa a ganhar vulto, na novela,  o segundo plano em que se exerce a ironia do narrador – por meio da manipulação muito hábil do ponto de vista e das expectativas de leitura – e a sua crítica a uma dada concepção da literatura e da sua função na sociedade moderna. Quanto ao primeiro ponto, vale a pena observar como o narrador, depois de conduzir o leitor a uma identificação com o protagonista e de mostrá-lo finalmente cometendo as mesmas faltas que antes censurara nos outros, preocupa-se em manter a nossa simpatia pelo anjo que desceu ao chão, tornando-nos assim, de alguma forma, cúmplices de Calisto. Quanto ao segundo, é só atentar para as provocações que o narrador faz ao leitor, ao prever as suas reações e desmontar alguns dos seus protocolos de leitura. Ainda a esse respeito, o final da novela é exemplar. Depois de intitular um dos últimos capítulos “A felicidade infernal do crime” escreve o narrador/autor: “Eu, como romancista, lamento que ele [Calisto] não viva muitíssimo apoquentado, para poder tirar a limpo a sã moralidade deste conto. Fica sendo, portanto, esta coisa uma novela que não há-de levar ao Céu número de almas mais vantajoso do que a novela do ano passado”.
Para entender bem a frase, temos de observar que, escrevendo apenas alguns anos depois de Garrett e Herculano, Camilo já vive um outro momento histórico, no que diz respeito à formação dos públicos e às formas da produção literária. Se Garrett trabalhou muito para criar um público literário para a novela e o teatro, e se Herculano dedicou-se longamente à educação do novo homem liberal, através dos seus romances e do trabalho na revista Panorama, Camilo já tem à sua disposição um público bastante diferente do deles: mais amplo e multiforme, e muito alimentado nos romances e folhetins franceses. Por isso é que ele não tem nenhuma ilusão sobre o papel da literatura correcção dos vícios sociais e sabe que o máximo a que a literatura pode almejar, no que diz respeito à ação sobre o meio social, é a manutenção de um bom padrão linguístico. Já em 1865, no prefácio a O Esqueleto, escrevia: “Enquanto à influência do romance nos costumes, estou mais que muito desconfiado de que o romance não morigera, nem desmoraliza”. No Amor de Perdição, ainda antes, registara no prefácio que a única contribuição importante do romance para a vida social era o trabalho linguístico. Agora, muito coerentemente, aponta para o caráter transitório da obra que escreve (trata-se da “novela do ano” de 1866), ao mesmo tempo que a designa displicentemente como “esta coisa”.
A crítica social se faz assim, neste momento da obra camiliana, não apenas pelo retrato de um dado meio social, mas também e talvez principalmente por meio da auto-ironia de um discurso que já não cabe na moldura romântica que ainda vigorava, já rebaixada, no horizonte dos seus leitores. Assim, se é verdade que, pela novela passional, Camilo se torna um dos maiores expoentes do Romantismo em Portugal, não é menos certo que é na sua novela irónica de crítica social que vamos encontrar o lado ainda hoje vivo e moderno da sua obra.
Paulo Franchetti
 [texto de apresentação de A Queda dum Anjo, publicado em 1997]
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“Como à força, fora ele uma noite ao teatro lírico, em companhia do abade de Estevães, que amava a música pelo muito amor que tinha à guitarra, delícias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento apaixonado.
Calisto inteirou-se do enredo da ópera, e assistiu em convulsões ao espectáculo, que era a Lucrécia Bórgia.

Saiu da plateia frio de horror e protestou, em presença de Deus e do abade, nunca mais contribuir com oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade. Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: «Amici,noctem perdidi! Melhor me fora estar lendo o meu Eurípedes e Séneca, o trágico! Medeia não mata os filhos cantando, como a celerada Lucrécia! As devassidões postas em música, dão bem a entender que geração esta é! Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o estridor das trompas e dos zabumbas. É um tripúdio isto, amigo abade! Quem sai do seio da natureza rude, e de repente se acha à labareda destes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial filosofia destas tramóias de teatros!»

Assanhou-se o abade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o Estado subsidiava o Teatro de S. Carlos com vinte contos de réis anuais. Calisto fez pé atrás, e exclamou:
– Obstupui!… O abade zomba!… O Estado!… o meu colega disse o Estado!
– Sim, o tesouro… – confirmou o clérigo.
– A res publica? o dinheiro da nação?
– Certamente: pois de quem há-de ser o dinheiro, senão da nação?
– Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas do teatro de Lisboa!
– Vinte contos de réis.
Calisto Elói correu a mão pela fronte humedecida de suor cívico, e sentou-se nas escadas da Igreja de S. Roque, porque ao espanto, cólera e dor de alma seguiram-se cãibras nas pernas. Minutos depois, ergueu-se taciturno, despediu-se do abade, e foi para casa. ”

Camilo Castelo Branco
In A Queda de um Anjo

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Duas enfermidades

“Duas enfermidades há aí cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa práctica para descriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caìda.”

Camilo Castelo Branco
In A queda dum anjo

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Antes de ler o livro
1. Identificação do Livro

1.1. Título: “A queda dum Anjo”
1.2. Autor(a): Camilo Castelo Branco
1.3. Editora: Porto Editora
1.4. Data da Edição: Abril de 2008

2. Escolha do livro

2.1. Motivos que levaram à escolha do livro
Os principais motivos que me fizeram ler este livro foi o facto d e gostar bastante do escritor Camilo Castelo Branco e por mais uma vez ser um livro que nos transmite uma mensagem para a realidade.

Após a leitura do livro

3. Contextualização do Autor

3.1. Alguns dados biográficos
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (Lisboa, 16 de Março de 1825 — São Miguel de Seide, 1 de Junho de 1890) foi um escritor português.
Camilo foi romancista português, além de cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor.
Foi ainda o 1.º visconde de Correia Botelho, título concedido por o rei D. Luís de Portugal.
Camilo Castelo Branco, um dos escritores mais prolíferos e marcantes da literatura portuguesa contemporânea.
Há quem diga que, em 1846, foi iniciado na Maçonaria do Norte. O que é muito estranho ou há algo contraditório pois há indicações que, na mesma altura, na revolta de Maria da Fonte lutava a favor dos miguelistas e que criaram a Ordem de São Miguel da Ala, precisamente para a combater. Assim como muita da sua literatura demonstra defender os ideais legitimastes e conservadores ou tradicionais, desaprovando os que lhe são contrários.
Teve uma vida atribulada que lhe serviu muitas vezes de inspiração para as suas novelas.
Foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários. Apesar de ter de escrever para um público, sujeitando-se assim aos ditames da moda, conseguiu ter uma escrita muito original.

3.2. Outras Obras do(a) Autor(a)
Amor de Perdição
Amor de Salvação
A Brasileira de Prazins
A Bruxa de Monte Córdova
Onde Está a Felicidade?
Vulcões de Lama

4. Conteúdo do Livro

4.1. Género Literário: Romance
4.2. Assunto (breve síntese):
Este livro falanos de um homem, Calisto Eloide que é humilde, simples e dedicado a mulher D. Teodora de Figueiroa. Tendo sido eleito deputado pelo círculo de Miranda, vem para Lisboa, disposto a lutar contra a corrupção dos costumes. Faz furor no Parlamento com os seus discursos conservadores, através dos quais mostra um perfeito domínio da oratória parlamentar. Defende principalmente o bom uso da língua portuguesa e combate o luxo e os teatros. Sempre apoiado na sua cultura livresca, os seus discursos fazem sensação no Parlamento, causando as mais desencontradas reacções.
Apos ter subido na vida começa a “queda do anjo”, dá-se a transformação total do herói, que adquire os costumes modernos que tanto condenava.
Inicia uma relação com a sua prima D. Ifigénia Ponce de Leão, com quem acaba por viver maritalmente e de quem tem dois filhos. Entretanto D. Teodora, abandonada pelo marido, vai também viver maritalmente com seu primo, Lopo de Gamboa, de quem tem um filho.
Este livro demonstra nos, que o ser humano enquanto pobre é uma coisa mas quando o poder surge, é capaz de transformar se totalmente tornando uma boa pessoa numa pessoa egoísta, mesquinha e maldosa.

4.3. Citações favoritas (se necessário, explicadas no contexto)
“Caiu o anjo, e ficou, simplesmente o homem, homem como quase todos os outros, e com mais algumas vantagens
que o comum dos homens.” Esta é sem dúvida a citação que mais gostei, Calisto (anjo) quando ganhou o poder deixou de defender tudo o que acreditava e tornou se mais um homem vulgar que apenas se preocupa consigo mesmo passando por cima de tudo e de todos para atingir os seus objectivos.

4.4. Opinião sobre o livro
Adorei este livro, é um livro pequeno agradável de ler e dá-nos uma grande mensagem: O material e a fama não é o que nos tornam boas pessoas mas sim as nossas acções com os outros e connosco mesmo. E também que não devemos passar por cima de ninguém para termos o que queremos.

Fonte: aqui

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Engarrafar lirismo

“Era já pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por Sitiaes, por Pisões, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno.”

Camilo Castelo Branco In A queda de um anjo : romance. Lisboa : Livraria de Campos Junior, 1866. – 268, [4] p. ; 18 cm

Cópia digital  | A queda de um anjo em  http://purl.pt/139

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A Queda de um Anjo

Calisto Elói, morgado de Agra de Freimas, vive numa pequena aldeia, de seu nome Caçarelhos, em perfeita harmonia com a sua esposa, D. Teodora de Figueiroa. O conhecimento dos clássicos, aos quais dedicou as leituras de toda uma vida, encheu-o de uma sabedoria moralista e conservadora que faz com que seja eleito deputado pelo círculo de Miranda. A sua presença em Lisboa e os seus discursos no Parlamento fazem sensação por causa da defesa da moral dos costumes antigos em detrimento do luxo e dos teatros. A experiência da sociedade lisboeta, no entanto, não deixa o morgado imune. A contaminação da personagem e os indícios da queda expressam-se exteriormente através da primeira visita a um alfaiate lisboeta. Esse é o primeiro passo de um percurso que culminará na transfiguração de anjo em alguém que a sua própria mulher não reconhecerá. Esta transfiguração exterior traduz uma metamorfose moral, consumada na defesa de princípios liberais em discursos tão ocos como aqueles que no início condenara e na ligação adúltera que mantém com uma viúva brasileira, D. Ifigénia Ponce de Leão. Com isto, Camilo pretende, usando a história de Calisto como alegoria, traçar o processo de contaminação de um Portugal saudável e incorruptível pelas mudanças políticas, sociais, culturais e religiosas da época.
Confesso que já não pegava em Camilo Castelo Branco desde que estudei o livro Amor de Perdição no Ensino Secundário. Aproveitei que me cruzei com este exemplar bastante em conta na Feira do Livro da Póvoa de Vazim para o adquirir e encontrar-me de novo com a obra camiliana. Através da história de Calisto, Camilo defere duras críticas à sociedade, com especial enfoque na classe política. Mas apesar de essas mesmas críticas serem pungentes, o tom com que o autor aborda ao tema é leve. Camilo utiliza o humor, criando uma série de personagens-tipo para alcançar o ponto a que pretende chegar. É esse humor que, de certa forma, facilita a leitura desta obra e não a torna demasiado maçadora ou cansativa. Foram várias as gargalhadas que dei durante a leitura, principalmente nos momentos de discussão parlamentar. Os discursos da Assembleia em 1820 parecem tão vagos de ideias e tão cheios de palavras vãs como os de hoje. Um livro interessante, que recomendo a quem tem gosto pelos livros considerados clássicos da nossa literatura.
Isabel Maia

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Leitura e download:

http://www.scribd.com/doc/33771933/A-Queda-de-um-Anjo-adaptacao-LuisaAlvim

A Queda de um Anjo_adaptação_LuisaAlvim

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