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Posts Tagged ‘Mulher’

Sérgio Guimarães Sousa, docente da Universidade do Minho, responsável pela organização da obra, destaca que “a figura feminina adquire diversas modalidades em Camilo e não se confina somente à representação tipificada pelo imaginário romântico, mulher-anjo e mulher fatal”. E acrescenta: “Existem diversas outras tipificações da mulher, algumas das quais nitidamente ancoradas na realidade contextual do Minho oitocentista”.

editado pela Câmara Municipal Vila Nova de Famalicão/Casa de Camilo
coleção Estudos Camilianos,9 (2014)

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Retrato de minhota (cliché de Francisco Martins Sarmento)

“Ah!, o senhor vai para o Minho?

– Vou; venha também, verá que céu, que natureza…
– E a água?
– Água excelente, água de rocha viva… E do Porto, as de Viana, as de Guimarães!
– Com que então diz-me o Sr. Almeida que há no Minho boa água, bom ar…
– E as mulheres mais bonitas de Portugal. Se o senhor visse as camponesas da Maia, as padeiras de Valongo e Avintes, as lavradeiras de S. Cosme e Fânzeres, as varinas de Espinho e Ovar! Não leu em Virey que as mulheres mais lindas que ele vira nas suas viagens foram as de Guimarães?”
Camilo Castelo Branco
In  “Doze Casamentos Felizes”,  1861

 

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Semana Camiliana em Lamego

Sem título 1

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A mulher na literatura portuguesa: sua imagem e seus questionamentos através do gênero epistolar
Dissertação de Mestrado

Autor
Ferreira, Carlos Aparecido (Catálogo USP)

Unidade da USP
Imprenta São Paulo,2001
Resumo 
Trabalho que tem como objetivo apontar a transformação da imagem da mulher através dos tempos, tal como tem sido representada na literatura, desde suas origens bíblicas, até o final do século XX. A análise dessa imagem feminina, em sua trajetória histórico-literária se apoiou em textos de várias épocas, começando pela Bíblia, passando pela Era Medieval (cantigas de amor e cantigas de amigo), Era Clássica (episódio de Inês de Castro, em Os Lusíadas; Carta de Guia de Casados, de Dom Francisco Manuel de Melo; e As Cartas Portuguesas, de Sóror Mariana Alcoforado), Era Romântica (as cartas entre Camilo Castelo Branco e D. Ana Plácido; e as cartas entre Simão e Teresa na obra Amor de Perdição – de Camilo Castelo Branco) e Era Contemporânea (Novas Cartas Portuguesas). Através da poesia e do gênero epistolar verifica-se uma linha horizontal a percorrer todos os períodos literários: a linha que registra a permanência da imagem da mulher-mãe e mulher-esposa, consagradas pelo sistema familiar patriarcal. Entretanto, verifica-se que, aqui e ali, surgem cortes verticais nessa linha horizontal, os quais correspondem a questionamentos femininos buscando romper a linha da tradição. A localização dessas “linhas” e “cortes” são os pontos básicos desta dissertação.

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A façanhosa forneira de Aljubarrota resiste á incredulidade da critica, abordoando-se ás muletas do patriotismo e á pá. Sabe-se pouco das proezas de Nuno Alvares e Mem Rodrigues. Nada referem os historiadores das apostas e porfias dos cavalleiros do Mestre de Aviz. Porém, que a forneira matou sete hespanhoes ebrios, feridos ou prostrados de fadiga, isso, que não póde ser honroso porque é vil, aprendem-o as crianças, e repetem-o adultos com desvanecimento e orgulho. Por honra da minha patria, quero crêr que a lenda da padeira de Aljubarrota é tão authentica e verdadeira como a do caldeirão de Alcobaça, apresado no arraial de D. João I de Castella. Dêem-se-me honras de Niebuhr n’esta cousa do caldeirão de Alcobaça.

Houve outra heroina, mais digna de lembrança, e, todavia, ignorada. Essa praticou um feito de nobre coragem, defrontando-se a rosto com o inimigo, e derrubando-o. Foi o caso que em 1762 os hespanhoes, commandados pelo marquez de Sarria, invadiram Portugal pela provincia de Traz-os-Montes. A cidade de Miranda foi das terras d’aquella provincia a que mais soffreu as arremettidas do exercito invasor. Alli perto, passa o rio Fresno, cujas margens se communicam por uma ponte. Na extrema esquerda d’esta ponte vivia uma mulher casada, cujo marido se alistára nas guerrilhas dispersas pelas empinadas penedias do Douro. Um piquete de hespanhoes, com seu sargento, passou a ponte do Fresno. O sargento viu a mulher do guerrilheiro, que era a mais esbelta e donosa moça da comarca. Postou os soldados de atalaia a pequena distancia da ponte, e voltou de noite, acompanhado de dous, com o proposito de se fazer amar da aldeã por meio do assalto.

Este sargento, em tempo de guerra, não usava das artes maviosas do seu patricio Tenorio. Em vez da guitarra e da escada de corda, fiava na suspensão das garantias, na quebra do direito internacional, na cronha da escopeta, e na pujança de seis rijas espadoas atiradas á porta d’aquella Elvira montezinha. A rapariga, votada ao saque, se não tinha commendador em casa, tinha cousa mais infesta ao sargento: era o marido que, por saudade ou receio, debandára da horda guerrilheira e fôra, encoberto por entre penhascos, pernoitar a casa.

Alta noite, os tres castelhanos bateram á porta. O portuguez não respondeu; foi ella que assomou na adufa do sobrado, perguntando o que pretendiam áquella hora. O sargento, depois de inutilisar algumas phrases lyricas, tomou o pulso á timidez da moça, intimando-a a entregar a praça. O marido estava ouvindo, e perguntou muito de manso á mulher:

–Quantos são?

–Tres–respondeu ella.

–Deixa-me lá ir, antes que venham mais. E ella, sahindo da janella, disse:

–Então vamos lá.

–Tu não venhas.

–Não? isso lá, hei de ir, quer queiras, quer não.

O sargento no entanto voltou-se aos dous soldados e disse:

–A praça rende-se.

D’ahi a minutos, abriu-se a porta da rua. O guerrilheiro deu uma guinada de tigre para a testada da porta, e desfechou um arcabuz em um dos tres, que foi a terra. Dous pelouros ao mesmo tempo lhe bateram no peito; mas o portuguez, ao cahir morto, levava debaixo de si um dos dous com uma navalha hespanhola embebida nas entranhas. Sobrevivêra o sargento aos companheiros, mas sómente o tempo indispensavel para que ella o varasse do peito ás costas com o espeto da cozinha. Depois, como sentisse o tropel da soldadesca, travou do marido, desceu por um algar escuro e pedregoso á ourela do rio, e cahiu prostrada de afflicção, quando conheceu que levava um cadaver. Ao romper da manhã, galgou á cumiada da serra, onde estanciavam os camaradas de seu marido, e viu de lá as ultimas fumaças da sua casinha, que os soldados castelhanos haviam queimado. Nada mais se sabe d’esta mulher. Não consta, sequer, que o governo de D. José I lhe mandasse reconstruir o casebre, acabada a guerra. Houve um poeta contemporaneo, que a descantou em um soneto jocoso, avantajando-a á Brites de Aljubarrota. As musas sérias não acharam a heroina digna de poesia grave. E esse mesmo soneto chocarreiro ninguem o conheceria, se lh’o não publicassemos aqui, precedido de um interrogatorio académico:

_Qual acção é mais memoravel: a da forneira de Aljubarrota, matando os castelhanos com a sua pá; ou a da mulher de Traz-os-Montes, matando o sargento castelhano com o espeto?

    SONETO

É problema que deve disputar-se,
entre os authores de mais nome e nota,
se póde essa mulher de Aljubarrota
com a de Traz-os-Montes comparar-se.

Aquella tem razão para gabar-se
de fazer com sua pá tanta derrota;
esta, que deixa co’a barriga rota
ao sargento, tambem deve estimar-se.

E esta, a meu vêr, melhor juizo tinha,
pois, vingando o marido seu dilecto,
fez o que ao seu genio lhe convinha.

Metteu-se-lhe nos cascos o projecto
de tratar o hespanhol como gallinha,
e, assim que topou um, pôl-o no espeto.

No principio d’este artigo, fallamos de apostas, porfias e promessas de cavalleiros, antes de se desfraldarem os guiões e bandeiras na batalha de Aljubarrota. Vasco Martim de Mello prometteu pôr as mãos no rei D. João I de Castella; Gonçalo Annes de Castello de Vide prometteu ser o primeiro que lhe enristasse a lança ao rosto. Estas promessas são heroicas; mas houve uma de Martim Affonso de Sousa Chichorro extremamente original pela deshonestidade. Vejam com que limpeza de alma este fidalgo se preparava para um conflicto de morte, e deprehendam d’ahi o que eram as crenças da immortalidade no seculo do cavalleiroso Mestre de Aviz. Na hoste de D. João assignalava-se João Rodrigues de Sá, o das Galés, aquelle heroico perfil tão portuguezmente desenhado pelo snr. A. Herculano no _Monge de Cistér. João Rodrigues de Sá, ainda moço n’aquelle tempo, tinha uma bella irmã, abbadessa do mosteiro benedicino de Rio Tinto chamada Aldonsa Rodrigues. Martim Chichorro queria muito á gentil prelada, e não resguardava da censura os seus amores adulterinos com a esposa do Senhor. Na vespera da batalha perguntaram-lhe os fidalgos namorados da ala de Mem Rodrigues que promessa era a d’elle.

–Prometto, se escapar da batalha–respondeu o amoroso selvagem–ir ter uma novena com a abbadessa de Rio Tinto.

Grande cascalhada de riso, naturalmente. Houve logo um bisbilhoteiro que denunciou ao das Galés a fatuidade de Martim, quinto neto por bastardia d’el-rei D. Affonso III.

–Pois eu–disse João Rodrigues serenamente–prometto ir atraz d’elle, e bater-lhe.

Deu-se a batalha. Vasco Martim de Mello morreu no empenho de pôr a lança no rei. Gonçalo Annes sahiu illeso do voto cumprido. E Martim de Sousa, tão extensamente cumpriu a sua–as novenas succederam-se em tanta copia–que a peregrina Aldonsa houve do seu pontual servidor dous filhos que se chamaram Martim e Pedro. O que os genealogicos esconderam á posteridade, edificada com as virtudes das abbadessas e dos Chichorros, foi o genero de sova que o das Galés deu no pai dos seus sobrinhos. Talvez se desforrasse, consoante o gosto do tempo, em o fazer tio dos seus numerosos bastardos. As preladas formosas eram as conciliadoras em contendas d’esta natureza. D. João I morigerava os mosteiros, mandando vestir o habito de commendadeira de Santos a Ignez Pires, depois de a condecorar com a dupla virtude da maternidade. Os nossos reis, quando se enfastiavam das mulheres, davam-as de presente a Deus.

In

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº2 (de 12), 1874

Camilo Castelo Branco

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