Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Blogues’

No livro Camilo Castelo Branco e as boticadas de Eusébio Macário, o capitão farmacêntico António Costa Torres analisa as referências farmacênticas em “Eusébio Macário” e “A corja”. Também “O olho de vidro” merece a este autor algumas considerações.
O domínio da química era na altura de Camilo, e até ao desenvolvimento da indústria farmacêutica moderna e dos estudos farmacológicos e clínicos controlados, de extrema importância para farmacêuticos ou médicos que pretendessem estar actualizados, ou não fosse a maioria dos medicamentos preparados na botica por receita do médico. Actualmente a química continua a ser fundamental para o desenvolvimento de novos medicamentos e o entendimento da acção de todos os fármacos, para além de ser importante para a compreensão da fisiologia dos organismos vivos. No entanto, a especialização e a complexidade actuais são de forma a que esta ciência, embora continue a ser importante para o entendimento geral e particular dos processos terapêuticos, deixou de ser para a maioria dos profissionais de saúde fundamental ao nível da acção diária, como era na altura de Camilo.
Segundo Costa Torres, Camilo passou nemine discrepante à cadeira de Botânica no dia 14 de Julho de 1845, nos preparatórios para medicina e não esqueceu a matéria estudada. A lista de cerca de vinte plantas com propriedades medicinais foi confirmada por Costa Torres que apenas lhe encontra pequenos erros. Por esta altura já começavam a ser identificados princípios activos extraídos das plantas. O filho José Macário, conhecido como José Fístula, é um adepto das plantas medicinais e dos remédios modernos da Farmacopeia do doutor Pereira Reis (5ª edição datada de 1858 do Código Faramacêtico Lusitano). Eusébio Macário é um boticário de outros tempos. Uma lista de unguentos e remédios secretos está registado no seu livro sebento de três gerações de boticários, alguns tão antigos que podem já ser encontrados, por exemplo, no D. Quixote de Cervantes. E já na altura de Camilo eram obsoletos ou comprovadamente nefastos. Costa Torres indica as receitas de todos estes unguentos (quase quarenta de “Eusébio Macário” e mais de vinte de “A Corja”), copiadas d Farmacopeia Lusitana (com edições de 1704 e 1711) de frei Caetano de Santo António, as quais Camilo deveria conhecer bem desde jovem. Alguns exemplos, a cujo pitoresco Camilo não resistiu, são o ceroto de espermacete, pomada mercurial (com óxido de mercúrio II), unguento de Santa Tecla, com litargiro (óxido de chumbo II, conhecido por fezes de ouro) e sebo de carneiro, unguento de basilicão, com colofónia (pez louro) fundida em azeite, terebentina, cera amarela e óleo de amêndoas, ungento de Genoveva com terebentina e cânfora, ungento de populão, com infrutescências de choupo branco (Populus alba, que contém salicina), folha de dormideira, beladona e manteiga, papa de linhaça, unguento egipcíaco, de cor verde, devido ao acetato de cobre, azougue de Falópio, entre outros.
Eusébio Macário era um boticário tão antiquado que nada sabia de oximéis, uma designação que era já empregue nas farmacopeias do século XVIII! As formulações e preparações continuam hoje em dia a ser um dos campos mais exclusivos da Farmácia, embora para o desenvolvimento de novos princípios activos concorra também a Química. No tempo em que Camilo escreve são muito poucos os medicamentos de síntese, e todos os que existem são de origem inorgânica. Estamos ainda muito longe da descoberta da aspirina, das modificações químicos de moléculas biologicamente activas para obter medicamentos mais poderosos, da pesquisa sistemática de novos fármacos e dos testes controlados dessas substâncias.
No “Eusébio Macário” é ainda digna de nota a referência que Camilo faz a Gavroche de “Os miseráveis” de Victor Hugo. Camilo, na minha opinião com algum provincianismo tipicamente português, diz que já havia sido inventado em Portugal. [Correcção: o autor apressado deste post confundiu Gavroche com Grantaire, o estudante boémio que faz metáforas com conhecimentos avançados de química, ficando assim este parágrafo sem grande sentido químico. Logo que possível publicarei um texto sobre a química em “Os miseráveis” de Victor Hugo.]
Na obra “O olho de vidro, romance histórico”, publicada em 1866, Camilo apresenta-nos a vida trágica de Brás Luis Abreu (1692-1756), cristão-novo dos quatro costados que, por uma série de peripécias, perdeu o contacto com a sua família e a cultura judaica, torna-se um médico e autor famoso e acaba por casar com a irmã de quem tem oito filhos.
Neste livro, Camilo descreve com bastante detalhe o ambiente sufocante criado pela Inquisição. As referências aos medicamentos e tratamentos da época são também dignas de nota. Logo nas pimeiras páginas é referido o olhos de caranguejo (Oculi Cancrorum), formações de carbonato de cálcio, que se julgou serem os olhos dos carangejos, um remédio indicado para muitas doenças. Este mineral ainda tem usos medicinais actuais, mas não são tão fantásticos como na altura.
Camilo vai-nos apresentando algum receituário médico da época. Em particular, a descrição de um medicamento feito a partir de um pato assado é bastante divertida. Tal como a alternativa: cozer uma raposa inteira. É sobretudo este tipo de receitas fantasiosas, que se encontra na medicina barroca a par com os medicamentos secretos com nomes pomposos. Medicamentos sobretudo para suar e deixar de suar, para vomitar e deixar de vomitar, salivar e deixar de salivar. As purgas, os clisters, as sangrias, as fístulas (manutenção de uma ferida aberta para libertar humores), são ainda comuns. Não se pense ingenuamente que a ciência médica e farmacêutica avançou sempre de forma linear. As receitas de Garcia de Orta ou de Amato Lusitano, que viveram um século antes, são muito menos fantasistas pois baseiam-se na experiência e não em considerações retóricas.

SÉRGIO RODRIGUES

 In Blogue De Rerum Natura

Read Full Post »

Escrever Camilo

Sim, Camilo Castelo Branco imaginou o amor de Simão e Teresa. Imaginou tanto que teve necessidade de escrever. Há cerca de século e meio, durante o período em que esteve preso na Cadeia da Relação, no Porto, o escritor terminou uma obra. Intitulou “Amor de perdição”. É o seu livro mais conhecido, com várias adaptações para cinema e inúmeros estudos académicos.

Mas o mais importante foi aquilo que Camilo Castelo Branco imaginou. Uma história de amor, trágica por tanto amor, enfim, um espelho da sua própria vida.
Tal como Camilo, as crianças imaginam muito. Imaginam tanto que podem imaginar o escritor imaginando histórias de amor. Foi este desafio que foi proposto a cinco turmas do Ensino Básico do concelho de Vila Nova de Famalicão.
Tratou-se de uma iniciativa do Serviço Educativo da Casa de Camilo, com a chancela da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, para assinalar os 150 anos da primeira edição de “Amor de perdição”.
Uma das ações do Serviço Educativo da Casa de Camilo foi a realização de uma oficina de escrita criativa junto de cinco turmas do Ensino Básico, de alunos com idades compreendidas entre os 9 e os 10 anos. O resultado traduziu-se na edição do livro “Um amor eterno” (2012).
“Um amor eterno” escrito com o empenho de toda a imaginação que as crianças colocam no Mundo. Também com amor e afeto. Tal como Camilo escrevia.
Luís Bizarro Borges
(formador da oficina de escrita criativa)

 

Read Full Post »

Na obra mais famosa de Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (com o subtítulo história de uma família), escrita em cerca de quinze dias na cadeia da relação, não há referência directas à química, embora o romance seja considerando por vezes (especialmente por quem não o leu) como um paradigma da metáfora estafada da química do amor. Não é bem assim, quanto mais não fosse porque, paralelamente ao desenrolar do drama amoroso, o livro tem uma componente de romance de aventuras negro e ao mesmo tempo cómico e de crónica de costumes, mostrando com crueza as arbitrariedades das classes dominantes e as condições de vida do povo.
Também o drama amoroso do livro continua hoje em dia a ter, na minha opinião, bastante interesse. Em termos da tomada de consciência dos mecanismos químicos do amor e da atracção, as narrativas românticas vêm trazer algo de novo: a atracção amorosa é desenvolvida egocentricamente por aqueles que estão envolvidos nela, sem que esta seja provocada (aparentemente) por acções exteriores, poções, filtros ou manipulações de divindades.
Na Odisseia, Helena e Páris foram manipulados pelos deuses, sem que pudessem resistir. No Tristão e Isolda, o amor incondicional resulta de uma poção. Mesmo no Romeu e Julieta, que é por vezes comparado ao Amor de Perdição, a situação é ainda relativamente ambígua. Embora o amor de Romeu e Julieta não resulte das poções e filtros amorosos que encontramos em outras peças de Shakespeare, nem pareçam existir manipulações realizadas por divindades, Cupido é referido várias vezes. E o amor é comparado a um veneno irresisível para o qual não há tratamento. Depois dos clássicos e dos românticos, nos romances realistas e contemporâneos o amor aparece muitas vezes como resultado de circunstâncias e processos psicológicos, criando uma ilusão de verosimilhança.
Dos gregos antigos aos romances modernos, o amor não muda, mas vai mudanda a interpretação do que é a atracção amorosa. Actualmente, acreditamos que a química do cérebro e das hormonas substituiu os factores exteriores, o controlo por divindades e as poções. Continuamos, claro, a não ser totalmente livres, mas somos nós e as nossas circunstâncias que fazem a prisão em que ficamos.
A fixação amorosa de Teresa Albuquerque por Simão Botelho e deste por Teresa começaram, obviamente, como processos químicos cerebrais e hormonais. A manutenção de uma atracção amorosa duradoura entre as pessoas tem algumas semelhanças com a fixação instintiva das crias à mãe nos animais e do amor entre pais e filhos nos humanos. Para isso concorrem as hormonas ocitocina e vasopressina. Mas antes de chegar a essa fase, a atracção amorosa tem de passar por várias fases tumultuosas. Na adolescência surge o desejo por um parceiro amoroso provocado, nos homens, pela hormona testosterona, e, nas mulheres, pelo estrogénio. Depois, na presença de um parceiro desejável, a atracção, ou paixão, desenvolve-se com a ajuda dos neurotransmissores norepinefrina e feniletilamina, prolactiva e serotonina. Em particular a serotonina, hormona associada à depressão e aos mecanismos do vício, contribui para a fixação no ente amado, apresentando níveis tão baixos nos apaixonados que os aproxima dos doentes e viciados. Simão e Teresa são apresentados como muito desejáveis aos olhso um do outro, ele forte, belo e corajoso, ela bonita, elegante e delicada e simultaneamente também carentes.
Na ausência de vida social e contactos com outros jovens, um problema que a família de Teresa tenta resolver demasiado tarde, Teresa facilmente se apaixona por um rapaz galante, bonito e saudável, praticamente o único que vê como possível objecto amoroso. É também plausível que numa situação particular como a do romance, em que existe um grande desamparo e solidão de Teresa e Simão, por razões diversas (Teresa tem pais distantes e Simão acha que os pais não gostam dele), essa paixão evolua para um amor duradouro que resista a ser contrariado e leve os envolvidos a renunciar a tudo o resto. Também a fixação de Mariana se foi desenvolvendo, primeiro com a gratidão devida ao salvamento do pai, depois com a galhardia de Simão Botelho na fonte a bater nos criados e finalmente com a proximidade do jovem herói. Em termos da química amorosa não deixa de ser relevante a hesitação de Simão em relação à atitude a tomar em realção ao amor de Mariana.
Os mecanismos hormonais e a química do cérebro, que condicionam em boa parte as nossas sensações, sentimentos e atitude perante as circustâncias, têm muitas falhas que reinterpretamos para dar sentido às nossas vidas. As tragédias são simultaneamente tão comuns quanto raras. Os bons livros apresentam-nos situações que não têm de ser vulgares, mas que nos interrogam e ajudam a encontrar sentido para a existência.

SÉRGIO RODRIGUES

In Blogue De Rerum Natura

Read Full Post »

Viajar nos livros 10

 

Blogue  Viajar nos livros 10

Read Full Post »

Read Full Post »

A Queda de um Anjo

Calisto Elói, morgado de Agra de Freimas, vive numa pequena aldeia, de seu nome Caçarelhos, em perfeita harmonia com a sua esposa, D. Teodora de Figueiroa. O conhecimento dos clássicos, aos quais dedicou as leituras de toda uma vida, encheu-o de uma sabedoria moralista e conservadora que faz com que seja eleito deputado pelo círculo de Miranda. A sua presença em Lisboa e os seus discursos no Parlamento fazem sensação por causa da defesa da moral dos costumes antigos em detrimento do luxo e dos teatros. A experiência da sociedade lisboeta, no entanto, não deixa o morgado imune. A contaminação da personagem e os indícios da queda expressam-se exteriormente através da primeira visita a um alfaiate lisboeta. Esse é o primeiro passo de um percurso que culminará na transfiguração de anjo em alguém que a sua própria mulher não reconhecerá. Esta transfiguração exterior traduz uma metamorfose moral, consumada na defesa de princípios liberais em discursos tão ocos como aqueles que no início condenara e na ligação adúltera que mantém com uma viúva brasileira, D. Ifigénia Ponce de Leão. Com isto, Camilo pretende, usando a história de Calisto como alegoria, traçar o processo de contaminação de um Portugal saudável e incorruptível pelas mudanças políticas, sociais, culturais e religiosas da época.
Confesso que já não pegava em Camilo Castelo Branco desde que estudei o livro Amor de Perdição no Ensino Secundário. Aproveitei que me cruzei com este exemplar bastante em conta na Feira do Livro da Póvoa de Vazim para o adquirir e encontrar-me de novo com a obra camiliana. Através da história de Calisto, Camilo defere duras críticas à sociedade, com especial enfoque na classe política. Mas apesar de essas mesmas críticas serem pungentes, o tom com que o autor aborda ao tema é leve. Camilo utiliza o humor, criando uma série de personagens-tipo para alcançar o ponto a que pretende chegar. É esse humor que, de certa forma, facilita a leitura desta obra e não a torna demasiado maçadora ou cansativa. Foram várias as gargalhadas que dei durante a leitura, principalmente nos momentos de discussão parlamentar. Os discursos da Assembleia em 1820 parecem tão vagos de ideias e tão cheios de palavras vãs como os de hoje. Um livro interessante, que recomendo a quem tem gosto pelos livros considerados clássicos da nossa literatura.
Isabel Maia

Read Full Post »

Fiquei muito emocionada com a visita que fiz à Casa-Museu de Camilo Castelo Branco. Senti nela a ambiência austera camiliana. Este homem de infância infeliz e amores desmesurados foi um grande escritor, um escritor por vezes à força. Em quarenta amos de escrita, entre romances e jornais se fizermos uma média escreveu 4 páginas por dia. Suicidou-se numa cadeira na sala após ter percebido que não voltava a ver. Teve uma morte camiliana. A nossa visita começou assim em S.Miguel de Ceide ou Seide. A seguir fomos às Antas ver a bela igrejinha românica, uma beleza, muito diferente das que temos visto. Depois de almoço fomos ao Museu do Surrealismo, uma fundação deixada por Cupertino de Miranda, do antigo BPA. Uma torre com imensas obras dos maiores expoentes deste movimento dos anos quarenta e cinquenta. Gostei muito dos objectos que trouxeram do quarto de Mário Cesariny, aliás era uma presença assídua do museu e doou-lhe toda a sua obra. Na fachada grandes obras em azulejo de Cruzeiro Seixas, outra figura maior do surrealismo português, depois foi a vez de visitarmos o recente museu de Bernardim Machado, o homem, o político, o pedagogo, o defensor da igualdade entre homens e mulheres. O museu encontra-se instalado na antiga casa do Barão da Trovisqueira, um torna-viagem, sim porque nós andámos por terra dos torna-viagem brasileiros, os que emigraram para o Brasil e entre milhares que foram, um voltava rico, foi o caso deste Barão, amigo do Camilo. A verdadeira casa de Bernardim Machado comprou-a o BCP, paciência, esta onde está instalado o museu é muito bonita, principalmente a sua escadaria e os estuques que adornam os tectos. Gostei muito mas achei talvez painel a mais, da presença do Bernardim não senti muito. Numa casa-museu deve-se sentir a ambiência daquele de quem se quer contar uma história. Senti a mesma emoção que senti na casa do Camilo, quando visitei a Casa Mozart, já não senti o mesmo em Tormes na casa de Eça, nem em Bona na Casa de Bethoven. Sensibilidades.
Depois fomos para o hotel em Fafe, muito bom e os restaurantes de Famalicão são do melhor. Andámos pelas terras de Basto, Cabeceiras, Mondi, Celorico, dizem que os primeiros povos adoravam uma deusa que era a Vaca Basti.
Nessa noite discutimos animadamente com o grupo de leitura «A Brasileira de Prazins» do Camilo e foi muito bom…

Fonte: blogue Azul ao longe

Read Full Post »

Older Posts »

%d bloggers like this: