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Posts Tagged ‘Ana Plácido’

O Segredo de salvar-me

Quem há aí que possa o cálix 
De meus lábios apartar? 
Quem, nesta vida de penas, 
Poderá mudar as cenas 
Que ninguém pôde mudar ? 

Quem possui na alma o segredo 
De salvar-me pelo amor? 
Quem me dará gota de água 
Nesta angustiosa frágua 
De um deserto abrasador? 

Se alguém existe na terra 
Que tanto possa, és tu só! 
Tu só, mulher, que eu adoro, 
Quando a Deus piedade imploro, 
E a ti peço amor e dó. 

Se soubesses que tristeza 
Enluta meu coração, 
Terias nobre vaidade 
Em me dar felicidade, 
Que eu busquei no mundo em vão. 

Busquei-a em tudo na terra, 
Tudo na terra mentiu! 
Essa estrela carinhosa 
Que luz à infância ditosa 
Para mim nunca luziu. 

Infeliz desde criança 
Nem me foi risonha a fé; 
Quando a terra nos maltrata, 
Caprichosa, acerba e ingrata, 
Céu e esperança nada é. 

Pois a ventura busquei-a 
No vivo anseio do amor, 
Era ardente a minha alma; 
Conquistei mais de uma palma 
À custa de muita dor. 

Mas estas palmas tais eram 
Que, postas no coração, 
Fundas raízes lançavam, 
E nas lágrimas medravam 
Com frutos de maldição. 

Em ânsias de alma, a ventura 
Nos dons da ciência busquei. 
Tudo mentira! A ciência 
Era um sinal de impotência 
Da vã Razão que invoquei… 

Era um brado, um testemunho 
Do nada que o mundo é. 
Quanto a minha mente erguia 
Tudo por terra caía, 
Só ficava Deus e a fé. 

Lancei-me aos braços do Eterno 
Com o fervor de infeliz; 
Senti mais fundas as dores, 
Mais agros os dissabores… 
O próprio Deus não me quis! 

Depois, no mundo, cercado 
Só de angustias, divaguei 
De um abismo a outro abismo 
Pedindo ao louco cinismo 
O prazer que não achei. 

Tristes correram meus anos 
Na infância que em todos é 
Bela de crenças e amores, 
Terna de risos e flores 
Santa de esperança e de fé. 

Assim negra me era a vida 
Quando, ó luz da alma, te vi 
Baixar do céu, onde outrora 
Te busquei, mão redentora, 
Procurando amparo em ti. 

Serás tu a mão piedosa, 
Que se estende entre escarcéus 
Ao perdido naufragado? 
Serás tu, ser adorado, 
Um prémio vindo dos céus? 

E eu mereço-te, que imenso 
Tem já sido o meu quinhão 
De torturas não sabidas, 
Com resignação sofridas 
Nos seios do coração. 

Que ternura e amor e afagos 
Toda a vida te darei! 
Com que jubilo e delírio, 
Nova dor, novo martírio, 
De ti vindo, aceitarei! 

Se na terra um céu desejas 
Como o céu que eu tanto quis, 
Se d’um anjo a glória queres, 
Serás anjo, se fizeres, 
Contra o destino, um feliz. 

Faz que eu veja nestas trevas 
Um relâmpago de amor, 
Que eu não morra sem que diga: 

«Tive no mundo uma amiga, 
Que entendeu a minha dor. 

Deu-me ela o estro grande 
Das memoráveis canções; 
Acendeu-me a extinta chama 
Da inspiração que inflama 
Regelados corações. 

Os segredos dos afectos 
Que mais puros Deus nos deu, 
Ensinou-mos ela um dia 
Que de entre arcanjos descia 
Com linguagem do céu. 

Os mimosos pensamentos 
Que, de mim soberbo, leio, 
Inspirou-mos, deu-mos ela 
Recostando a fronte bela 
Sobre o meu ardente seio. 

Morta estava a fantasia 
Que o gelo da alma esfriou; 
Tinha o espírito dormente, 
Só no peito um fogo ardente, 
Quando o céu me a deparou. 

Agora morro no gozo 
De uma saudade imortal. 
Foi ditosa a minha sorte; 
Amei, vivi: venha a morte, 
Que morte ou vida é-me igual. 

Igual, sim, que o amor profundo, 
Como foi na terra o meu, 
Não expira, é sempre vivo, 
Sempre ardente e progressivo 
Em perpétuo amor do céu». 

Assim, querida, meus lábios, 
Já moribundos, dirão, 
Nas agonias supremas, 
Essas palavras extremas 
Do meu ao teu coração. 

Sabes quem é, neste mundo, 
Quase igual ao Redentor? 
É quem diz: «Sou adorada 
Pela alma resgatada, 
Por mim, das ânsias da dor.» 

Camilo Castelo Branco,
in ‘Carta a Ana Plácido (1858)’
 
(Carta que despoletou a fuga de Ana Plácido com Camilo)

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Camilo réu no Porto

Como muitos saberão, em meados do sec. XIX, o grande Camilo Castelo Branco andou a contas com a justiça – ou com a sua mana gémea que é a injustiça – e foi réu em processo que correu no Porto, primeiro no Tribunal Criminal e depois no Tribunal da Relação, tendo mesmo chegado ao Supremo. O que é menos sabido é que Camilo esteve em prisão preventiva um ano e dezasseis dias. A certa altura da detenção parece que terá desabafado com o Zé do Telhado os seus receios de que um determinado personagem, movido pelo ódio, fizesse a um qualquer meliante dentro da Cadeia a encomenda de o matar. O Zé do Telhado ter-lhe-á garantido que estivesse descansado, “pois, se alguém ali lhe tocasse com um dedo, três dias e três noites não chegariam para enterrar os mortos”. Acabaram representados pelo mesmo advogado, a quem Camilo, quiça por gratidão, terá convencido a defender o “romântico”bandido.
O processo de querela tinha nascido por queixa de Manuel Pinheiro Alves, casado com Ana Augusta Plácido, que os acusava de relações adúlteras. E, pormenor também pouco sabido e interessante curiosidade, quem deu despacho de pronúncia à queixa foi José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça de Queirós, juiz daquele Tribunal Criminal, que ficava ali na Praça D. Filipa de Lencastre, na esquina com a Rua da Picaria.

Adultério com Ana Plácido

O juiz Teixeira de Queirós apenas pronunciou Ana Plácido, por adultério. Porém, a Relação alterou a decisão e veio a pronunciar os dois: ela por adultério e ele por ter copulado com mulher casada, “diferença” de nomes que todavia não havia de fazer diferença performativa. Claro que nestas coisas de adultério são precisos pelo menos dois. No entanto, naqueles tempos de muita treta e pouca igualdade, para a injustiça que tínhamos, propriamente só o adultério da mulher era punível. Quanto ao homem copulante com a adúltera, a punição só era possível em caso de flagrante delito (sós e nus na mesma cama) ou de “prova escrita”, ou seja, existência de cartas ou outro documento escrito. E os “requisitos” não se verificavam no caso. Melhor dizendo: apenas existia uma carta dirigida a um tio (informador de Pinheiro Alves da infidelidade da mulher) de Ana, mas em que não era mencionado o nome desta.

Cadeia da Relação

Foi na sequência da pronúncia que Ana Plácido e depois Camilo ficaram em prisão preventiva na chamada “Cadeia da Relação”. E era aquele tio que Camilo receava que aí o mandasse matar.
Teve o processo inúmeros incidentes e recursos. No “julgamento” da rua e no do tribunal, o processo era vivido em ambiente de emoção e escândalo. Como escreveu o distinto Magistrado cujo texto aqui seguimos servilmente, “estava ao rubro a curiosidade das provectas virgens, das matronas desocupadas e dos conquistadores frustrados, além dos seráficos moralistas de fachada”.
A Relação tinha invertido a decisão do juiz Queirós por fundamentos da comum sensatez de tais tempos, isto é,argumentando que “seria um contra-senso inqualificavel que esse homem – que a teve teúda e manteúda já nesta cidade na Rua da Picaria, já em Lisboa e na Foz;que a foi tirar ao Convento da Conceição em Braga aonde se achava, para assim continuar com ela uma vida de escândalo e imoralidade que afecta a sociedade em geral – ficasse impune”. Ocorreu porém, a final, que o tribunal de júri não achou bem que se passasse o que se passava e deu volta à questão de forma expedita, tranquilamente julgando não provados quesitos fundamentais provenientes da querela.
A sentença foi proferida em 17 de Outubro de 1861. Não se sabe ao certo o que ela dizia: os autos ainda hoje se encontram no Tribunal da Relação do Porto, mas a sentença levou sumiço, desconheço de que modo.
O que se sabe é que Camilo e Ana Plácido saíram absolvidos e soltos e viveram juntos a sua vida. Bem infeliz e cheia de fins trágicos, em S. Miguel de Seide.

Alberto Jorge Silva
In Revista Cais, Agosto de 2009

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Pensamento Mulheres

As mulheres, as mulheres! Essa cruel metade do homem dispensava-se bem, se o Criador tivesse feito de uma assentada o homem inteiro.

Camilo Castelo Branco

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Camilo e Ana Plácido Episódios ignorados da célebre paixão romântica
de Manuel Tavares Teles

Apresentação do livro por José Manuel Martins Ferreira
«O livro “Camilo e Ana Plácido”, de uma assentada, traz-nos as seguintes novidades: 1) esclarece um facto que nunca fora completamente compreendido (o célebre baile que terá constituído o big bang da relação Camilo – Ana Plácido). 2) apresenta-nos um apaixonado de Ana Plácido que era até agora desconhecido como tal, apesar de ser uma figura principal da sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX. 3) explica-nos como, quando e onde terá decorrido a conquista de Ana por Camilo. 4) apresenta-nos um episódio de grande significado sentimental nos primórdios da relação entre Ana e Camilo, que nunca foi referido por outros autores. 5) analisa de forma esclarecida a questão da paternidade do primeiro filho de Ana Plácido, apontando um conjunto de erros que subsistiam até esta data. São estes também os cinco capítulos do livro, sobre os quais nos debruçaremos. Para novidades, num universo tão repleto de títulos, convenhamos que não é pouco. Mesmo quando nos fala sobre assuntos e personagens mais ou menos conhecidos, o autor fá-lo de forma a enriquecer a visão de que já dispúnhamos. Ficamos pela primeira vez a conhecer pormenores sobre o aspecto físico de António Ferreira Quiques e sobre a sua vida pelo Brasil, incluindo a data e o local em que terá morrido. Ficamos também a conhecer melhor algumas personagens cuja vida daria por si só um interessante livro, como é o caso de Henriqueta Azuil, ou mesmo de personagensmais familiares do público camiliano, como é o caso das irmãs de Ana Plácido. E como é possível que haja ainda tanto para conhecer, relativamente a vidas que já foram escrutinadas por tantos e tão qualificados biógrafos? Sem me querer alongar nesse assunto, que é apenas acessório em relação ao objectivo da minha intervenção, posso dizer-lhes que o passar dos anos vai permitindo a descoberta de novos dados, seja através da consulta de fontes primárias, nos registos civis e religiosos, pela descoberta e publicação de correspondência que levanta o véu sobre a natureza dos actores principais e secundários, ou mesmo e tão-somente através de uma leitura mais exaustiva dos jornais da época. […] A forma como Manuel Tavares Teles comunica com o leitor é, quanto a mim, uma das principais qualidades da sua prosa e revela-se desde cedo, como se vê quando comenta o tratamento que alguns autores bem conhecidos deram ao célebre baile em que Camilo e Ana Plácido terão trocado os olhares que ditaram o essencial das suas vidas. Depois de tantos biógrafos terem tergiversado sobre este assunto, o baile é por fim identificado de forma definitiva e passa a saber-se onde e quando teve lugar. Foi aqui bem perto, na rua da Conceição, há quase 150 anos, mais precisamente a 13 de Fevereiro de 1849. […] O capítulo quinto cumpre aquilo que o Manuel Tavares Teles poderá ter considerado uma dolorosa tarefa a que este livro não poderia escapar – apontar os inexplicáveis erros em que abunda a análise da correspondência epistolar entre Camilo e José Barbosa e Silva, feita por um dos mais competentes biógrafos de Camilo e também um dos mais próximos do nosso tempo: Alexandre Cabral. Autor do importante “Dicionário de Camilo Castelo Branco”, uma volumosa obra que é ferramenta de consulta imprescindível a todos os interessados no universo camiliano, Alexandre Cabral publicou diversos livros sobre a vida e a obra de Camilo, entre os quais avulta a “Correspondência de Camilo Castelo Branco”, que se estende por meia dúzia de volumes. Por extraordinário que pareça, existe na correspondência trocada com José Barbosa e Silva e também em alguma da trocada com Faustino Xavier de Novais, informação mais do que suficiente para permitir a qualquer leigo atento compreender alguns aspectos fundamentais da vida de Camilo e Ana Plácido neste período, incluindo a paternidade do primeiro filho de Ana e o ano em que a paixão entre ela e Camilo se consumou. Ao lermos as obras de Alexandre Cabral, incluindo “A Via Dolorosa”, onde publicou os telegramas trocados entre Ana e Camilo, após a separação dos amantes, já com o escândalo bem conhecido do público, e até ao ingresso de Camilo na Cadeia da Relação do Porto, quase se poderia supor que o autor estaria a disfarçar aquilo que alguns pormenores dessa correspondência tornam óbvio. Esses erros mantiveram-se no entanto durante mais de 20 anos, sem que nenhum autor camiliano tenha vindo a terreiro apontá-los. O autor desta obra cumpriu essa tarefa, penso que com algum desconforto, dada a consideração que lhe conheço pela pessoa e pela obra de Alexandre Cabral. Fê-lo também em termos absolutamente convincentes, de forma metódica e rigorosa, enriquecida por explicações circunstanciadas de eventos e personagens que abalaram a moral e os bons costumes da sociedade portuguesa na segunda metade do século XIX e que têm continuado semi-desconhecidos até aos nossos dias. […]

Fonte: Editora Caixotim

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