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«A 17 de Março de 1807, saiu dos cárceres da Relação Simão António Botelho, e embarcou no cais da Ribeira, com 75 companheiros. O filho do ex-corregedor de Viseu, a pedido do desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não ia amarrado com cordas ao braço de algum companheiro. Desceu da cadeia ao embarque, ao lado de um meirinbo, e seguido de Mariana, que vigiava os caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da nau, e recomendou ao comandante que distinguisse o condenado Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o à sua mesa. Chamou Simão de parte, e deu-lhe um cartucho de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e, na presença de Mourão Mosqueteira, pediu ao comandante que fizesse distribuir pelos seus companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.
- E demente o senhor Simão?! disse o desembargador.
- Tenho a demência da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi; quero agora ver a que extremo de infortúnio ela pode levar os seus amantes. A caridade só me não humilha quando parte do coração e não do dever. Não conheço a pessoa que me remeteu este dinheiro.»

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
I

Faça o comentário global do texto, tendo em conta os seguintes tópicos de análise textual:

- Importância da referência precisa ao tempo diegético;
- Caracterização de Simão enquanto herói anti-social;
- Ritmo narrativo;
- Recursos estilísticos;
- Léxico e seu valor

II

A propósito de Mariana, figura feminina de Amor de Perdição, o narrador interroga: «Que anjo te fadou o coração para a santidade desse obscuro martírio?»

partir da frase acima transcrita, redija uma pequena composição a respeito da complexidade desta personagem.

Fonte: blogue Teste de Português

Notas à margem

Um livro sobre  Camilo Castelo Branco

Neves, Álvaro – Camillo Castelo Branco. Notas á margem em varios livros da sua biblioteca, Lisboa, Parceria Antonio maria Pereira, 1916.

Descarregar o livro: Internet Archive |  Canadian Libraries
livro da Universidade de Toronto

Reler as Novelas do Minho, de Camilo, é uma boa hipótese para tempos de crise. Ali está Portugal, o que prezamos e o que nos enjoa. Camilo, que foi tratado como «o último miguelista de Portugal», dá a volta à província desenhando a galeria dos seus personagens: brasileiros («os de profissão» e «os do Brasil», nunca enganando o ressentimento contra Pinheiro Alves, a quem ficou com o relógio); herdeiros pobres que morrem nas serras, sob a neve e a geada; mulheres de dedos nodosos (um dos primeiros retratos de amor entre mulheres, na nossa literatura, está em «O Cego de Landim») e de peito arfante, melodioso; bacharéis do século dos bacharéis, políticos vingativos e de digestões difíceis; gente corada, apopléctica, mandibulando bacalhaus de cebolada; românticos perdidos; tuberculosos das secretarias, compondo maus versos e acabando na câmara de deputados — está tudo lá, está tudo lá, como está n’A Brasileira de Prazins, a obra-prima. Para os fanáticos de Cormac McCarthy, lembrem-se que a expressão original é da Camilo. Numa das novelas, é o próprio que se lamenta: «Este país não é para ninguém.»

Fonte: Crónicas de Francisco José Viegas

Bibliografia Camiliana

Bibliografia Camiliana no Socrates da Stanford´s Online Catalog

No dia 17 de Junho de 1899 marcou o nascimento do Cinema Águia d’ Ouro. Edificado na Praça da Batalha, no Porto, a sua fachada oitocentista marcou, durante anos, o cinema portuense.

Foi circo, recebeu teatro e, em 1907, assistiu à estreia do cinematógrafo de Thomas Edison. A partir de 1920, a rodagem de filmes começou a ser feita de forma regular.

Viveu uma época áurea e no local, onde anteriormente funcionou um botequim, realizaram-se tertúlias com a presença de Camilo Castelo Branco, Delfim Maia, entre outros.

No entanto, na década de 80 entrou em declínio e acabou progressivamente dotado ao abandono e à degradação, o que ditou o seu fim no dia 31 de Dezembro de 1989.

Fonte: Jornal de Notícias

Futuro

Como dizia Camilo:

«portanto, lá vamos todos para a posteridade»

Crónica de Francisco José Viegas:

De ontem, ótimas observações sobre Camilo Castelo Branco: “Camilo é o nosso grande romancista. E humorista. Romântico, dramático, trágico, satírico, de ir às lágrimas e de chorar de rir. A língua portuguesa rejubila com ele. Os seus personagens são desenhados a fio de prata, iluminando a prosa. O realizador chilenoRaúl Ruiz escolheu Mistérios de Lisboa para filmar e quer continuar com O livro negro do padre Dinis, outra obra romântica fantástica com um pouco de O monte dos vendavais [No Brasil, traduzido por Rachel de Queirós como O morro dos ventos uivantes]. Manoel de Oliveira transformou Camilo em teatro radiofónico, o que é pouco para o génio absoluto do autor de A brasileira de Prazins. Talvez o chileno Ruiz compreenda esse talento extraordinário de ficcionista e historiador, que os portugueses ignoram por não ser ‘moderno’, nem ‘francês’, nem ‘cosmopolita’. Por isso é o melhor de nós.”

Fonte: Blogue Autores e Livros

Civilização

Recordo hoje as palavras de Camilo Castelo Branco:

“A civilização é a razão da igualdade”

Mistérios de Lisboa de Camilo Castelo Branco em filmagens:

No Palácio dos Arcos, em Paço de Arcos, Lisboa, faz-se cinema em português… mas segundo a direcção de um famoso chileno.

Por aqui, Raúl Ruiz filma um regresso às páginas de ‘Mistérios de Lisboa’ (1854), de Camilo Castelo Branco, para recontar a novela de época numa longa-metragem e uma mini-série para a RTP.
Logo à entrada do décor, tropeça-se no mundo dos sonhos de Ruiz, nos charriots que servem de carris ao jovem João Pedro Arrais, 14 anos, que ‘delira’ à volta da câmara, a indiciar o pesadelo que está a viver. Ao fundo, minutos depois, Maria João Bastos (mãe da criança) espreitará por entre uma cortina. Será sonho ou realidade este que é o primeiro encontro de uma mãe com o filho que lhe foi arrancado à nascença e ela julgava morto?

“É uma cena emocionalmente muito forte”, diz ao CM a actriz, já na pele de Ângela de Lima, uma das figuras centrais desta trama. A cena, no ecrã, resultará distorcida, bem diferente da realidade que ali se vê, e deixará o espectador tonto pelos efeitos da lente. “Estou encantada com os planos surreais do Ruiz. É um génio.”

A história cruza várias estórias. Como explica Adriano Luz, de batina de padre Dinis vestido, ele que é também um dos epicentros da acção. “É uma tragédia com muitas personagens que se tocam e o padre é alguém que traz consigo a morte. Mas uma morte romântica, quase em sinal de redenção.”
Romance trágico intemporal, ‘Mistérios de Lisboa’ atravessa o século XIX e várias gerações, interlaçando enigmas e segredos profundos que se vão desvendando. Filhos bastardos condenados à morte, duelos de honra, fortunas roubadas, vinganças doentias…
Poético como os seus planos, assim é Ruiz também no décor. Tal qual a sua filmografia que exalta um olhar que cruza o real e o imaginário.
“Estou interessado na cultura popular, de folhetim, do kitsch”, confirma o realizador.

‘Mistérios de Lisboa’ roda na capital até Março e, antecipa já Ruiz, “termina com serenidade e ironia. O meu desafio não é fazer o melhor filme português, mas sim o mais português”, diz quem conhece o nosso país há 30 anos e fala a língua de modo quase fluente.

MAIS PROJECTOS EM CURSO COM PAULO BRANCO
Aos 68 anos e dezenas de filmes na bagagem – entre os quais ‘Klimt’ (2006) –, Raúl Ruiz já tem na calha mais dois projectos com Paulo Branco, produtor de ‘Mistérios de Lisboa’ e de muitos filmes seus. “Queremos fazer ‘O Livro Negro do Padre Dinis’ [também de Camilo/1855] e ainda um outro filme, sobre Cagliostro, o grande mago e alquimista do séc. XVIII”, revelou o cineasta ao CM.

ELENCO DE LUXO
Afonso Pimentel, Adriano Luz e São José Correia são figuras centrais de uma trama trágica que conta com as participações especiais de Margarida Vila-Nova, Sofia Aparício, Catarina Wallenstein, Ricardo Pereira e o francês Louis Garrel.

QUATRO MESES A RODAR
As filmagens arrancaram em Lisboa, em Novembro, e prolongam-se até Março, com algumas cenas a rodar em França, na recta final. A produção do filme e mini-série é de Paulo Branco.

Fonte: Correio da Manhã

No mês de Junho de 2010, irão contar-se 120 anos sobre a morte de Camilo Castelo Branco. Não se poderá falar de comemoração porque os suicídios não se comemoram, mas entendo que a data deverá ser assinalada.

O século XIX permitiu fixar as bases da língua portuguesa actual. Essa obra deve-se a escritores de génio como Garrett, Camilo e Eça de Queirós (que Alexandre Herculano me perdoe…) e a grandes poetas como Antero de Quental .

Neles enraíza tudo o que de melhor se escreveu em Portugal, desde então.

Entre esses grandes vultos, nenhum foi tão genuinamente português como Camilo, tão apegado à fala e aos costumes da nossa gente. Garrett e Eça correram mundo e receberam influências daqui e dali. Camilo raramente terá postos os pés fora do solo pátrio. É nas suas páginas que mais claramente se sente o pulsar dos corações portugueses.

O seu corpo foi depositado no Jazigo de Freitas Fortuna, no Cemitério da Irmandade da Lapa, no Porto.

É tempo de os seus restos mortais serem transladados para o Panteão Nacional, onde já repousa Garrett. Proponho iniciar na Internet um movimento de recolha de assinaturas destinado a pressionar a ministra da Cultura nesse sentido.

António Trabulo

Fonte: Blogue decáedelá

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