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Camilo e Miguel Torga

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Camilo! Criado à sombra escalvada do Marão, viera perder-se entre videiras de enforcado. Mas deixara nos seus livros, viva, indelével, a paisagem da infância. E as suas novelas do Minho não são nunca um pacífico enlevo à sombra das ramadas, pastoris cenas de amor do litógrafo Júlio Dinis. Rangem como turbulentas paixões entre o céu e a terra, nuas e ossudas. As verduras da mocidade com Ana Plácido acabaram numa secura de fraga.

Encontrei a sombra do romancista ainda mais trágica do que a deixara da última vez. O tempo afundara-lhe a marca das bexigas, aumentara-lhe a cegueira, acrescentara-lhe a loucura. Era um prisioneiro revoltado num jardim de avencas. Percorreu a meu lado, sinistramente, cada compartimento da casa, reviu os desenhos do filho doido, anatematizou a lápis, numa das estantes, um volume d´A Relíquia, acompanhou-me ao patamar da escada, e esgalhou um rebento serôdio e agoirento da acácia do Jorge. Já nem o viço daquela lembrança podia tolerar! Fugi, aterrado. Não havia dúvida que os quilómetros de esmeralda lhe não tinham pacificado o coração. A paisagem é, realmente, um estado de alma…

Miguel Torga

In Portugal, Coimbra, 1950

Falam velhos manuscritos…[Periódico] / A. de Magalhães Basto . – (3 agosto 1934-16 outubro 1959) . – Porto : O Primeiro de Janeiro, 1934-1959 . – ; 30 cm.
4 Pastas com recortes de imprensa fotocopiados . – CC-FG L BAS/fal

 

 

O Porto desancado por Camilo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 3 agosto 1934

 

  Um Sujeito assaz instruido e que escreve com muito acêrto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 4 janeiro 1935

 

  Não deixar “passar por águias burros enfeitados…” / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 11 janeiro 1935

 

Tu quoque, Brutus!… / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 18 janeiro 1935

 

A Gratidão de Soromenho / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 25 janeiro 1935

 

  Três rapazes de talento / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 24 abril 1935

 

As Pupilas do Senhor reitor / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 26 abril 1935 
  A Casa de Camilo em S. Miguel de Seide / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 31 maio 1935

 

Notas à margem do punho de Camilo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 6 dez. 1935

 

  Porque não foi Camilo nomeado Bibliotecário? / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 17 janeiro 1936

 

  Uma Vaga na Biblioteca Municipal! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 10 janeiro 1936

 

Carvalho e Araujo, 2º Bibliotecário do Porto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 24 janeiro 1936

 

Amor de Perdição! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 26 junho 1936

 

 

  Que há de verdade no “Amor de Perdição”? / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 3 julho 1936

 

  O Encontro de “duas realezas” / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 10 julho 1936

 

Uma Confissão de Camilo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 14 agosto 1936 

  Da “conjuração mineira” / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 20 novembro 1936

 

Um Processo-crime por ferimentos e bofetadas réu: Camilo Castelo Branco / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 22 janeiro 1937

 

  Camilo a contas com a Justiça! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05707 . – Pasta 1. – 5 fevereiro 1937

 

  A Pronúncia de Camilo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 12 fevereiro 1937

 

  E pague o A. as custas em que o condeno / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 19 fevereiro 1937

 

  Quem era o juíz que pronunciou Camilo? / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 26 fevereiro 1937

 

  À margem do Centenário da Politécnica / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 2 abril 1937

 

  Camilo e o Bispo Alves Martins / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 28 janeiro 1938

 

  Camilo na Ponte da Pedra / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 10 março 1939

 

  Dos famosos Guedes da casa da Costa / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 17 março 1939
  Dinheiro! Dinheiro! Dinheiro! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 28 julho1939

 

O Antigo natal na minha terra! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 25 dezembro 1941

 

  Por causa dela! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 23 janeiro 1942

 

  As Duas “elas”! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 30 janeiro 1942

 

 

Ridendo dicere verum… / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 20 fevereiro1942

 

  O Imperador do Brasil no Porto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 5 fevereiro 1943

 

  A Propósito da exposição do livro francês / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 9 abril 1943

 

  O Portuense Braz Cubas / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 18 junho 1943

 

Camilo não sabia de que freguesia era… / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 5 novembro 1943

 

  Um “Mistério” de Camilo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 12 novembro 1943

 

  As Razões do “segredo” de Camilo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 19 novembro 1943

 

 

A Propósito dum romance de Camilo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05708 . – Pasta 2. – 28 julho 1944

 

  Camilo e a “lutadora vitoriosa”! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 4 agosto 1944

 

  O Pessimismo de Camilo e o Ateneu Comercial do Porto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 15 dezembro 1944

 

Quem era D. Francisca Rebelo mulher de Simão Vaz de Camões / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 24 agosto 1946

 

  História antiga…dos americanos do Porto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 15 novembro 1946

 

  A “Paixão” do nobre senhor do palecete de Santo António do Penedo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 22 novembro 1946

 

  Para a história dum autógrafo do dr. Ribeiro Sanches / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 6 dezembro 1946

 

  Habent sua fata libelli / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 20 dezembro 1946

 

  Camilo, “Aurora” & Bernardo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 17 janeiro 1947
  Mais “Aurora”, mais Camilo e sempre…Bernardo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 24 janeiro 1947

 

Camilo em Viana do Castelo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 31 janeiro 1947

 

  Catarina Carlota Lady Jackson / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 28 fevereiro 1947

 

  A Chegada de Lady Jackson ao Porto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 8 março 1947

 

  Aspectos do Porto de há oitenta anos : ia eu dizendo que Lady Jackson gostou muito do Porto-da terra e da gente / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 15 março 1947

 

  Ensaiando forças para as solidões do cárcere… / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 28 março 1947

 

  Camilo entra nos cárceres da Relação do Porto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 4 abril 1947

 

  As Cadeias da Relação do Porto em 1860 / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 11 abril 1947

 

  Uma Noite grande e triste! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 18 abril 1947

 

  O Quarto em que foi escrito o Amor de Perdição / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 25 abril 1947
  Ricardo Browne – o último elegante literário e intelectual que houve no Porto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 13 junho 1947

 

  Das festas do S. João / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3. – 29 junho 1947

 

  Houve de facto uma Maria da Fonte? / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05709 . – Pasta 3 e 4. – 18 julho 1947

 

  Um Documento inédito, cem por cento camiliano / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 14 dezembro 1947

 

  S.A.R. Cosme de Médicis no Porto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 23 abril 1948

 

  Camilo e Cosme de Médicis / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 26 abril 1948

 

  História e… romance / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 30 abril 1948

 

  Recorda-se o Padre Luís de Sousa Couto / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 10 dezembro 1948

 

  Simão Botelho no romance e na história / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 11 dezembro 1948

 

  O Enigma das causas da prisão do “Fidalgo do Bonjardim” / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 25 novembro 1950
  Terão tido os “Leite Pereiras”, do Porto, uma rainha na família? / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 19 outubro 1951

 

  Divagações sobre o Porto de 1877 / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 14 dezembro 1951

 

  Costumes portuenses no tempo dos “americanos” e… dos “eléctricos” / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 14 janeiro 1955

 

Um Célebre “modelo de polémica portuguesa”! / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 1 agosto 1958

 

  A Agressividade e a bondade de Camilo Castelo Branco / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 15 agosto 1958

 

  O Tâmega e o Pele na obra camiliana / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 23 agosto 1958

 

  Uma Polémica de Camilo em que este teve a preocupação de naõ fazer “escamar” o seu antagonista / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 29 agosto 1958

 

  Camilo e Oliveira Martins / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 5 setembro 1958

 

  O Demónio do ouro / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 20 fevereiro 1959

 

 

A Origem de “O Demónio do ouro” de Camilo Castelo Branco / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 6 março 1959

Dois botequins célebres no Porto do tempo do romantismo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 17 abril 1959

 

  Dona Ana Plácido vende a sua casa da Rua do Almada / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 2 outubro 1959

 

  Minudências biográficas de D. Ana Plácido e Camilo / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 9 outubro 1959

 

  Uma Carta de D. Ana Plácido e a derrota do Dr. Bernardino Machado na sua primeira candidatura a deputado / A. de Magalhães Basto
IN: Falam velhos manuscritos…. – Nº 05710 . – Pasta 4. – 16 outubro 1959

 

O Mundo Elegante (2)

O MUNDO ELEGANTE. — (Collecção de Historias, Biographias, Romances, Poesias e Dramas) redigido por Camillo Castello Branco. Ilustrado com os retratos de D. Pedro V, Princeza Amélia, Garrett, Rossini, e varias outras gravuras. Acompanhado de varias musicas para pianno, por Carli, Ribas, Moreira, Vianna e Dubini. Lisboa. Livraria de Manoel Antonio Campos Junior. 1863. 22,5×32 cm. 136 págs. E. Digo: O MUNDO ELEGANTE. Periodico Semanal, de Modas, Litteratura, Theatros, Bellas Artes, &c. Sob a protecção de Suas  Magestades Fidelissimas. Editores Proprietarios — Villa Nova & Emygdio. (Novembro de 1858–Fevereiro de 1860).

Curiosíssima publicação de Camilo Castelo Branco que lança este Jornal devido às enormes dificuldades na colaboração em jornais da época, por causa do escândalo a propósito da ligação amorosa com Ana Plácido (esposa de Pinheiro Alves).
No primeiro número pode ler-se:

“O Mundo Elegante será o mundo-patarata? Suspeita damninha que entra a inguiçar-me logo no principio! O mundo elegante é a sociedade polida, lustrosa, invernizada no corpo e no pensamento, na acção e na palavra, na intenção e na obra. Patarata quer dizer ostentação van. Elegamcia quer dizer escôlha. Poderão imparceirara-se as duas coisas n’um mesmo individuo, n’uma mesma classe? (…) O Mundo-Elegante faz-se para todas as caras possiveis, desde a botocuda até á georgiana; Para todas as intelligencias imaginaveis: Para todas as progenies admissiveis na ordem da propagação; Para todos as virtudes ainda as mais hypotheticas. (…) Um mundo assim elegante póde e deve ter um jornal, um como archivo dos seus fastos, uma especie de acta em que se vão escrevendo as phases da civilisação portuense. De hoje a cem annos, quando o Porto attingir o seu destino de maxima perfectibilidade, os nossos netos mostrarão este jornal como testemunho de uma civilisação remota. (…) Falta saber que este jornal abomina a sciencia. Aqui só se escrevem coisas que o leitor póde esquecer uma hora depois, com tranquilla consciencia de que não perdeu coisa alguma. Abjura-se tambem a satyra, e a critica. Cada qual póde fazer o que quizer, e viver como quizer. Respeita-se a ignorancia e o vicio: respeita-se tudo.”

O Mundo Elegante (1)

MUNDO ELEGANTE (O)

O Mundo Elegante será o mundo patarata?
Suspeita daninha que entra a enguiçar-me logo no principio!
O mundo elegante e a sociedade polida, lustrosa, envernizada no corpo e no pensamento, na ação e na palavra, na intenção e na obra.
Patarata quer dizer ostentação vã.
Elegância quer dizer escolha.
Poderão emparceirar-se as duas coisas num mesmo individuo, numa mesma classe?

E onde bate o ponto.

[...]

Falta saber que este jornal abomina a ciência. Aqui só se escrevem coisas que o leitor pode esquecer uma hora depois, com tranquila consciência de que não perdeu coisa alguma. Abjura-se também a sátira, e a crítica. Cada qual pode fazer-se o que quiser, e viver como quiser. Respeita-se a ignorância e o vício: respeita‑se tudo.

 

Camilo Castelo Branco
na introdução do número inicial d’O Mundo Elegante – Periódico Semanal de Modas, Literatura, Teatro, Belas-Artes (1858-1859)

[Ex.mº Sn.or]

Não ha que esperar na velhice quando a mocid.e foi desbaratada, contrahindo emprestimos adiantados ás forças da vida porvindoura. Não me admiro deste esfacellamento: o q me espanta é viver.

 

Camilo Castelo Branco

[a Tomás Norton, S. Miguel de Ceide,  7 de Novembro de 1884]

Doze Cartas Inéditas de Camilo Castelo Branco, Lisboa, Portugália Editora, 1964. editor: Luís Norton

Bruxa do Monte Córdova conta-nos a história de Angélica, uma rapariga que, sendo “a mais formosa da sua aldeia”, a quem todos cortejam, envolve-se numa relação proibida. Com a morte do amante acaba por enfrentar sozinha o estigma da exclusão social e da intriga.

“bruxa do monte Córdova” era geralmente o nome injusto senão injurioso, com que ela atraía à choupana não só homens, mulheres e crianças endemoninhadas, mas também o gado, ou imundície, como lá dizem, para a todos estes irracionais curar de enfermidades excedentes do alcance das ciências médicas.

 A Bruxa do Monte Córdova conta-nos a história de Angélica, uma rapariga que, sendo “a mais formosa da sua aldeia”, a quem todos cortejam, envolve-se numa relação proibida. Com a morte do amante acaba por enfrentar sozinha o estigma da exclusão social e da intriga.

Publicada em 1867, esta novela Camiliana tem como pano de fundo a guerra civil que ocorreu entre 1831 e 1834, e opôs os defensores de D. Pedro I e da sua filha D. Maria II, liberais e constitucionalistas, aos defensores de D. Miguel I, os absolutistas e tradicionalistas. Mas a acção principal em si relata-nos uma história de amor trágico que define bem a época conturbada em que se vivia, falando principalmente da falta de carácter dos representantes da igreja, enquanto instituição, que incentivavam o fanatismo e o histerismo religiosos e davam azo a intrigas e convulsões sociais.

É uma obra que utiliza o mesmo arco estrutural e os mesmo elementos narrativos que Camilo utilizou na sua novela “A Doida do Candal”, apesar desta obra estar mais bem estruturada e de ter uma temática mais interessante. Contudo “A Bruxa do Monte Córdova” não foi o grande sucesso comercial que o autor espera que fosse, atribuindo ele depois a culpa ao facto de ter “excesso de filosofia” e de usar uma escrita mais rebuscada.

Quem há aí que possa o cálix 
De meus lábios apartar? 
Quem, nesta vida de penas, 
Poderá mudar as cenas 
Que ninguém pôde mudar ? 

Quem possui na alma o segredo 
De salvar-me pelo amor? 
Quem me dará gota de água 
Nesta angustiosa frágua 
De um deserto abrasador? 

Se alguém existe na terra 
Que tanto possa, és tu só! 
Tu só, mulher, que eu adoro, 
Quando a Deus piedade imploro, 
E a ti peço amor e dó. 

Se soubesses que tristeza 
Enluta meu coração, 
Terias nobre vaidade 
Em me dar felicidade, 
Que eu busquei no mundo em vão. 

Busquei-a em tudo na terra, 
Tudo na terra mentiu! 
Essa estrela carinhosa 
Que luz à infância ditosa 
Para mim nunca luziu. 

Infeliz desde criança 
Nem me foi risonha a fé; 
Quando a terra nos maltrata, 
Caprichosa, acerba e ingrata, 
Céu e esperança nada é. 

Pois a ventura busquei-a 
No vivo anseio do amor, 
Era ardente a minha alma; 
Conquistei mais de uma palma 
À custa de muita dor. 

Mas estas palmas tais eram 
Que, postas no coração, 
Fundas raízes lançavam, 
E nas lágrimas medravam 
Com frutos de maldição. 

Em ânsias de alma, a ventura 
Nos dons da ciência busquei. 
Tudo mentira! A ciência 
Era um sinal de impotência 
Da vã Razão que invoquei… 

Era um brado, um testemunho 
Do nada que o mundo é. 
Quanto a minha mente erguia 
Tudo por terra caía, 
Só ficava Deus e a fé. 

Lancei-me aos braços do Eterno 
Com o fervor de infeliz; 
Senti mais fundas as dores, 
Mais agros os dissabores… 
O próprio Deus não me quis! 

Depois, no mundo, cercado 
Só de angustias, divaguei 
De um abismo a outro abismo 
Pedindo ao louco cinismo 
O prazer que não achei. 

Tristes correram meus anos 
Na infância que em todos é 
Bela de crenças e amores, 
Terna de risos e flores 
Santa de esperança e de fé. 

Assim negra me era a vida 
Quando, ó luz da alma, te vi 
Baixar do céu, onde outrora 
Te busquei, mão redentora, 
Procurando amparo em ti. 

Serás tu a mão piedosa, 
Que se estende entre escarcéus 
Ao perdido naufragado? 
Serás tu, ser adorado, 
Um prémio vindo dos céus? 

E eu mereço-te, que imenso 
Tem já sido o meu quinhão 
De torturas não sabidas, 
Com resignação sofridas 
Nos seios do coração. 

Que ternura e amor e afagos 
Toda a vida te darei! 
Com que jubilo e delírio, 
Nova dor, novo martírio, 
De ti vindo, aceitarei! 

Se na terra um céu desejas 
Como o céu que eu tanto quis, 
Se d’um anjo a glória queres, 
Serás anjo, se fizeres, 
Contra o destino, um feliz. 

Faz que eu veja nestas trevas 
Um relâmpago de amor, 
Que eu não morra sem que diga: 

«Tive no mundo uma amiga, 
Que entendeu a minha dor. 

Deu-me ela o estro grande 
Das memoráveis canções; 
Acendeu-me a extinta chama 
Da inspiração que inflama 
Regelados corações. 

Os segredos dos afectos 
Que mais puros Deus nos deu, 
Ensinou-mos ela um dia 
Que de entre arcanjos descia 
Com linguagem do céu. 

Os mimosos pensamentos 
Que, de mim soberbo, leio, 
Inspirou-mos, deu-mos ela 
Recostando a fronte bela 
Sobre o meu ardente seio. 

Morta estava a fantasia 
Que o gelo da alma esfriou; 
Tinha o espírito dormente, 
Só no peito um fogo ardente, 
Quando o céu me a deparou. 

Agora morro no gozo 
De uma saudade imortal. 
Foi ditosa a minha sorte; 
Amei, vivi: venha a morte, 
Que morte ou vida é-me igual. 

Igual, sim, que o amor profundo, 
Como foi na terra o meu, 
Não expira, é sempre vivo, 
Sempre ardente e progressivo 
Em perpétuo amor do céu». 

Assim, querida, meus lábios, 
Já moribundos, dirão, 
Nas agonias supremas, 
Essas palavras extremas 
Do meu ao teu coração. 

Sabes quem é, neste mundo, 
Quase igual ao Redentor? 
É quem diz: «Sou adorada 
Pela alma resgatada, 
Por mim, das ânsias da dor.» 

Camilo Castelo Branco,
in ‘Carta a Ana Plácido (1858)’
 
(Carta que despoletou a fuga de Ana Plácido com Camilo)

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