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Archive for the ‘Memórias do Cárcere’ Category

Fundibulário

 

Quando eu tinha dez anos e vivia em Vila Real, morava defronte de um procurador de causas, que tinha um filho da minha idade, menino sisudo e galante. Se eu o convidava a apedrejar algum transeunte, Leonardo recusava-se a esta camaradagem ignóbil, e escondia-se para não dar suspeitas de cumplicidade nas travessuras de fundibulário.

Camilo Castelo Branco,
in Memórias do Cárcere

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Refrigerados os ardores da quase infantil saudade da terra em que entrevira o crepúsculo, o crepúsculo somente do meu primeiro dia feliz, saí do Porto, e fui a Guimarães não sei para quê, nem com que destino.
Não sei como é que os desgraçados se consolam viajando! Penso que a dor da alma venda aos olhos do rosto o que há belo na natureza, e na mudança das cenas dela. Só bem contempla, e folga de contemplar, o juízo que bem regula, e os sentidos desapaixonados e desprendidos de afectos, que mandam connosco a mortificação da saudade.
Vi lá em baixo, entre florestas e jardins, o berço da monarquia, a faustosa cidade que teve academia de sábios, que rivaliza com as mais graduadas, em seu tempo, na capital. Nada me lembrou de Guimarães, ao descortiná-la por entre a abóbada do arvoredo, senão que ali haveria um leito onde eu encostasse a cabeça esvaída de febre. Nem sequer me ocorreu que as mais lindas mulheres, que um viajante francês encontrara na península, eram de Guimarães; e que, numa aldeia daqueles arrabaldes, também o Sr. A. Herculano se depararam as mais formosas.
Muita coisa haveria bonita em Guimarães; mas o que não houve lá para mim foi um leito onde encostasse a cabeça.
Guiaram-me para o primeiro hotel da terra; denominado o da Joaninha. Este nome soara-me como de bom agouro.
Muita gente desadora o nome Joana. Eu também tinha esse capricho de mera eufonia, antes de Almeida Garrett lhe dar foros de lindeza, que os não tem de maior melodia Beatriz ou Laura. Antes das Viagens na Minha Terra, todas as Joanas, exceptuada a santa, vistas à luz da história, me pareciam viragos, mulheres-homens refractárias a ternuras, e desenfeitadas de seus naturais adornos.
Aí vai erudição a froixo, como é moda:
Joana de Navarra espostejou o exército do conde de Bar, como qualquer senhora de sua casa rasga peças de bretanha para o seu bragal.
Joana, mãe de Henrique IV, introduziu o calvinismo em França, e teve por isso o desgosto de morrer empeçonhada pelos católicos. Calvinista! Deus nos defenda. Outra Joana Henriques, rainha de Navarra, morreu em guerra, defendendo uma praça da Catalunha.
Lembro-me agora duma Joana, que me faz piedade. Era a mãe de Carlos V, denominada a louca. Ensandeceu-a o desprezo do marido, o arquiduque de Áustria, que a teve em ferros cinquenta anos!
Mas outra Joana me acode logo a desvanecer a piedade daquela: é Joana de Nápoles, que faz matar o marido, e casa com o assassino, e por isso veio a morrer esganada.
Uma outra Joana, sucessora daquela, é uma ladainha de reais escândalos e homicídios de amantes.
Com Joana d’Arc não simpatizo. Aquela heróica restauração de Orleães, se fosse obra miraculosa da donzela, nem assim a lustrava mais em minha opinião. Uma menina, que acutila ingleses por ordem da divindade, dá ruim ideia de Deus, e do seu coração. E que me dizem duma Joana, que teve o desaforo de fingir-se homem, e subir na jerarquia eclesiástica até fazer-se papa, e denominar-se João VIII?! A esta hora estava este João canonizado, se Joana, quando ia em procissão, não dá à luz do dia e dos círios um robusto menino! Ora vejam por que mãos tem andado a tiara de S. Pedro*! Não me lembram outras Joanas execráveis, senão a Sra. Joaninha da estalagem de Guimarães.
O diminutivo aqui é figura que os retóricos nomeiam antífrase. Joaninha é duma velhez repelente, e está curtida em camadas de lixo empedrado. A sua casa é um pântano de miasmas, e os seus leitos guardam nas furnas, roídas pelo dente dos séculos, muito bicho, coevo do rei Bamba, que lhe cravou a oliveira à porta. O repasto, que ali se dá na banca de pinho contígua ao leito, seria um cozinhado de Locusta, se tivesse a subtileza dos celebrados venenos da romana. É coisa que puxa pelo estômago, e o desmancha febra a febra.
Não vi onde encostar a cabeça febril, e lembrou-me que tinha ali um conhecido, um poeta, um homem de existência amargurada. Procurei o conhecido, e achei um amigo, como usam raramente ser os irmãos, em Francisco Martins.
Não vi onde encostar a cabeça febril, e lembrou-me que tinha ali um conhecido,
um poeta, um homem de existência amargurada. Procurei o conhecido, e achei um
amigo, como usam raramente ser os irmãos, em Francisco Martins.
Dera-mo a Providência. Os infelizes todos têm uma. Deus sonda os corações; dói-se dos que espiam culpas suas; e desce até eles, na imagem dum homem, quando todos os abandonam.
Pernoitei no ergástulo da Sra. Joaninha, e fui no dia seguinte para as Caldas das Taipas esperar que Francisco Martins me lá desse um leito em sua casa, e um talher à sua mesa.
Camilo Castelo Branco
In Memórias do Cárcere

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Guimarães é presença recorrente na obra de Camilo Castelo Branco. O escritor de Seide conhecia bem o velho burgo, que utilizou como pano de fundo de várias das suas obras. E aqui tinha “um amigo, como usam raramente ser os irmãos”, Francisco Martins Sarmento, que visitava de quando em quando.
A primeira notícia da presença de Camilo em Guimarães é-nos dada pelo próprio no Discurso Preliminar das suas Memórias do Cárcere, onde conta como, em 1860, andando fugido ao mandato de captura que fora emitido na sequência do processo de adultério que lhe fora movido por Manuel Pinheiro Alves, não encontra leito onde encostasse a cabeça. Haviam-lhe indicado a estalagem da Joaninha, na Praça da Oliveira, que descreveu com rigores de soda cáustica:
 “Joaninha é duma velhez repelente, e está curtida em camadas de lixo empedrado. A sua casa é um pântano de miasmas, e os seus leitos guardam nas furnas, roídas pelo dente dos séculos, muito bicho, coevo do rei Bamba, que lhe cravou a oliveira à porta. O repasto, que ali se dá na banca de pinho contígua ao leito, seria um cozinhado de Locusta, se tivesse a subtileza dos celebrados venenos da romana. É coisa que puxa pelo estômago, e o desmancha febra a febra.”
Num dos seus livros, Amor de Salvação, publicado dois anos depois das Memorias do Cárcere, em 1864, Camilo regressaria à mesma estalagem. A Joaninha e a estalagem que ele aí descreve contrasta profundamente com as memórias que lhe ficaram da sua passagem por Guimarães em 1860:
“Serenou-se o aspecto de Afonso de Teive, e fomos indo silenciosos, até apearmos em Guimarães na estalagem da Joaninha, que está neste mundo a competir em graças, limpeza e poesia com a Joaninha de Almeida Garrett, nas Viagens.
Jantámos, saímos a ver a terra, que eu nunca vira em Dezembro, enxergámos à luz crepuscular umas famosas damas da velha cidade que resistiam ao frio da tarde encostadas aos peitoris das suas janelas; entrevimos galantíssimos olhos de outras através das rótulas, que ainda agora nos estão contando virtudes de outras eras, virtudes que precisavam de rótulas, como as belas flores exóticas precisam de estufa.
Voltámos à estalagem, tomámos chá e uns pastelinhos que hão-de ir futuro além relembrando o mavioso nome da Sra. Joaninha. Depois pedimos duas camas num quarto, e tivemos a satisfação de ver que nos davam um quarto com cinco camas, ou coisa assim.”
A referência mais antiga a Guimarães que, até agora, encontrámos na obra de Camilo, aparece no romance Anátema, de 1851, em que, ao falar de uma cozinheira chamada Micaela, recorda aquilo que Virey escreveu sobre a beleza das mulheres de Guimarães:
“Micaela e sua irmã Jacinta eram filhas de um cuteleiro natural de Guimarães e desde 1708 estabelecido em Braga. Se não fosse o contraste da irmã, dera-vos aqui em testemunho real da opinião de formosura por que são tidas as filhas de Guimarães, um tipo de especial lindeza e graça nesta donairosa Micaela entre os quinze e os seus vinte e quatro anos.”
O primeiro dos Doze Casamentos Felizes, obra de 1861, é povoado de personagens, as Noronhas, que contrastam vivamente com o modelo de beleza que Micaela personificava. Termina assim:
“… e vou terminar, pedindo ao leitor que, se algum dia for ao Minho, procure a casa do Sr. João António Francisco, peça agasalho, que o há-de ter regalado, e contemple o que é a genuína e desartificiosa felicidade conjugal.
Se, depois, voltar por Guimarães, peça o leitor que o apresentem em casa das Sras. Noronhas, e verá o que são mulheres tolas e feias.”
Uma das últimas obras de Camilo Castelo Branco foi escrita a meias com Francisco Martins Sarmento (a quem o romancista dedicara a sua obra No Bom Jesus do Monte, de 1864, e um estudo literário, incluído no livro Esboços de Apreciações Literárias, de 1865). Trata-se de uma polémica simulada e jocosa, inicialmente publicada num jornal de Lisboa, em que ambos os escritores escreveram sob pseudónimos, depois coligida numa obra com fins filantrópicos com o título Estudos da Velha História Portuguesa.
António Amaro das Neves

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Em 1862, Camilo Castelo Branco publicou as suas Memórias do Cárcere, em que relata a sua passagem pela Cadeia da Relação do Porto, onde esteve preso por adultério. No Discurso Preliminar desta obra em dois volumes, Camilo descreve os dias anteriores à prisão e a sua passagem por Guimarães, onde, escreve, “procurei o conhecido, e achei um amigo, como usam raramente ser os irmãos”: Francisco Martins Sarmento. A propósito da descoberta da Citânia de Briteiros, refere-se aos “sábios em medalhas e cipos”, como “a gente mais estafadora do mundo”. Mal ele imaginava que Martins Sarmento, anos mais tarde, se faria arqueólogo à conta da Citânia, tornando-se no mais eminente dos nossos “sábios em medalhas e cipos”…
“A meia légua das Taipas, tem Francisco Martins uma quinta, chamada de Briteiros. Na casa magnífica da quinta vivia um par de cônjuges decrépitos, antiquíssimos criados de pais e avós do meu amigo. A extensão de salas, câmaras, corredores em longitude e forma conventual, de tudo me senhoreei. Escolhi o quarto, cujas janelas faceavam com um recortado horizonte de arvoredos, e a cumieira chão de um serro onde se divisam as relíquias de antiga povoação, que lá dizem ter sido Citânia, cidade de fundação romana.
Algumas horas ali passou comigo Francisco Martins; mas o máximo dos dias e as noites vivi diante de mim próprio, na soledade daquele quarto, ou em perigosas excursões à serra sobre um cavalo, que parecia vezado a passear sobre alcatifas.
Amanheci um dia entre as ruínas da presumida Citânia. Vi algumas pedras derruídas em cômoros, as quais denunciavam ausência de toda a arte, para de pronto desvanecer conjecturas de edificação regular. Existiam vestígios de cisterna, e descalçadas lajes dum caminho de pé-posto, que sem dúvida tinha sido estrada. A meu parecer, não irá longe da fundação da monarquia portuguesa a construção daquele presídio, se tal nome lhe cabe em vista dos estreitos limites do terreno plano. Pode ser que, nas guerras de desmembração, sequentes às primeiras conquistas do conde Henrique, guerras tão cruamente pelejadas nas circunferências de Guimarães até ás indeterminadas fronteiras, aquele ponto, onde os visionários vêem cidades cartaginesas e romanas, fosse singelamente um miradoiro de observação, que abrangia grande parte do território convizinho de Guimarães, então foco das operações militares da recente monarquia. Como quer que seja, a chamada Citânia faria derrear um antiquário, sem ele descobrir nas ruínas dela pretexto a narcotizar com um in-folio a porção do género humano, que ainda crê nas visualidades de antiquários, e decifrações arrevezadas de pedras, e quejandos desfastios de sábios em medalhas e cipos — a gente mais estafadora do mundo.
O senhor Domingos e a senhora Rosa (eram os cônjuges meus familiares) contaram-me que lá em cima na Citânia estavam moiras encantadas, que eles tinham visto em certas noites vaguearem em torcicolos com luzinhas pelo pendor da serra. Não desfaço na palavra do senhor Domingos e da senhora Rosa; mas inclino-me a crer que os velhinhos vissem pirilampo. O mesmo não direi doutra moura que viera num berço à flor do rio Ave; e no momento em que o encanto se lhe quebrou, o berço se converteu em alva fraga. Nenhuma dúvida há: lá está a fraga. A senhora Rosa sabia as lendas todas, que Almeida Garrett publicou, já desluzidas da campestre originalidade em que mas ela repetiu.”
Camilo Castelo Branco
In Memórias do Cárcere, volume I, 2.ª edição, Casa da Viúva Moré – Editora, Porto, 1864, págs. XLVI a XLVIII do discurso preliminar)

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Antes de contar como passei a primeira noite de cárcere, perdi-me logo, como, em divagações, que o leitor, já afeito com o meu génio, aceita com benevolência.

Às nove horas da noite, os guardas correram os ferrolhos, e rodaram a chave da pesada porta do meu cubículo, a qual rangia estrondosamente nos gonzos.

Estava sozinho. Sentei-me a esta mesma banca, e nesta mesma cadeira. Estavam aqui defronte de mim alguns livros. Recordo-me de Shakespeare, Plutarco, Sénancour, Bartolomeu dos Mártires, e uma Tentativa sobre a Arte de Ser Feliz por J. Droz. Folheei-os todos, e de todos me fugia o espírito para entrar no coração, e sair de lá em ânsias do inferno que lá ia.

À força de contenção de alma consegui ler e meditar algumas páginas da Arte de Ser Feliz. Em que local eu buscava a árvore dos bons frutos! É este um livro de filosofia racional que preparou o ânimo de seu autor para mais seguras e levantadas crenças na filosofia de Jesus Cristo.

Fez-me bem esta leitura. Principiei logo a pôr em português as vinte páginas que lera, com o intento de fazer publicar o livro inteiro em folhetins.

Fui às três horas da manhã procurar no sono a restauração das forças corporais, que as do espírito, até esta hora, nunca as senti indignas da ousadia com que ele se arremessou a perigosas batalhas com o mundo.

Camilo Castelo Branco

Memórias do Cárcere, 1862

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Sou tão avesso, e tamanho asco tenho a beijos, como aquele frade da mesa censória, que mandava riscar beijo, e escrever ósculo. Os teólogos casuístas, e nomeadamente S. Afonso Maria de Ligório, conjuram unânimes contra o beijo, inscrevendo-o no catálogo das desonestidades. Não digo tanto. Entendo que beijo pode ser acto inocente, mas não pode ser nunca limpo e asseado. É um contacto de extrema materialidade, com toda a sua grosseria corpórea.
Não sei quando se deram os primeiros beijos no mundo. Aqueles de que fala a Bíblia significavam quase sempre desenvoltura. Nos amores de Sara, de Raquel, de Ruth e de outras criaturas santificadas não se mencionam beijos. Os irmãos de José, quando o venderam aos medianitas, beijaram-no. Judas Escariotes, quando malsinou Jesus, beijou-o. Não tenho dos livros primordiais mais agradáveis reminiscências de beijos.
Nos poetas gregos e latinos sei eu que eles simbolizam muita podridão moral, de Lais, de Lésbias, de Frineias, de Márcias e de Cláudias. Um dos poetas coevos delas disse que os próprios deuses de mármore se anojaram de tais lábios. A reforma cristã caminhou e irá indo sempre ladeada do paganismo. Permanecem os beijos; a impureza de muitos não tem inveja à de Roma. E, como os ídolos se baquearam, há imagens de santos para os mesmos lábios, que automaticamente se regelam, no pau, dos brasumes da carnalidade. Madalena beijou os pés de Cristo; mas primeiro lhes lavou de lágrimas. Também Marta lhes beijou, mas primeiro lhes perfumou com o incenso, em que vaporava o melhor de seus haveres. O beijo, após as lágrimas e o incenso, eram um pacto da alma contrita com o seu regenerador. Madalena, depois daquele ósculo, penitenciou-se quarenta anos nas brenhas do deserto.
Mas estes beijos de sôfrega ânsia, saldos como dizem em faíscas do coração, afiguram-se-me golfos de peçonha que arrevessa a cobra cascavel… Chegámos ao segredo da comparação. Aí tem o leitor como muitas belezas se escondem e despercebem nos escritos de quem se não dá à canseira de ser escoliastes de si próprio.
Bem hajas tu, Rosinha, que retraíste o rosto mimoso e virgem de beijos, ao arremesso daqueles lábios do tenente, que outro romancista havia de chamar avelulados, e eu chamo sujos das impurezas do tabaco, e de outras cujo monopolizador encartado é o espírito imundo, o demónio, Deus me perdoe!

In Memórias do Cárcere

Camilo Castelo Branco

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Via Scoop.itCamilo Castelo Branco

Reclusos de Guimarães recriam obra camilianaFábrica de ConteúdosDe acordo com o presidente da Fundação Cidade de Guimarães, João Serra, “este projeto pretende trazer Camilo Castelo Branco até à CEC, num momento de comemoração dos 150 anos de duas…

Via noticias.portugalmail.pt

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