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[Ex.mº Sn.or]

Não ha que esperar na velhice quando a mocid.e foi desbaratada, contrahindo emprestimos adiantados ás forças da vida porvindoura. Não me admiro deste esfacellamento: o q me espanta é viver.

 

Camilo Castelo Branco

[a Tomás Norton, S. Miguel de Ceide,  7 de Novembro de 1884]

Doze Cartas Inéditas de Camilo Castelo Branco, Lisboa, Portugália Editora, 1964. editor: Luís Norton

Bruxa do Monte Córdova conta-nos a história de Angélica, uma rapariga que, sendo “a mais formosa da sua aldeia”, a quem todos cortejam, envolve-se numa relação proibida. Com a morte do amante acaba por enfrentar sozinha o estigma da exclusão social e da intriga.

“bruxa do monte Córdova” era geralmente o nome injusto senão injurioso, com que ela atraía à choupana não só homens, mulheres e crianças endemoninhadas, mas também o gado, ou imundície, como lá dizem, para a todos estes irracionais curar de enfermidades excedentes do alcance das ciências médicas.

 A Bruxa do Monte Córdova conta-nos a história de Angélica, uma rapariga que, sendo “a mais formosa da sua aldeia”, a quem todos cortejam, envolve-se numa relação proibida. Com a morte do amante acaba por enfrentar sozinha o estigma da exclusão social e da intriga.

Publicada em 1867, esta novela Camiliana tem como pano de fundo a guerra civil que ocorreu entre 1831 e 1834, e opôs os defensores de D. Pedro I e da sua filha D. Maria II, liberais e constitucionalistas, aos defensores de D. Miguel I, os absolutistas e tradicionalistas. Mas a acção principal em si relata-nos uma história de amor trágico que define bem a época conturbada em que se vivia, falando principalmente da falta de carácter dos representantes da igreja, enquanto instituição, que incentivavam o fanatismo e o histerismo religiosos e davam azo a intrigas e convulsões sociais.

É uma obra que utiliza o mesmo arco estrutural e os mesmo elementos narrativos que Camilo utilizou na sua novela “A Doida do Candal”, apesar desta obra estar mais bem estruturada e de ter uma temática mais interessante. Contudo “A Bruxa do Monte Córdova” não foi o grande sucesso comercial que o autor espera que fosse, atribuindo ele depois a culpa ao facto de ter “excesso de filosofia” e de usar uma escrita mais rebuscada.

Quem há aí que possa o cálix 
De meus lábios apartar? 
Quem, nesta vida de penas, 
Poderá mudar as cenas 
Que ninguém pôde mudar ? 

Quem possui na alma o segredo 
De salvar-me pelo amor? 
Quem me dará gota de água 
Nesta angustiosa frágua 
De um deserto abrasador? 

Se alguém existe na terra 
Que tanto possa, és tu só! 
Tu só, mulher, que eu adoro, 
Quando a Deus piedade imploro, 
E a ti peço amor e dó. 

Se soubesses que tristeza 
Enluta meu coração, 
Terias nobre vaidade 
Em me dar felicidade, 
Que eu busquei no mundo em vão. 

Busquei-a em tudo na terra, 
Tudo na terra mentiu! 
Essa estrela carinhosa 
Que luz à infância ditosa 
Para mim nunca luziu. 

Infeliz desde criança 
Nem me foi risonha a fé; 
Quando a terra nos maltrata, 
Caprichosa, acerba e ingrata, 
Céu e esperança nada é. 

Pois a ventura busquei-a 
No vivo anseio do amor, 
Era ardente a minha alma; 
Conquistei mais de uma palma 
À custa de muita dor. 

Mas estas palmas tais eram 
Que, postas no coração, 
Fundas raízes lançavam, 
E nas lágrimas medravam 
Com frutos de maldição. 

Em ânsias de alma, a ventura 
Nos dons da ciência busquei. 
Tudo mentira! A ciência 
Era um sinal de impotência 
Da vã Razão que invoquei… 

Era um brado, um testemunho 
Do nada que o mundo é. 
Quanto a minha mente erguia 
Tudo por terra caía, 
Só ficava Deus e a fé. 

Lancei-me aos braços do Eterno 
Com o fervor de infeliz; 
Senti mais fundas as dores, 
Mais agros os dissabores… 
O próprio Deus não me quis! 

Depois, no mundo, cercado 
Só de angustias, divaguei 
De um abismo a outro abismo 
Pedindo ao louco cinismo 
O prazer que não achei. 

Tristes correram meus anos 
Na infância que em todos é 
Bela de crenças e amores, 
Terna de risos e flores 
Santa de esperança e de fé. 

Assim negra me era a vida 
Quando, ó luz da alma, te vi 
Baixar do céu, onde outrora 
Te busquei, mão redentora, 
Procurando amparo em ti. 

Serás tu a mão piedosa, 
Que se estende entre escarcéus 
Ao perdido naufragado? 
Serás tu, ser adorado, 
Um prémio vindo dos céus? 

E eu mereço-te, que imenso 
Tem já sido o meu quinhão 
De torturas não sabidas, 
Com resignação sofridas 
Nos seios do coração. 

Que ternura e amor e afagos 
Toda a vida te darei! 
Com que jubilo e delírio, 
Nova dor, novo martírio, 
De ti vindo, aceitarei! 

Se na terra um céu desejas 
Como o céu que eu tanto quis, 
Se d’um anjo a glória queres, 
Serás anjo, se fizeres, 
Contra o destino, um feliz. 

Faz que eu veja nestas trevas 
Um relâmpago de amor, 
Que eu não morra sem que diga: 

«Tive no mundo uma amiga, 
Que entendeu a minha dor. 

Deu-me ela o estro grande 
Das memoráveis canções; 
Acendeu-me a extinta chama 
Da inspiração que inflama 
Regelados corações. 

Os segredos dos afectos 
Que mais puros Deus nos deu, 
Ensinou-mos ela um dia 
Que de entre arcanjos descia 
Com linguagem do céu. 

Os mimosos pensamentos 
Que, de mim soberbo, leio, 
Inspirou-mos, deu-mos ela 
Recostando a fronte bela 
Sobre o meu ardente seio. 

Morta estava a fantasia 
Que o gelo da alma esfriou; 
Tinha o espírito dormente, 
Só no peito um fogo ardente, 
Quando o céu me a deparou. 

Agora morro no gozo 
De uma saudade imortal. 
Foi ditosa a minha sorte; 
Amei, vivi: venha a morte, 
Que morte ou vida é-me igual. 

Igual, sim, que o amor profundo, 
Como foi na terra o meu, 
Não expira, é sempre vivo, 
Sempre ardente e progressivo 
Em perpétuo amor do céu». 

Assim, querida, meus lábios, 
Já moribundos, dirão, 
Nas agonias supremas, 
Essas palavras extremas 
Do meu ao teu coração. 

Sabes quem é, neste mundo, 
Quase igual ao Redentor? 
É quem diz: «Sou adorada 
Pela alma resgatada, 
Por mim, das ânsias da dor.» 

Camilo Castelo Branco,
in ‘Carta a Ana Plácido (1858)’
 
(Carta que despoletou a fuga de Ana Plácido com Camilo)

Amor infinito

Da mulher o que nos comove e enleva é a parte impoluta que ela tem do céu; é a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, não sabido dela, não sabido de nós. Ali há mensagem de outras regiões; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas lágrimas, há um espirar para o alto, um ir-se o coração avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. Nós é que não sabemos nem podemos ver senão o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas graças do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de súbita embriaguez nos fazem crer que despimos o invólucro de barro e pairamos alados sobre a região das lágrimas. 

É Deus que não quer ou somos nós que não podemos prorrogar a duração ao sonho? Se Deus, que mal faria à sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai tão rápida aquela estação em que o homem é bom porque ama, e é caritativo e dadivoso porque tudo sobeja à sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das intenções? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgraças estranhas? Que exuberância de bens a desbordar da alma! Que ânsia de fazermos em redor de nós alegrias, fortunas, mãos erguidas connosco a bem-dizer os contentamentos que nos chove o manancial dos puros deleites. 

Não é Deus que nos agourenta as alegrias castas, as espirações que lhe comprazem. Nós é que não sabemos que luz é essa da nova manhã que dentro nos alumia voluptuosidades desconhecidas. Atribuímos ao efeito os prestígios da causa. É que não podemos ver por longo tempo a mensageira dos mundos estrelados: quizemos pôr a mão na vara que nos encantou; e a vara fez-se serpente, porque a alma imaculada já não era o impulsor da nossa ansiedade. O homem, escurecido já no interior, viu a mulher ao sol da terra, sol que incende o sangue, e abraza o rosto e cresta as asas do anjo. Ai dos anjos em carne que olham depois em si e correm a vestir-se da folhagem do paraíso! Desde esse momento a luz do homem, o calor das paixões radia do montante de fogo que empunha o executor de alta justiça. Fora do éden está o inferno. A baliza encravada na fronteira maldita chama-se o TÉDlO. 

Camilo Castelo Branco

 in ‘O Santo da Montanha (1866)’

Tão longe dos Amores de Perdição que o condenaram mais uma vez a frequentar a antiga Cadeia da Relação. O Camilo de S. Miguel de Seide está mesmo muito escondido ali na avenida que tem o seu nome.
Esta obra do escultor Henrique Moreira (1890-1979) foi oferecida à cidade por “O Comércio do Porto” em 1925.

Hotel Paris (Porto)

Com 136 anos de vida, feitos em Novembro último, e palco de encontro, no passado, de escritores portugueses célebres como Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós, o Grande Hotel de Paris já passou por momentos bons e maus. Na última década, tem tentado recuperar e preservar a sua história.

Situado nos números 27 a 29 da Rua da Fábrica, na baixa do Porto, o histórico hotel, que ascendeu recentemente à categoria de hotel de  3 estrelas, está agora apostado em recuperar a aura de outros tempos. A confirmação de que esta era a unidade hoteleira mais antiga da cidade chegou com o livro “Grande Hotel de Paris – Uma História no Porto”, publicado por Octávio Miguel Félix, em 2011.

“Com uma nova direcção, em 1999, o hotel começou a renascer e a partir de 2001, houve uma nova vontade de preservar e recuperar. O hotel foi adquirido em 1999 pela nova direcção e percebeu-se que havia grande potencial”, explica Amílcar Gomes, responsável pela comunicação do Grande Hotel de Paris.

À conversa com o P24, o responsável conta como a actual equipa tentou”recuperar o máximo possível”. “Este é um exercício que tem sido feito até hoje, o de recuperação, mas também o de perceber a história e valorizar o autêntico”, refere Amílcar Gomes, que recorre a uma citação do livro de Octávio Félix para explicar as mudanças que o hotel sofreu. “Além da reestruturação dos serviços hoteleiros fundamentais, dezenas de peças de época têm sido recuperadas, despontando, nas suas alas, um simpático ‘hotel museu’”.

Actualmente, o Grande Hotel de Paris tenta “catalogar algumas peças, por exemplo, o PBX [sistema de telefone com múltiplas linhas, outrora utilizado sobretudo em empresas], a central telefónica e o piano”, revela Amílcar Gomes.

Edifício é de 1857

Apesar de o hotel ter surgido em 1877, foi em 1857 que o edifício foi construído. Nesse ano, funcionava como casa da Filarmónica Portuense, como explica o livro de Octávio Félix, sendo, na altura, “uma construção apalaçada tipicamente portuense dos arruamentos da época”. O edifício tinha um “alçado sóbrio com uma impressão de verticalidade” e, escreve o autor, ganhava “em profundidade” o que perdia “de frente”. “Foi mandado construir pelo negociante da cidade Manuel Fernandes da Costa Guimarães”, conta Octávio Félix.

Em 1877, “Manuel Fernandes preside o conselho de administração [do Grande Paris Hotel]. O cargo de director responsável é do francês Léopold Cyrille Gabriel Dupuy. Ernesto Chardron e Mathieux Lugan são vogais da sociedade. Os 2 últimos proprietários da Livraria Internacional Ernesto Chardron, depois a famosa Livraria Lello”, relata o livro de Otávio Félix.

“Quando o hotel surge, o Porto estava a viver o crescimento da revolução industrial. Por isso, quando [o hotel] foi inaugurado pretendia ser hotel de primeira [classe], com aquilo que de nacional havia para oferecer. E, durante o período de crescimento da cidade, o hotel também cresceu, transformando-se numa referência”, conta Amílcar Gomes.

No hotel, ficaram alojadas várias celebridades. Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Rafael Bordalo Pinheiro são alguns dos notáveis que passaram pelo Grande Hotel de Paris. Reza a história que foi aqui que Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro reataram uma amizade que andava de “costas voltadas”. “Há uma história engraçada, quando o Camilo Castelo Branco estava no final de vida. O Ricardo Jorge, um médico, patrocinou a visita do Guerra Junqueiro aqui, quando os 2 estavam de costas voltadas, por defenderem teses diferentes. Sendo amigos, ficavam de costas voltadas. E foi nesse encontro que reacenderam a amizade”, conta Amílcar Gomes.

Tertúlias políticas e literárias

Com o tempo, o hotel  ”começou também a ser apelidado de ‘Casa Transmontana’ no Porto. Havia hóspedes estrangeiros, mas a população do Porto também vinha para as tertúlias e discussões politícas, literárias, entre outras”, refere o responsável.

Porém, a ligação umbilical do hotel com a cidade do Porto, que no início ajudou a fazer crescer o Paris, também contribuiu para o seu declínio. “No [início da década de] 80,passou a ser uma residencial. Isto esteve relacionado um pouco com o declínio da cidade do Porto”, explica Amílcar Gomes.

“A autentecidade que o caracteriza, também a localização, o facto de existir uma boa relação com os hóspedes, um ambiente familiar”, são actualmente os pontos fortes do Grande Hotel de Paris e são “vários” os hóspedes “que voltam todos os anos”.

“O segredo é mesmo a autenticidade”, diz, por seu turno, David Ferreira, o director do hotel, que lamenta que os portuenses “que passam na rua não se apercebam” de que ali fica um hotel e um hotel com tanta história.

“A biblioteca [do hotel] é feita pelos hóspedes e para os hóspedes”, que podem deixar e requisitar livros ‘à boleia’ do bookcrossing. “Neste momento, a nossa biblioteca tem livros da Coreia do Sul, da Noruega, obras em inglês de referência a autores menos conhecidos de Itália, por exemplo”, explica Amílcar Gomes.

Dependendo da época do ano, uma noite neste histórico do Porto, que serve pequenos-almoços numa sala ao estilo “Belle Époque” e organiza saraus, pode ficar entre 45 e 75 euros.

Fonte: Porto 24

 

 

Camilo Castelo Branco

1. » A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco

2. » O Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco

3. » Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco 

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