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Posts Tagged ‘Biografia’

Cavidade craniana

Era 1860. Naquele fim de primavera, entrava pelas portas de Guimarães um homem com pouco mais de trinta anos e o rosto coberto de buracos. Não vinha em busca das preciosidades históricas da cidade nem das “mais lindas mulheres da Península”, de que falara um viajante francês. Os seus passos inseguros procuravam tão somente o refúgio onde pudesse repousar o corpo metido a tormentos de febre e de cansaço. Guiaram-no até ao largo da Oliveira onde, junto aos Paços do Concelho, estava a casa da Joaninha. Não da Joaninha silvestre, de Garrett, perdida no meio da Charneca, mas de uma velha repelente, “curtida em camadas de lixo empedrado”. Obrigado a acoitar-se em tal hospedaria, que era, tal como a descreveu um dia, “um pântano de miasmas”, o viajante encontrou no leito onde ansiara acalmar o estado febril “muito bicho, coevo do rei Bamba, que lhe cravou a oliveira à porta”. E os alimentos que lhe deram, esses, eram capazes de desfazer “febra a febra” o seu estômago agoniado.
O homem agoniado de quem falámos chama-se Camilo Castelo Branco. Ainda jovem, a sua figura já se erguia entre os maiores escritores do seu tempoQue livro traçaria ele naquela altura? Apenas o romance das horas incertas da sua vida. A sua presença em Guimarães era a de um foragido que viajava incógnito, em fuga aos quadrilheiros da justiça, que o perseguiam com um mandato de captura na algibeira. E estranho crime era o seu: apenas uma paixão feroz por uma mulher casada: Ana Plácido.
Camilo apenas permaneceu uma noite entre os bichos do leito da Joaninha. Lembrou-se que, nas Taipas, tinha um conhecido, Francisco Martins, o qual, alguns anos antes, havia publicado um livro de poemas marcado por uma espessa amargura e “um impenetrável desengano”. Do seu encontro com aquele homem dirá Camilo nas “Memórias do Cárcere”: Procurei o conhecido e achei um amigocomo usam raramente ser os irmãos”.
Anos mais tarde, em 1990, aquando da passagem do centenário da morte de Camilo, escrevi um outro texto sobre sobre o tema Camilo e Guimarães, que foi publicado no mesmo jornal:
Eram antigas as ligações de Camilo Castelo Branco a Martins Sarmento e a Guimarães. No ano de 1855, vinha a lume um livro intitulado Poesias, assinado por F. Martins. Camilo dedicou-lhe um artigo, que incluiria nos seus Esboços de Apreciações Literárias (l865). Aí se lê:
As setenta e seis poesias do sr. Francisco Martins, que venho a ler com o vagar de quem estuda uma vida e decifra um homem de vinte e dois anos, são daquelas que marcam o paroxismo da última flama da fé para a escuridão impenetrável do desengano.
E, perante toda a carga de amargura e tragédia humana que transpirava daquele livro, Camilo conta que perguntou ao poeta se tudo aquilo seria verdade. Entrou então no segredo de grandíssimas dores. Tal segredo tem sido apontado como a causa do envolvimento de Martins Sarmento nas investigações arqueológicas. É o próprio Camilo que o refere, na dedicatória a Sarmento do seu livro No Bom Jesus do Monte (l864):
[…] Desde que o amor das cristãs lhe desmiolou a cavidade craniana, anda em caça de mouras encantadas no ímpio propósito de mourizar-se, se alguma o envolver nas madeixas negras, destrançadas com pente de ouro e pérolas.”
António Amaro das Neves
In Jornal O Povo de Guimarães

 

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Artigo de António Amaro das Neves

Ver aqui:

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Biografias de Camilo Castelo Branco

Ver:

Wikipédia

Portugal Dicionário Histórico

Geneologia e blogue Escavar em Ruínas

Síntese Biográfica

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Camilo faz anos

Camilo Castelo Branco nascei a 16 de Março de 1825.

Novelista entre os anos 50 e 80 do século XIX e um dos grandes génios da Literatura Portuguesa, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu a 16 de Março de 1825, em Lisboa, e suicidou-se a 1 de Junho de 1890 em S. Miguel de Seide, Famalicão. Órfão de mãe aos dois anos e de pai aos nove, passou, a partir desta idade, a viver em Vila Real com uma tia paterna. Aos 16 anos, casou-se com Joaquina Pereira, em Friúme, Ribeira de Pena. Em 1844, instalou-se no Porto com o intuito de cursar Medicina, acabando por não passar do 2.o ano. Em 1845, estreou-se na poesia e no ano seguinte no teatro e também no jornalismo – actividade, aliás, que nunca abandonaria. Viúvo desde 1847, fixou-se definitivamente no Porto a partir de 1848 (onde, em 1846, já estivera preso por ter raptado Patrícia Emília, um dos seus tumultuosos amores, de quem teria uma filha). De 1849 a 1851 consolidou a sua actividade jornalística, retomou o teatro, estreou-se no romance com Anátema (1851), conheceu a alta-roda portuense bem como os meios boémios e foi protagonista de aventuras romanescas.
Em 1853, abandonou o curso de Teologia no Seminário Episcopal, fundou vários jornais e em 1855 tornou-se o redactor principal de O Porto e de Carta. Nessa altura, o seu nome começava a soar nos meios jornalísticos e literários do Porto e de Lisboa: já alimentara várias polémicas e publicara alguns romances. Mas foi a partir de 1856 que atingiu a maturidade literária (no domínio dos processos de escrita) com o romance (por alguns autores considerado novela) Onde Está a Felicidade?. Foi ainda neste ano que iniciou o relacionamento amoroso com Ana Plácido, casada desde 1850 com Manuel Pinheiro Alves.
Por proposta de Alexandre Herculano, foi eleito sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa em 1858 – ano em que nasceu Manuel Plácido, filho de Camilo e de Ana Plácido. Em 1860, Manuel Pinheiro Alves desencadeou o processo de adultério: em Junho foi presa a mulher e a 1 de Outubro Camilo entregou-se na cadeia da Relação do Porto. D. Pedro V visitou-o, em 1861, na cadeia, e a 16 de Outubro desse ano os réus foram absolvidos. Era intensa a actividade literária de Camilo (não sendo a esse facto de todo alheias as dificuldades económicas): entre 1862 e 1863, o escritor publicou onze novelas e romances atingindo uma notoriedade dificilmente igualável. Em 1864, fixou-se na quinta de S. Miguel de Seide (propriedade de Manuel Pinheiro Alves que, entretanto, falecera em 1863) e nasceu-lhe o terceiro filho, Nuno. Quatro anos depois, dirigiu a Gazeta Literária do Porto; em 1870 iniciou o processo do viscondado (o título ser-lhe-ia atribuído em 1885) e, em 1876, tomou consciência da loucura do segundo filho, Jorge. No ano seguinte morreu Manuel Plácido. A partir de 1881, agravaram-se os padecimentos, incluindo a doença dos olhos que o afectava. Em 1889, por ocasião do seu aniversário, foi objecto de calorosa homenagem de escritores, artistas e estudantes, promovida por João de Deus. No ano seguinte, já cego, impossibilitado de escrever (a escrita foi, no fim de contas, a sua grande paixão), suicidou-se com um tiro de revólver. A casa de Seide é hoje o museu do escritor e na sua vizinhança foram inauguradas, a 1 de Junho de 2005, as novas instalações do Centro de Estudos Camilianos.
Camilo foi o primeiro escritor profissional entre nós. Dotado de uma capacidade prodigiosa para efabular narrativas, conhecedor profundo do idioma, observador, ora complacente ora sarcástico, da sociedade (sobretudo da aristocracia decadente e da burguesia boçal e endinheirada), inclinado (por gosto, por temperamento e formação) para a intriga e análise passionais (muitas vezes atingindo o sublime da tragédia, como no Amor de Perdição), este genial autor romântico deixou-nos uma obra incontornável (apesar de irregular) na evolução da prosa literária portuguesa. De facto, foi na novela passional e no “romance de costumes” que Camilo se notabilizou, legando-nos uma série de personagens ainda hoje inesquecíveis, quadros e situações que valem pela espontaneidade narrativa, pelo ritmo avassalador da acção, pela sugestão realista e ainda pela novidade temática, como em A Queda dum Anjo. A sua versatilidade literária e criadora (aliada à necessidade de não perder o público com a progressiva influência de Eça e de Teixeira de Queirós) levaram-no a assimilar (depois de ter parodiado) a atitude estética e os processos de escrita do Realismo e do Naturalismo, visíveis nesse notável livro que é A Brasileira de Prazins e em certa medida já iniciados com Novelas do Minho.
A sua arte de narrar constituiu, a par da de Eça de Queirós, um modelo literário para muitos escritores, principalmente até meados do século XX.
As suas obras principais são: A Filha do Arcediago, 1855; Onde está a Felicidade?, 1856; Vingança, 1858; O Romance dum Homem Rico, 1861; Amor de Perdição, 1862; Memórias do Cárcere, 1862; O Bem e o Mal, 1863; Vinte Horas de Liteira, 1864; A Queda dum Anjo, 1865; O Retrato de Ricardina, 1868; A Mulher Fatal, 1870; O Regicida, 1874; Novelas do Minho, 1875-1877; Eusébio Macário, 1879; A Brasileira de Prazins, 1882.
Além destas obras em prosa narrativa, assinale-se ainda os outros géneros (ou domínios) pelos quais se repartiu o labor de Camilo: poesia, teatro (de que se devem destacar O Morgado de Fafe em Lisboa, 1861, e O Morgado de Fafe Amoroso, 1865), dezenas de traduções (do francês e do inglês), polémica, prefácios, biografia, história, crítica literária, jornalismo e epistolografia (compreendendo mais de duas mil cartas).

Bibliografia: Da extensíssima bibliografia de Camilo salientam-se Pundonores Desagravados, 1845 (sátiras); Anátema, 1851 (novela); Inspirações, 1851 (poesias); Mistérios de Lisboa, 1854 (folhetim); O Livro Negro do Padre Dinis, 1855 (novela); A Filha do Arcediago, 1857 (novela); Amor de Perdição, 1862 (novela); Memórias do Cárcere, 1862 (memórias); Esboços de Apreciações Literárias, 1865 (crítica literária); Vaidades Irritadas e Irritantes, 1866 (opúsculo); A Queda de um Anjo, 1866 (novela); O Retrato de Ricardina, 1868 (novela); Curso de Literatura Portuguesa, 1876 (crítica literária); Eusébio Macário, 1879 (novela); A Corja, 1880 (novela); A Brasileira de Prazins, 1883 (novela)

Camilo Castelo Branco.
In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-03-16]

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Memórias Fotobiográficas – Camilo Castelo Branco (1825-1890) de José Viale Moutinho.

É uma antologia de imagens e textos de/sobre o autor do Amor de Perdição, coleccionadas com algum espírito criativo por José Viale Moutinho, outro ficcionista contemplado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Brando, da Associação Portuguesa de Escritores.

É a homenagem de um escritor, o primeiro da classe dos escritores profissionais, a quem já tinha dedicado alguns outros livros e estudos.

Este volume, com mais de quatrocentas páginas e cerca de seiscentas imagens, entre fotografias, postais, documentos, é o exumar das sombras de rostos e lugares do século XIX, alguns deles chegando até hoje sob outras formas mas com rastos que se impõem. Trata-se de uma obra devida ao solitário de Seide, que contém materiais de extrema raridade, de algum modo composta ao gosto do principal interessado….

Editorial Caminho, 2009

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