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Camilo é uma floresta

1. Isto vai meter as Pussy Riot, emigrantes em Portugal e aquele passarinho que veio pousar no meu computador, mas antes do mais vou engolir as palavras de Guerra Junqueiro quanto à ausência de árvores em Camilo Castelo Branco. Como o leitor é sempre o último a escrever, o meu leitor em Geraz do Lima respondeu à crónica anterior com uma floresta. Eu, feliz, dava-lhe esta crónica inteira e não chegava. Facto é que Camilo anda numa roda-viva entre Minho e Alentejo, neste Maio de 2014. Por outra leitora, até soube que alegra raparigas de coração no Rio de Janeiro.

2. Bem comida e bebida no Alentejo, a crónica anterior terminava perguntando se algum sobreiro teria chegado a Camilo. Pois só de uma assentada o leitor minhoto — Agostinho, se me permite — não só topou vários como os enviou na companhia de carvalhos, pinheiros e castanheiros, todos plantados pela rápida mão de Camilo, idealmente mais rápida que a própria fome. “Ora veja, por favor”, escreve-me Agostinho, solicitando de seguida a não actualização ortográfica. Do Amor de Perdição: “Já me lembrou de o esperar no caminho, e pendurá-lo pelo gasnete no galho d’um sobreiro…” De O Que Fazem Mulheres: “Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros (…).” De Novelas do Minho: “É aquella que branqueja por entre aquelles dois carvalhos.” De A Gratidão: “Quando Rosa o soube, saltou d’alegria, por que se dava melhor à sombra dos pinheiros e carvalhos, do que em casa. (…)” De Scenas da Foz: “Homem! Tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu um dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos séculos, vergou a fronte, e estalou pelas raízes.” Enfim, de Noites de insomnia offerecidas a quem não pode dormir: “A poesia não lhe deu para se confidenciar com os sobreiros da mata (…)” O elenco prossegue mas não quero abusar. É floresta que já dava para Guerra Junqueiro cofiar as barbas.

3. Uma adenda aos sobreiros. Contrariando a Biologia, para o leitor minhoto, eles não são carvalhos coisa nenhuma porque “o sobreiro é do mundo da economia, o carvalho do da poesia”. Explica Agostinho: “O carvalho é comunitário. No convívio com os outros se faz mais belo. É árvore da festa, do vira e do balé. Não desperta compaixão; quanto mais envelhece mais jovial cresce e acolhedor se manifesta. E morre sendo carvalho.” Eu, que conto ir ao Norte lá para os começos de Junho, vou ver se me arranjo para rever esses guerreiros. E, de caminho, nenúfares que “não são ‘betinhos’ de tanque”, “medram nos lagos de fundo em terra que os antepassados usavam para recolher a água com que regavam o milho ou a horta”.

4. Entretanto, o mais a Norte que vou é ao Intendente, ali entre os Anjos e o Martim Moniz, onde há um tigre numa parede, não sei se de Mompracem, com certeza o Paulo Varela Gomes saberá. Vai ser a apresentação do último romance dele, Hotel, só por isso deixo o Alentejo (e ele terá em cima da mesa mais três manuscritos). Quando emerjo do metro, de repente sem me lembrar se esquerda ou direita, salva-me um lisboeta daqueles magrebinos, que conhecem uma cidade que eu não conheço. Melhor, só ter comprado cravos a um indiano no 25 de Abril, dois dedos de conversa, era do Punjab.

5. Do Intendente para a beira-Tejo, onde revisito uma vida russa. Tive uma pequena vida russa ali por 1991 (com extensões em 1993 e 1998), que por um triz ainda foi soviética. Apanhei mesmo o golpe anti-Gorbatchov que levou ao fim da URSS, eu e o namorado de então, um daqueles portugueses que tinham estudado em Moscovo. Em 1991, andou comigo nas barricadas, tal como o antigolpista em casa de quem dormíamos, e aquele milhão de antigolpistas que queriam liberdade, achávamos nós. Em suma, vou à beira-Tejo reencontrar o namorado de então, hoje diplomata da União Europeia em Moscovo, e ele dá-me notícias do nosso anfitrião russo de então, hoje um fiel do tsar Putin: a Ucrânia não existe porque tudo é Rússia, as Pussy Riot estiveram dois anos presas porque pecaram contra a Igreja e os gays são doentes que devem ser tratados. Isto é o que o meu namorado de então ouve todos os dias e tornou-se difícil ter amigos nessa barricada, a dos fascistas. Foi no que a Rússia se tornou, diz ele, um estado fascista, de zombies que acreditam na propaganda da televisão contra a decadência do Ocidente. A decadência do Ocidente são os gays e as lésbicas e as Pussy Riot. Eu gostava que os meus amigos de esquerda que continuam a defender o Kremlin me explicassem o que há de esquerda na Rússia homofóbica, autoritária, imperialista de 2014. A vitória de Conchita Wurst (grande nome) foi só mais um sinal da decadência do Ocidente, leio nas reacções russas. Dá vontade de uma pessoa se chamar Conchita Wurst e andar pela Praça Vermelha cofiando a barba, tipo Guerra Junqueiro, mas de salto alto.

6. Já em casa, acho a minha antologia de Rubem Braga, encarquilhada desde que apanhou uma daquelas chuvas cariocas. Trouxe-a do Rio em promessa a um admirador português do cronista e nunca mais me lembrei. Quando lhe escrevo a dizer, já ele tem um exemplar trazido do Rio noutra mala. É o novo tráfico do Atlântico, como o meu amigo paulista Marcos Lacerda dizer que só gosta praticamente de fado, o que é 99 por cento mais do que eu, ao mesmo tempo que me apresenta Rodrigo Amarante como síntese da canção brasileira. A propósito, se alguém avistar por aí o Samba de Orestes Barbosa, interessa-me em qualquer estado. E agora só volto a Lisboa para votar no Rui Tavares.

7. A grande notícia do quintal é que o diospireiro floriu em cada galho, brotos amarelos que rapidamente ficaram cor de caramelo, com um pequeno bolbo por baixo. Cada pequeno bolbo vai ser um dióspiro? Imagino toda a copa, mal caberemos. A videira, que nem se via, está uma selva. Bem sei que no Norte tudo é mais verde, mas isto é muito verde. E os coentros que o leitor de Agamben plantou já estão com meio palmo. E caracóis em barda, paraíso de quem os come, não eu, nem o meu vizinho Vasco (sete anos). Somos mais salame de chocolate, com a receita do Pedro Serpa, que além de desenhar livros lá na metrópole é o pasteleiro do Álvaro (oito) e da Flora (três). Aqui na província, a porta da cozinha fica aberta toda a tarde, e a cozinha é o único escritório da casa. Foi assim que o passarinho veio pousar no computador, mesmo em cima da barra do Word. Talvez achasse que era uma espécie de muro, ele que voa.

Alexandra Lucas Coelho

Fonte: Público, 18 maio 2014

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Minho

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª. (…)

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila. (…)

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas.

Camilo Castelo Branco
IN O Comendador (Novelas do Minho, 1875)

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O comendador


(da dedicatória da novela O Comendador)

A D. António da Costa

Em testemunho da regalada leitura que V. Ex.ª me deu com o seu MINHO, lhe ofereço uma das novelas de cá. O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família. A paisagem sugeriu-lhe, meu caro poeta, as prosas floridas do ridente livro. O seu estilo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmúrio das ribeiras onde o céu estrelado se espelha.

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª, afora o mais que aformoseia o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feitiçarias da arte com que V. Ex.ª disputa primores à natureza.

Camilo Castelo Branco

Novelas do Minho, In O Comendador

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