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Archive for the ‘Novelas’ Category

À Memória do Senhor Rei D. Afonso Henriques

Eu não podia escrever uma novela urdida com factos de Guimarães sem me lembrar do mais notável filho daquela terra – o Senhor D. Afonso Henriques.Procurei nas ruas e praças de Guimarães a estátua do fundador da monarquia. A cidade opulenta, que tem ouro em barda, e abriu dois bancos como os pletóricos que se dão duas sangrias, não teve até hoje um pedaço de granito que pusesse com feitio de rei sobre um pedestal!
Se eu fosse rico, ou sequer pedreiro, quem fazia o monumento de Afonso era eu. Assim, como último dos escritores e o primeiro em patriotismo, apenas posso aqui levantar um perpétuo padrão ao vencedor de Ourique – ao real filho da mãe ingrata.”

 

Camilo Castelo Branco,
Dedicatória In “A viúva do Enforcado”, in Novelas do Minho, 1877

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Guimarães é presença recorrente na obra de Camilo Castelo Branco. O escritor de Seide conhecia bem o velho burgo, que utilizou como pano de fundo de várias das suas obras. E aqui tinha “um amigo, como usam raramente ser os irmãos”, Francisco Martins Sarmento, que visitava de quando em quando.
A primeira notícia da presença de Camilo em Guimarães é-nos dada pelo próprio no Discurso Preliminar das suas Memórias do Cárcere, onde conta como, em 1860, andando fugido ao mandato de captura que fora emitido na sequência do processo de adultério que lhe fora movido por Manuel Pinheiro Alves, não encontra leito onde encostasse a cabeça. Haviam-lhe indicado a estalagem da Joaninha, na Praça da Oliveira, que descreveu com rigores de soda cáustica:
 “Joaninha é duma velhez repelente, e está curtida em camadas de lixo empedrado. A sua casa é um pântano de miasmas, e os seus leitos guardam nas furnas, roídas pelo dente dos séculos, muito bicho, coevo do rei Bamba, que lhe cravou a oliveira à porta. O repasto, que ali se dá na banca de pinho contígua ao leito, seria um cozinhado de Locusta, se tivesse a subtileza dos celebrados venenos da romana. É coisa que puxa pelo estômago, e o desmancha febra a febra.”
Num dos seus livros, Amor de Salvação, publicado dois anos depois das Memorias do Cárcere, em 1864, Camilo regressaria à mesma estalagem. A Joaninha e a estalagem que ele aí descreve contrasta profundamente com as memórias que lhe ficaram da sua passagem por Guimarães em 1860:
“Serenou-se o aspecto de Afonso de Teive, e fomos indo silenciosos, até apearmos em Guimarães na estalagem da Joaninha, que está neste mundo a competir em graças, limpeza e poesia com a Joaninha de Almeida Garrett, nas Viagens.
Jantámos, saímos a ver a terra, que eu nunca vira em Dezembro, enxergámos à luz crepuscular umas famosas damas da velha cidade que resistiam ao frio da tarde encostadas aos peitoris das suas janelas; entrevimos galantíssimos olhos de outras através das rótulas, que ainda agora nos estão contando virtudes de outras eras, virtudes que precisavam de rótulas, como as belas flores exóticas precisam de estufa.
Voltámos à estalagem, tomámos chá e uns pastelinhos que hão-de ir futuro além relembrando o mavioso nome da Sra. Joaninha. Depois pedimos duas camas num quarto, e tivemos a satisfação de ver que nos davam um quarto com cinco camas, ou coisa assim.”
A referência mais antiga a Guimarães que, até agora, encontrámos na obra de Camilo, aparece no romance Anátema, de 1851, em que, ao falar de uma cozinheira chamada Micaela, recorda aquilo que Virey escreveu sobre a beleza das mulheres de Guimarães:
“Micaela e sua irmã Jacinta eram filhas de um cuteleiro natural de Guimarães e desde 1708 estabelecido em Braga. Se não fosse o contraste da irmã, dera-vos aqui em testemunho real da opinião de formosura por que são tidas as filhas de Guimarães, um tipo de especial lindeza e graça nesta donairosa Micaela entre os quinze e os seus vinte e quatro anos.”
O primeiro dos Doze Casamentos Felizes, obra de 1861, é povoado de personagens, as Noronhas, que contrastam vivamente com o modelo de beleza que Micaela personificava. Termina assim:
“… e vou terminar, pedindo ao leitor que, se algum dia for ao Minho, procure a casa do Sr. João António Francisco, peça agasalho, que o há-de ter regalado, e contemple o que é a genuína e desartificiosa felicidade conjugal.
Se, depois, voltar por Guimarães, peça o leitor que o apresentem em casa das Sras. Noronhas, e verá o que são mulheres tolas e feias.”
Uma das últimas obras de Camilo Castelo Branco foi escrita a meias com Francisco Martins Sarmento (a quem o romancista dedicara a sua obra No Bom Jesus do Monte, de 1864, e um estudo literário, incluído no livro Esboços de Apreciações Literárias, de 1865). Trata-se de uma polémica simulada e jocosa, inicialmente publicada num jornal de Lisboa, em que ambos os escritores escreveram sob pseudónimos, depois coligida numa obra com fins filantrópicos com o título Estudos da Velha História Portuguesa.
António Amaro das Neves

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Retrato de minhota (cliché de Francisco Martins Sarmento)

“Ah!, o senhor vai para o Minho?

– Vou; venha também, verá que céu, que natureza…
– E a água?
– Água excelente, água de rocha viva… E do Porto, as de Viana, as de Guimarães!
– Com que então diz-me o Sr. Almeida que há no Minho boa água, bom ar…
– E as mulheres mais bonitas de Portugal. Se o senhor visse as camponesas da Maia, as padeiras de Valongo e Avintes, as lavradeiras de S. Cosme e Fânzeres, as varinas de Espinho e Ovar! Não leu em Virey que as mulheres mais lindas que ele vira nas suas viagens foram as de Guimarães?”
Camilo Castelo Branco
In  “Doze Casamentos Felizes”,  1861

 

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3

editora Sistema Solar

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Semana Camiliana em Lamego

Sem título 1

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Minho

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª. (…)

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila. (…)

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas.

Camilo Castelo Branco
IN O Comendador (Novelas do Minho, 1875)

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O comendador


(da dedicatória da novela O Comendador)

A D. António da Costa

Em testemunho da regalada leitura que V. Ex.ª me deu com o seu MINHO, lhe ofereço uma das novelas de cá. O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família. A paisagem sugeriu-lhe, meu caro poeta, as prosas floridas do ridente livro. O seu estilo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmúrio das ribeiras onde o céu estrelado se espelha.

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª, afora o mais que aformoseia o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feitiçarias da arte com que V. Ex.ª disputa primores à natureza.

Camilo Castelo Branco

Novelas do Minho, In O Comendador

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