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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Apesar de ter sido a estreita amizade que Camilo Castelo Branco (1825-1890) manteve com a família Barbosa e Silva, de Viana do Castelo, a razão maior da sua ligação a terras do Alto Minho — também ao concelho de Caminha, como se evidenciou em crónica anterior — nem por isso deixou o grande escritor de Seide de cultivar outras relações na região. Uma das maiores foi certamente com José Caldas (1842-1932), o literato, publicista e historiador vianense, um dos mais interessantes intelectuais alto-minhotos da época contemporânea, autor, entre outras obras, de “Os Humildes”, “História de um Fogo-Morto” e “Vinte cartas de Camilo Castelo Branco (1876-1885)”. Neste último livro, publicado em 1923, José Caldas revive o tempo da juventude e os primórdios da sua carreira literária — encorajada aliás por Camilo, que conhecera durante a estadia deste em Viana em 1857 —, dando ainda à edição a correspondência que mantiveram entre si ao longo de uma década.

Em data incerta, pelos primeiros dias de Setembro de 1880, Camilo telegrafa de Famalicão ao amigo de Viana: “Acharei cómodo regular em Âncora?Havendo-o vou amanhã” (1). Deste modo desafiado, recorda José Caldas como procurou de imediato satisfazer o repentino capricho: “Âncora era a esse tempo uma estância balnear de estreitíssimos recursos. Havia ali um hotel péssimo, e as pousadas que os moradores do sítio ofereciam aos banhistas eram de uma indigência de conforto incompatível com o mais acrisolado sacrifício. Contudo, tratei de desindividar-me do encargo. Ajudou-me na laboriosa pesquisa o meu amigo Isidoro de Magalhães Marques da Costa, ferventíssimo admirador de Camilo. Batemos o alto e o baixo Gontinhães, ajudados valiosamente de alguns práticos da terra. Não aparecia coisa de jeito. Isidoro, activo, incansável, produzia verdadeiros prodígios de informação. O pior era que não encontrávamos casa que servisse, ou sequer pousada por mais modesta que fosse, que me afoitasse a fazer atrair, sem risco, sobre aquela pobre praia, um homem como Camilo, cuja saúde, sempre em grandes abalos, exigia um regime de comodidades que seria quase impossível inventar ali” (1).

A notícia do insucesso da empresa de Caldas segue por carta para S.Miguel de Seide, recebendo na resposta, datada de 5 de Setembro, um segundo telegrama de Camilo: “Era hotel que eu queria. Agradeço. Escrevo pelo correio” (1). A carta prometida chegou efetivamente dias depois e o seu curioso conteúdo justifica a transcrição integral: “Expliquei-me mal. 

Eu não queria alugar casa. Deus me livre. Era um quarto em hotel pois que vou só. O Francisco Martins Sarmento já me tinha feito ver as dificuldades na realização de um Ideal tão ambicioso. Um quarto em Gontinhães! Lembrei-me, porém, que haveria isso em um novo Hotel (puf!) que se inaugurou. Não tenha você mais incómodo com isto. Por entre a sua carta vi a planta, a thologia e a mesologia [sic] de Âncora. Desanimei e já não iria de boa vontade. Abraço-o pelos favores que me fez excedentes ao que eu pedia” (1).

Apesar do esforço ter sido em vão — Camilo acabou por não vir nesse ano de 1880 para Âncora — desta troca de missivas entre os dois literatos algo se retira a propósito da praia ancorense que, nessa época, iniciava a sua afirmação regional como estância balnear. Tal sucedia, em grande parte, graças à inauguração do caminho de ferro em 1878, que vinha juntar-se à estrada real de Viana a Caminha, permitindo uma mais fácil comunicação com o distrito e o Minho. Daí provavelmente a ideia de Camilo — de comboio, depressa viajaria de Famalicão a Âncora —, a que acrescia o conhecimento obtido através do amigo Francisco Martins Sarmento, o arqueólogo de Briteiros, habitual frequentador da localidade. O maior problema, como se percebeu, residia na falta de alojamento decente e cómodo para os visitantes ocasionais, o que acabaria por desmotivar Camilo. Para além de modestas casas particulares que alugavam quartos, José Caldas refere a existência de um só — e “péssimo”, faz questão de acrescentar — estabelecimento hoteleiro em 1880. Dois anos depois, todavia, a situação tinha-se já alterado e no jornal vianense “Pero Gallego“, são mencionados dois hotéis na Praia de Âncora: “O Valenciano, e outro vem, todos os anos, estabelecer-se ali durante a época balnear. Este é o Luso-Brasileiro. Ambos fornecem aos seus hóspedes tratamento regular. Os seus preços variam entre 1.000 a 1.500 rs diários” (I, 29, Outubro de 1882).


A menção à notícia redigida por Rocha Páris no “Pero Gallego“, dos primeiros textos conhecidos a dar conta da crescente popularidade da praia ancorense, tem uma razão acrescida. Aparentemente ultrapassadas as razões que o tinham impedido em 1880, tudo indicia que Camilo Castelo Branco, acompanhado por Ana Plácido e o filho Jorge, tenha passado uns dias de descanso na Praia de Âncora no verão de 1882. Tal se depreende do cruzamento de três fontes distintas. Aquela que nos despertou para essa eventualidade foi a referência feita por Maria Emília Sena de Vasconcelos (descendente dos Barbosa e Silva por afinidade), às ocasiões em que Camilo regressou a Viana do Castelo após a sua estadia de 1857: “…a outra deu-se no regresso de Âncora, onde estivera com a mulher e os filhos no verão de 1882″(2). Sucede que um autor que muito se debruçou sobre Camilo, Abílio de Campos Monteiro (1876-1934), inseriu numa das obras de ficção que lhe dedicou, uma passagem reveladora a este respeito, apesar de não datada.

A certo passo do seu livro “Camilo Alcoforado” (1925), uma personagem dialoga assim com Ana Plácido em São Miguel de Seide: “E este ano, não tinham ido a banhos? – Estivemos em Âncora alguns dias. Mas o Jorge começou a dar-se mal…” (3). Finalmente, a corroborar estas duas fontes indiretas, sabemos pelo punho de Camilo, que escreveu uma breve nota nesse dia, e pelo que nos conta Luís Xavier Barbosa, sobrinho dos Barbosa e Silva, que por volta de 11 de agosto de 1882 — de regresso da Praia de Âncora, deduzimos — esteve o grande escritor uns dias em Viana, alojado no Hotel Central, aproveitando para visitar o velho amigo Luís Barbosa (4, 5).Infelizmente, mais não foi possível apurar sobre essa muito provável estadia de veraneio de Camilo Castelo Branco na Praia de Âncora em finais de julho e/ou inícios de agosto de 1882. Bom seria que houvesse alguma carta ou crónica escrita pelo próprio ou então uma qualquer nota de imprensa que a mencionasse mas, com um escritor prolixo na correspondência como Camilo e tão reconhecido no seu tempo, não nos surpreenderia que viesse ainda a aparecer.

NOTA: Este texto foi realizado no âmbito do projeto “À volta de Camilo” da Biblioteca Escolar da EB 2,3/S de Caminha, em parceria com o Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Encarnação (Vilarelho), a Universidade Sénior do Rotary Club de Caminha e a Biblioteca Municipal de Caminha, e a pesquisa em que se fundamenta foi partilhada com os alunos Joana Aldeia-Nova, Pedro Casal e Sandra Pereira.

BIBLIOGRAFIA

(1) José Caldas (1923). Vinte cartas de Camilo Castelo Branco (1876-1885). Porto: Companhia Portuguesa Editora.
(2) Maria Emília Sena de Vasconcelos (1991). Os Barbosa e Silva, de Viana, e Camilo. Cadernos Vianenses XV. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo, pp.111-127.
(3) Campos Monteiro (1925). Camilo Alcoforado. Porto: Livraria Civilização.
(4) Alexandre Cabral (1984). Correspondência de Camilo Castelo Branco. Com os Irmãos Barbosa e Silva (e com Sebastião de Sousa). Volumes I e II. Lisboa: Livros Horizonte.
(5) Luís Xavier Barbosa (1919). Cem cartas de Camilo. Lisboa: Imprensa Portugal-Brasil.

Paulo Torres Bento
(com Joana Aldeia-Nova, Pedro Casal e Sandra Pereira
— Projeto “À volta de Camilo”, E.B.2,3/S de Caminha)

Fonte: http://www.caminha2000.com/jornal/n638/cmc3.html

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Amor infinito

Da mulher o que nos comove e enleva é a parte impoluta que ela tem do céu; é a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, não sabido dela, não sabido de nós. Ali há mensagem de outras regiões; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas lágrimas, há um espirar para o alto, um ir-se o coração avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. Nós é que não sabemos nem podemos ver senão o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas graças do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de súbita embriaguez nos fazem crer que despimos o invólucro de barro e pairamos alados sobre a região das lágrimas. 

É Deus que não quer ou somos nós que não podemos prorrogar a duração ao sonho? Se Deus, que mal faria à sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai tão rápida aquela estação em que o homem é bom porque ama, e é caritativo e dadivoso porque tudo sobeja à sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das intenções? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgraças estranhas? Que exuberância de bens a desbordar da alma! Que ânsia de fazermos em redor de nós alegrias, fortunas, mãos erguidas connosco a bem-dizer os contentamentos que nos chove o manancial dos puros deleites. 

Não é Deus que nos agourenta as alegrias castas, as espirações que lhe comprazem. Nós é que não sabemos que luz é essa da nova manhã que dentro nos alumia voluptuosidades desconhecidas. Atribuímos ao efeito os prestígios da causa. É que não podemos ver por longo tempo a mensageira dos mundos estrelados: quizemos pôr a mão na vara que nos encantou; e a vara fez-se serpente, porque a alma imaculada já não era o impulsor da nossa ansiedade. O homem, escurecido já no interior, viu a mulher ao sol da terra, sol que incende o sangue, e abraza o rosto e cresta as asas do anjo. Ai dos anjos em carne que olham depois em si e correm a vestir-se da folhagem do paraíso! Desde esse momento a luz do homem, o calor das paixões radia do montante de fogo que empunha o executor de alta justiça. Fora do éden está o inferno. A baliza encravada na fronteira maldita chama-se o TÉDlO. 

Camilo Castelo Branco

 in ‘O Santo da Montanha (1866)’

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Lugar de Memória Camiliana

No próximo dia 18 de Abril celebra-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que foi instituído em 1982 pelo ICOMOS e aprovado pela UNESCO no ano seguinte. A partir de então, esta data comemorativa tem vindo a oferecer a oportunidade de aumentar a consciência pública relativamente à diversidade do património e aos esforços necessários para a sua proteção, conservação, chamando a atenção para a sua vulnerabilidade.

Este ano o Dia internacional dos Monumentos e Sítios é dedicado ao tema Lugares de Memória.

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II CONGRESSO O PORTO ROMÂNTICO

11 e 12 de Abril de 2014

Universidade Católica do Porto

Dia 11 de Abril de 2014 (sexta-feira: tarde)
17.20-17.40 – Carmen Matos Abreu
Refigurando as relações, pessoais e literárias, entre dois escritores românticos: Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco

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Universidade do Minho | Auditório do ILCH, campus de Gualtar, Braga, terça-feira, 08-04-2014

Iniciativa do CEHUM com oradores das universidades de Lyon II (França), São Paulo, Federal do Paraná (Brasil), Ohio (EUA) e Minho, entre outros

O Congresso “Camilo Castelo Branco, Machado de Assis e as relações luso-brasileiras” decorre a 8 de abril de 2014 na Universidade do Minho. Conta com oradores das universidades de Lyon II (França), São Paulo, Federal do Paraná (Brasil), Ohio (EUA) e UMinho. A iniciativa tem lugar no auditório do ILCH (Instituto de Letras e Ciências Humanas), no campus de Gualtar, Braga. A organização cabe ao Centro de Estudos Humanísticos da UMinho (CEHUM), entre outros.

Programa pdf

Contextualização

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Dilúvio do ano 2000

“O dilúvio, que afogou a Europa no ano 2000, foi necessário e providencial: tanta era a corrupção daqueles povos!”

(Um filósofo asiático que há-de escrever no ano 3521)

dedicatória no livro “Mistérios de Fafe: romance social”
Camilo Castelo Branco

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