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Posts Tagged ‘Biografias’

miguel_torga

Camilo! Criado à sombra escalvada do Marão, viera perder-se entre videiras de enforcado. Mas deixara nos seus livros, viva, indelével, a paisagem da infância. E as suas novelas do Minho não são nunca um pacífico enlevo à sombra das ramadas, pastoris cenas de amor do litógrafo Júlio Dinis. Rangem como turbulentas paixões entre o céu e a terra, nuas e ossudas. As verduras da mocidade com Ana Plácido acabaram numa secura de fraga.

Encontrei a sombra do romancista ainda mais trágica do que a deixara da última vez. O tempo afundara-lhe a marca das bexigas, aumentara-lhe a cegueira, acrescentara-lhe a loucura. Era um prisioneiro revoltado num jardim de avencas. Percorreu a meu lado, sinistramente, cada compartimento da casa, reviu os desenhos do filho doido, anatematizou a lápis, numa das estantes, um volume d´A Relíquia, acompanhou-me ao patamar da escada, e esgalhou um rebento serôdio e agoirento da acácia do Jorge. Já nem o viço daquela lembrança podia tolerar! Fugi, aterrado. Não havia dúvida que os quilómetros de esmeralda lhe não tinham pacificado o coração. A paisagem é, realmente, um estado de alma…

Miguel Torga

In Portugal, Coimbra, 1950

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“Eu nunca tive seio de mãe onde encostar a cabeça.”

Camilo Castelo Branco,
in Quatro Horas Inocentes (1872)

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A 15 de outubro de 1861 constituiu-se o Tribunal. Da prova testemunhal entretanto produzida não resultava que alguma vez o adultério tivesse sido surpreendido segundo o conceito de flagrante delito previsto na Novíssima Reforma Judiciária.

Da prova testemunhal produzida não resultava que alguma vez o adultério tivesse sido surpreendido segundo o conceito de flagrante delito. SEGUNDO JÚLIO SANTOS, “sendo imensos os temas e controversa a paginação dos ângulos da [ ] vida e obra” de Camilo Castelo Branco, parece haver “um certo vazio à volta do [seu] processo e julgamento pelo adultério com Ana Plácido”( E, todavia, iniciado este com a petição de querela apresentada por Manuel Pinheiro Alves contra sua mulher e o “escritor público” Camilo Castelo Branco, imputando-lhes a prática do crime de adultério, previsto pelo artigo 401.” do Código Penal, vem ele a constituir um verdadeiro campo de observação e análise cada vez menos desprezível na investigação “camiliana”. Conformado no modelo jurídico-legal introduzido, em 1841, pela Novíssima Reforma Judiciária, dividia-se o processo, na sua fase inicial, em duas partes, cabendo à primeira – do corpo de delito – apurar a existência de crime; e à segunda – do sumário de querela – reunir os elementos de prova que fundamentassem a imputação dos factos aos respectivos agentes.

Inspirada, a reforma – que encontrou continuidade no Código Penal de 1852 – no modelo francês de 1810, e no pensamento liberal que o sustentava, veio a acolher-se, entre nós, uma “ideia de prevenção geral combinada com uma concepção rigorosa de estado de direito formal”(

Não foi isso, porém, bastante, nem para evitar soluções adoptadas ao arrepio de qualquer princípio verdadeiramente garantístico; nem para impedir eficazes intromissões externas no desenrolar do processo e na tomada de várias das decisões a proferir nele. Das primeiras, é exemplo suficiente, entre outros, a estranha situação ocorrida aquando da necessidade de sucessão do juiz de julgamento, entretanto transferido de comarca. Vindo ela a caber ao segundo substituto, por impedimento do primeiro, acabaria por recair no advogado do próprio autor da petição, ele mesmo, em simultâneo, juiz do Tribunal 2.” do Distrito do Porto, em cujo 1”Distrito corria, por sua iniciativa, o processo contra Camilo e Ana Plácido!!!

Porém, é daquelas influências estranhas que o processo de Camilo se mostra farto em exemplos eloquentes sendo que, a partir da sua consideração, fácil será traçar um primeiro esboço para definir o ambiente que rodeava o caso. Desde logo, na Cidade! O Porto, em parte refeito das “convulsões sociais que [o]envolveram” dobrada já a primeira metade do século, via agora surgir, fixar-se e expandir-se uma sólida “burguesia retendo nas mãos as rédias do comércio, finança e indústria [fazendo] da Praça do Porto um órgão vital na economia do País”( Outras personagens vinham ocupar lugares de relevo na comunidade. As relações sociais alteravam-se. Os costumes conheciam novas referências. Outros hábitos desafiavam o quotidiano mesmo no plano da tradicional moralidade pública, também ela tocada agora pelo advento da liberdade. Extremavam-se posições onde antes imperava uma “ordem” incontestável e incontestada.

Nada mais excitante, em tais circunstâncias, do que uma querela por adultério. Sobretudo envolvendo ela um conhecido negociante da cidade, poderoso e abastado; sua mulher; e, principalmente, chamado ao banco dos réus, Camilo Castelo Branco, nas palavras de Cruz Malpique, “um rapazelho” assim feito na Samardã, sendo que “como estroina elegante [ ] foi no Porto que fez o curso inteirinho, [aí tendo exibido] as suas elegâncias e [praticado] alguns dos seus maiores escândalos”( Autor da Revista do Porto, publicada no Nacional, a 25 de Fevereiro de 1850, respondendo à interrogação por si formulada sobre “o que é o Porto?”, não se havia coibido de dizer que “o Porto é a tábua da lei das quatro operações arithmeticas. É uma grande tabuada levada ao infinito da multiplicação das casas. É o dous e dous são quatro, convertido no balcão do probo e honradissimo bacalhoeiro em dous e dous são cinco. É o harmonioso burguezismo de myriades de caras todas typicas, identicas e com o total de covados aferidos, e carymbados no Municipio da cidade da Virgem”( Foi, aliás, este, o texto que, por acção de António Bernardo Ferreira, o “Ferreirinha da Régua”, público desafecto de Camilo, foi reposto em circulação pela cidade, nas vésperas do julgamento, exactamente para instalar um clima de adversidade relativamente ao réu escritor.

Laborinho Lúcio

Fonte: PressDisplay

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Parabéns Camilo!

Camilo Castelo Branco comemorava a 16 de março a sua vida!

Parabéns ao escritor que nos deixou milhares de páginas da melhor literatura que  ainda nos encantam.

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Os Amigos

Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

– Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco

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A Confraria do Bom Jesus do Monte inaugurou hoje, às 18h00, na Casa das Estampas, a exposição ‘Mulheres de Camilo’, integrada nas comemorações dos 200 anos do lançamento da última pedra do Templo do Bom Jesus do Monte’.

Segundo José Carlos Peixoto, mesário da Confraria, esta instituição prossegue, em parceria com a Casa de Camilo, “a sua vertente de intervenção cultural, criando, com esta iniciativa, novas forças motivadoras para os admiradores desta estância a revisitarem e usufruírem melhor do seu património”.

Segundo aquele responsável, a exposição constitui “mais uma razão, nestes dias de Primavera, para os peregrinos, forasteiros e turistas visitarem esta beleza da natureza, encastoada no monte sagrado bracarense”. Com a abertura da exposição no dia de hoje, visa-se assinalar o dia da morte do maior nove-lista e romancista português do século XIX.

Do programa de abertura da exposição consta, para além de algumas intervenções, a leitura de alguns textos por figurantes representando Camilo e Ana Plácido.
Adianta-nos José Carlos Peixoto que “o Bom Jesus do Monte tem um perfume especial na vida e na obra de Camilo” que elegeu este local “para meditação, para contemplação, para repouso, para devaneio por entre ares balsâmicos, para criação das folhas dos seus romances e para o restabelecimento físico e psíquico”.

A exposição ‘Mulheres de Camilo traça um percurso por algumas mulheres que se cruzaram no caminho de Camilo começando na mãe, passando por Joaquina Pereira de França, Patrícia Emília de Barros, Bernardina Amélia, Maria Felicidade do Couto Browne, Fanny Owen, Princesa Rattazzi, Clara Belloni, Debedeille e Ana Augusta Plácido.

O Bom Jesus foi refúgio do romancista Camilo Castelo Branco visitou, pela primeira vez, o Bom Jesus com, apenas, nove anos de idade.  A partir de então foram muitas as temporadas que frequentou esta estância de turismo religioso e de lazer.
Neste monte sagrado escreveu, encontrou-se com os amigos, refugiou-se nos seus jardins, recuperou energias, apreciou a gastronomia.

Camilo Castelo Branco, in ‘Duas horas de leitura’, descreve assim as mulheres:

“ainda que sejam primas, foram, são, e hão de ser, cada vez mais, a máxima formosura deste planeta. Se as tiram de cá, isto é imundo, a vida é um desterro, e a vaidade, o coração, a bravura, o talento, a glória são palavras sem significação. O que restaria? Um enxame de bípedes, agatinhando numa bola feiamente achatada para os polos, cousa ridícula, que fez dar risadas estrondosas àquele Micromegas, habitante da estrela Sírio, de que fala Voltaire”

e in ‘Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado’, exprime-se desta forma: “enquanto houver mulheres … o céu, o sol, ou outra obra magnificentíssima do Senhor, a poesia não morrerá”.

José Paulo Silva
Fonte Correio do Minho

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No mês de Junho de 2010, irão contar-se 120 anos sobre a morte de Camilo Castelo Branco. Não se poderá falar de comemoração porque os suicídios não se comemoram, mas entendo que a data deverá ser assinalada.

O século XIX permitiu fixar as bases da língua portuguesa actual. Essa obra deve-se a escritores de génio como Garrett, Camilo e Eça de Queirós (que Alexandre Herculano me perdoe…) e a grandes poetas como Antero de Quental .

Neles enraíza tudo o que de melhor se escreveu em Portugal, desde então.

Entre esses grandes vultos, nenhum foi tão genuinamente português como Camilo, tão apegado à fala e aos costumes da nossa gente. Garrett e Eça correram mundo e receberam influências daqui e dali. Camilo raramente terá postos os pés fora do solo pátrio. É nas suas páginas que mais claramente se sente o pulsar dos corações portugueses.

O seu corpo foi depositado no Jazigo de Freitas Fortuna, no Cemitério da Irmandade da Lapa, no Porto.

É tempo de os seus restos mortais serem transladados para o Panteão Nacional, onde já repousa Garrett. Proponho iniciar na Internet um movimento de recolha de assinaturas destinado a pressionar a ministra da Cultura nesse sentido.

António Trabulo

Fonte: Blogue decáedelá

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