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Encontro com Camilo

Hoje encontrei Camilo Castelo Branco, o nosso grande escritor e romancista do século XIX, junto à capela de Granja Velha, onde viveu algum tempo em casa do padre-mestre Manuel Rodrigues ou Manuel da Lixa. Ali o desterraram para se preparar para os estudos em Coimbra, onde cursou Medicina. No entanto, se para ali veio para curar a leviandade com que levava a vida, também ali sedimentou as suas aventuras amorosas. Camilo é um escritor das paixões do Portugal rural, do Portugal profundo, como hoje se costuma dizer. Granja Velha, Friúme, S. Salvador, em Ribeira de Pena, são alguns dos locais de um percurso camiliano que sabem preservar e divulgar. Hoje por aqui andei. Por aqui reencontrei “Camilo”, depois de ter lido muitas das suas obras. Como é bom saber que uma terra pequena, modesta, é capaz de grandes coisas: valorizar-se através daqueles que a imortalizaram. Como temos tanto para aprender com eles… A realização dos “Encontros de Basto”, uma organização do Centro de Formação de Basto, continua a reinventar motivos para ser útil e interessante.

Mário Leite
Fonte: Blogue do Professor

Amor

Camilo dixit:

Em amor há um só e único argumento: é a experiência. Bem-aventurados os poucos que, apalpados pelo segundo desengano, tiveram mão de si à terceira tentação.


Camilo Castelo Branco

Vulcões de lama

Camilo explica o título do romance “Vulcões de lama”, de 1886:

“Ordinariamente quando, em estilo metafórico, usamos comparar as férvidas paixões de alguns homens aos vulcões, a comparação vai buscar o símile às crateras do Etna, do Hecla e do Vesúvio. Presume-se pois que os antros do coração humano refolgam fogo de paixões assoladoras como os intestinos do nosso globo jorram arroios de lava candente que subvertem, devastam, devoram, pulverizam ou petrificam toda a natureza viva e morta que abrangem nos seus braços de lavaredas.
Todavia, há aí na casca do planeta paixões cujo símile não dá o Vesúvio, o Hecla nem o Etna. É de Java que ele vem – de Java onde estuam convulsionados uns vulcões de lama que expluem o seu lodo sobre as coisas e as pessoas, primeiro emporcalhando-as, depois asfixiando-as na sua esterqueira espapaçada.
Neste romance estão em actividade permanente, sempre acesas, as crateras das paixões da aldeia, também vulcânicas, exterminadoras; mas sujas de uma porcaria nauseabunda – vulcões de lama”, enfim.
Tal é a razão do título.”

Alma

Os que dão cegamente a sua alma a quem o não merece, e rogam a Deus o resgate dela, sentem-se livres

Camilo Castelo Branco
In Agulha do palheiro

Fonte: Público; Fotografia: Rafael Marchante/Reuters
Um homem em transe durante o festival que celebra o santo Moulay Abdessalam, em Tetuán. Milhares de peregrinos de todas as regiões de Marrocos deslocam-se todos os anos ao local onde Abdessalam foi sepultado.

Mulher

Uma mulher, por mais feliz que seja, tem necessidade das lágrimas como do ar.


Camilo Castelo Branco

na foto Pina Bausch (1940-2009)

A comunidade de leitores de Camilo Castelo Branco, na Noite de insónias,  noite de 17 de Maio, reflectiu sobre a obra Coração, Cabeça e estômago.

“Esta novela pode ainda ser lida como uma autobiografia de Camilo Castelo Branco, ressalvando sempre a noção de que Camilo não teve apenas uma vida mas muitas, cada uma vivida por si só com sinceridade e com intensidade. Se atendermos ao amor, e relembrando-o na vida do autor, basta ter em conta as “sucessivas” mulheres de Camilo que, sempre à conta desse sentimento sublime, ele foi deixando para trás em nome da deambulação sentimental, provavelmente sem nunca ter querido admitir que praticava, à luz dos seus próprios critérios, o crime masculino por excelência, seduzir e abandonar a amada.

…esta novela representa, ainda, a ambivalência da vida humana na sua busca desesperada de sentido e de propósito definitivos de modo a que a existência seja percebida como valendo a pena ser vivida. O que vai acontecendo, no entanto, tem a força de uma lei imprevista, que bane de uma assentada as melhores intenções e que conduz o ser humano a paragens nunca antes imaginadas, assim como o modo como as coisas e os seres são percebidos é apenas, e sempre, uma parte da verdade.

Como comenta Silvestre da Silva, o narrador-protagonista desta novela, a propósito da percepção do seu comportamento no amor por parte dos outros:  “Era isto o que se dizia; mas a verdade é outra.”
- Se a vida se torna a obra, a própria obra se torna a vida.

…que tenha sido Camilo Castelo Branco o autor da novela que nos dá a ler de modo tão cru esta revelação, faz-nos crer que é por si mesmo um traço fora do comum (tocando as raias da invenção genial) de um autor proteiforme, inconformista, intuitivo, com uma capacidade de ironia como visão do mundo, da existência humana e da palavra romanesca, para além do facilmente concebível.”

In Coração Cabeça e estômago de Camilo Castelo Branco
prefácio Eunice Cabral
edição Caixotim

Documentário RTP

Apresentação do documentário “Camilo e outras vozes” de Brandão Lucas, na escola Secundária Camilo Castelo Branco.

ver aqui

Amor de salvação

O amor salva? O romance Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco é um romance passional, considerada pela crítica uma das obras mais bem acabada do autor. A história relata lembranças que são contadas ao narrador pelo protagonista, em uma noite de Natal,  após um reencontro entre os dois que não se viam há quase doze anos.

Afonso e Teodora foram prometidos um ao outro, por suas mães que eram amigas desde os tempos em que estudavam num convento. Após a morte da mãe, Teodora vai para um convento e tem como tutor seu tio, pai de Eleutério Romão. Teodora e Afonso estão sempre em contato aguardando o tempo certo para casarem. Afonso resolve estudar fora por dois anos. Teodora influenciada pela amiga Libana quer casar-se o mais rápido possível. A mãe de Afonso, D. Eulália, pede-lhe para aguardar. Mas com a saída de Libana do convento Teodora se desespera e resolve casar-se com seu primo, Eleutério,  para libertar-se das grades do convento.

Eleutério era o oposto a beleza de Teodora, era rude e vestia-se de forma hilariante. Apesar da grande tentativa de seu tio, o padre Hilário, em ensinar-lhe a ler, nada conseguiu. Vencido pela incapacidade de seu sobrinho, Padre Hilário  desistiu afirmando que somente através de uma fresta no cérebro, aberta a machado, seria possível tal façanha. Teodora viveu em pompas, trajes de sedas, cavalos, bailes, etc., mas nunca esquecera Afonso, enviava-lhe cartas de amor mas nunca obtivera resposta.

Afonso sofreu muito com a notícia do casamento de Teodora, pediu a mãe permissão para se ausentar de Portugal. Contava sempre com o apoio e o consolo das cartas de sua mãe e sua prima Mafalda, que o amava pacientemente. Após anos de amargura, sofrimento e luta contendo-se diante das cartas de Teodora, para não fugir aos ensinamentos religiosos aos quais sua mãe o educou, foi fulminado pela influencia do amigo José de Noronha que o incentivou a escrever à Teodora. Relutou, mas não conseguiu. A tal carta foi cair nas mãos de Eleutério, que a leu, mas nada entendeu. Pediu então a um amigo ajuda para interpretá-la. A carta acabou sendo rasgada por  Fernão de Teive, dando a desculpa de serem  grandes sandices, após junto com sua filha Mafalda, reconhecer as intenções do remetente, seu sobrinho Afonso de Teive. Não conformado Afonso parte ao encontro de Teodora. Eleutério quando os encontra juntos, pede-lhes explicações. Teodora  responde-lhe que é uma mulher livre a partir daquele momento, e vai viver com Afonso. Passam momentos, ilusoriamente, felizes. Afonso abandona até a sua própria mãe para viver ardentemente esta paixão que sempre o consumiu. Sua mãe sempre afetuosa, apesar da grande tristeza, sustenta a vida  luxuosa que Afonso  tem ao lado de Teodora.

Afonso quando fica sabendo da morte de sua mãe, através de carta escrita por Mafalda, se desespera. Teodora tenta consolá-lo, mas ele sente em suas palavras ironia e sente nojo de tamanho fingimento. Procura isolar-se de Teodora e dos amigos. Durante este período,  Tranqueira, velho criado da família, alerta-o sobre as intenções do amigo José de Noronha por Teodora. No início se revolta contra o criado, mas acaba escutando-o e passa a observá-los. Encontra umas cartas que confirmam as suspeitas. Certo dia os pega juntinhos com gestos de muita familiaridade.  Aborrece-se pede para que Noronha saia de sua casa. Teodora  dissimulada como sempre, tenta enganá-lo, mas ele atira-lhe as cartas. Teodora desmaia enquanto Tranqueira derruba Noronha na cisterna para vingar seu patrão.

Afonso passa alguns dias fora de casa, quando retorna encontra uma carta de Teodora informando os pertences que havia levado consigo. Apesar de traído sente saudade da encantadora  Teodora.  Vende tudo e parte para Paris atrás de um amor que o salve. Gasta tudo o que tem. Por fim, pede ao seu tio Fernão para comprar-lhe a casa onde viveram seus pais e avós, pois não queria ofender a memória de sua mãe  que o havia pedido, em carta antes morrer que não a vendesse. Mafalda com seu coração generoso e cheio de amor pelo primo, pede a seu pai que o atenda, e este assim o faz mas,  com a condição de que a casa continuaria sendo de Afonso. Afonso afunda-se cada vez mais em seus vícios e extravagâncias a ponto de querer suicidar-se. Tranqueira, que nunca o abandonou, percebeu sua intenção e disse-lhe severas palavras que o livraram de tamanha loucura. Mudou de vida, passou a trabalhar e a estudar com apoio de seu criado.

Fernão de Teive adoece, e prestes a morrer pede ao padre Joaquim que vá a Paris entregar a Afonso, os documentos de propriedade da casa a qual comprara, apenas com intuito de ajudar o sobrinho. Após a morte de Fernão, Mafalda sentindo-se sozinha, resolve viajar com o padre Joaquim para Paris com a objetivo de juntar-se as irmãs de caridade. Quando o padre Joaquim encontra Afonso e conta-lhe da morte do tio, este chora e corre ao encontro da prima que ficara em uma hospedaria.

Mafalda conta ao primo sua decisão, mas padre Joaquim pede-lhes, pelo amor de Deus, que ao invés disso, casem-se. Afonso aceitou de imediato e agradeceu à Deus por ter ouvido os  pedidos de suas mães. Afonso e Mafalda voltaram para sua cidade, casaram-se, tiveram oito filhos e foram muito felizes. Apesar do título “Amor de Salvação” a novela relata em quase toda sua extensão, um “amor de perdição” entre Afonso de Teive e Teodora Palmira. Ao “amor de salvação”, Mafalda, são dedicadas somente as ultimas páginas do romance.


resumo de Sueli Rodrigues

Releitura da obra “Amor de Salvação” pelos alunos do Colégio Bom Pastor, 2008

Pensamento Mulheres

As mulheres, as mulheres! Essa cruel metade do homem dispensava-se bem, se o Criador tivesse feito de uma assentada o homem inteiro.

Camilo Castelo Branco

O livro de poesias As Sete Dores de Maria Santíssima, de Camilo Castelo Branco foi lançado no Brasil, na homenagem à 1ª Jornada Literária Mariana no Maranhão. A obra, publicada pela Ética Editora (Imperatriz – MA), tem 39 páginas, dístico de Coelho Neto, prefácio do arcebispo de São Luís, Dom José Belisário da Silva, e foi organizado pelo historiador Eulálio de Oliveira Leandro.

O livro “As Sete Dores de Maria Santíssima” tem um depoimento da professora Evangelina Maria Martins Noronha, onde afirma que “a Jornada representa para a educação o resgate humanístico dos valores cristãos, através da suave poesia de Camilo Castelo Branco”.

O prefácio do livro foi escrito pelo professor aposentado da Universidade Federal do Maranhão, Antonio Alves Monteiro, também da Ordem Francisca Secular (OFS). No texto “Resgatando uma referência”, Antonio Monteiro afirma que duas obras despertaram-lhe o desejo de divulgar essa literatura mariana: “As Sete Dores de Nossa Senhora”, de Coelho Neto, e “As Sete Dores de Maria Santíssima”, de Camilo Castelo Branco. A primeira em prosa e a segunda na forma poética. Ambas irmanadas no tema e na beleza estilística.

Fonte : Badaueonline

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