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Posts Tagged ‘Lugares Camilianos’

(…) Corria o anno de 1697. Francisco Luiz d’Abreu, doutor em medicina, mudára sua residencia para Coimbra, esperançado em entrar no magisterio, conforme lh’o promettiam sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourem. Não tinham filhos; mas dos braços de um ao outro saltava um menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho. A creança tratava de padrinho o doutor, e á senhora chamava mãe. A esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome de mãe, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.

(…) Relatava-lhe a perseguição que os Oliveiras de Ourem estavam soffrendo, desde a fuga na náo da carreira da India, e o certo perigo que corria a creança, se levissimas suspeitas o indigitassem como filho de Francisco de Abreu.

(…) O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, até á vespera d’aquelle dia, devéras se convencêra da morte do seu Antonio de Sá. Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! Já o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria não o tinha ainda penetrado, ao que parecia.

in “O Olho de Vidro“, de Camilo Castelo Branco

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Braz Luiz de Abreu foi um famoso médico oureense de origens  judaicas que o notável romancista Camilo Castelo Branco imortalizou na sua novela “Olho de Vidro”, precisamente a alcunha pela qual era conhecido. Esta novela descreve também a vida da comunidade judaica de Ourém e, por conseguinte, relata uma parte importante da nossa história local cujo estudo está ainda por se fazer.

Numa altura em que se prepara a realização do Festival Internacional de Cinema de Ourém que irá realizar-se sob o signo da tolerância, a novela “O Olho de Vidro” de Camilo Castelo Branco bem poderia constituir um excelente argumento para a realização de uma produção cinematográfica. Uma tema, aliás, da maior oportunidade atendendo não apenas à sua projecção internacional como ainda à possibilidade de divulgação de um dos maiores escritores da Língua portuguesa, precisamente numa altura em que foi incompreensivelmente afastado dos manuais escolares.

O Olho de Vidro” é um romance histórico escrito pelo notável escritor e novelista Camilo Castelo Branco. A história baseia-se
na vida atribulada do médico oureense Brás Luis de Abreu. De origens judaicas, este nasceu em Ourém, a 3 de Fevereiro de 1692, tendo sido exposto em Coimbra. Porém, consta que foram seus pais Francisco Luiz de Abreu e Francisca Rodrigues de Oliveira. A sua vida foi sempre marcada pela perseguição que o Santo Ofício exerceu sobre aqueles que dele cuidaram na sua infância, concretamente os judeus que a esse tempo tiveram de abandonar o país e, após muitas desventuras, vieram a fixar-se na Holanda onde ergueram a famosa Sinagoga Portuguesa de Amesterdão que constitui uma das principais referências daquela cidade. De resto, a comunidade judaica registou a sua presença em Ourém onde, aliás, se preservam testemunhos e se podem ainda identificar algumas famílias de origem judaica, agora plenamente integradas na sociedade portuguesa e na vida local.

Brás Luis de Abreu foi autor do tratado “Portugal médico ou Monarquia médico-lusitana” e “Sol nascido no Ocidente e posto ao nascer do Sol. Santo António Português” entre outras obras. Conhecido por “Olho de vidro”, Brás Luis de Abreu inspirou o escritor Camilo Castelo Branco quando este escreveu a novela “O Olho de Vidro”, adoptando precisamente para título a alcunha do afamado médico oureense. Desse romance, transcreve-se seguidamente algumas passagens nas quais o escritor faz referência directa a Ourém:

Ás dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a mãe da creancinha, que bebia um leite aguado de lagrimas.

(…) Nas ferias d’aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de
Coimbra reparou na saida, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de liquidação de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu rapidamente negociára na terra de sua mulher. D’isto foi avisado o inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava processo, quando o lente alli chegou.

(…) Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro que vê pelo miudo as mais e menos notaveis terras dos paizes. A casa onde elle
nascêra havia sido vendida pela corôa, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono fôra queimado em estatua. Estava sendo estalagem. Pernoitou n’ella; dormiu no quarto de sua mãe… não dormiu: chorou por todo o correr da noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu do quarto onde nascêra e morrêra sua mãe, viu de passagem o quarto que fôra o seu, e d’onde agora saía outro viageiro madrugador.

(…) Francisco Luiz encarou n’elles com desprezo: não podia ser de piedade, nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beiços do velho judeu de Ourem.

in Olho de vidro, Camilo Castelo Branco

 

Carlos Gomes
Fonte: blogue Auren  http://auren.blogs.sapo.pt/374978.html

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Tão longe dos Amores de Perdição que o condenaram mais uma vez a frequentar a antiga Cadeia da Relação. O Camilo de S. Miguel de Seide está mesmo muito escondido ali na avenida que tem o seu nome.
Esta obra do escultor Henrique Moreira (1890-1979) foi oferecida à cidade por “O Comércio do Porto” em 1925.

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Com 136 anos de vida, feitos em Novembro último, e palco de encontro, no passado, de escritores portugueses célebres como Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós, o Grande Hotel de Paris já passou por momentos bons e maus. Na última década, tem tentado recuperar e preservar a sua história.

Situado nos números 27 a 29 da Rua da Fábrica, na baixa do Porto, o histórico hotel, que ascendeu recentemente à categoria de hotel de  3 estrelas, está agora apostado em recuperar a aura de outros tempos. A confirmação de que esta era a unidade hoteleira mais antiga da cidade chegou com o livro “Grande Hotel de Paris – Uma História no Porto”, publicado por Octávio Miguel Félix, em 2011.

“Com uma nova direcção, em 1999, o hotel começou a renascer e a partir de 2001, houve uma nova vontade de preservar e recuperar. O hotel foi adquirido em 1999 pela nova direcção e percebeu-se que havia grande potencial”, explica Amílcar Gomes, responsável pela comunicação do Grande Hotel de Paris.

À conversa com o P24, o responsável conta como a actual equipa tentou”recuperar o máximo possível”. “Este é um exercício que tem sido feito até hoje, o de recuperação, mas também o de perceber a história e valorizar o autêntico”, refere Amílcar Gomes, que recorre a uma citação do livro de Octávio Félix para explicar as mudanças que o hotel sofreu. “Além da reestruturação dos serviços hoteleiros fundamentais, dezenas de peças de época têm sido recuperadas, despontando, nas suas alas, um simpático ‘hotel museu’”.

Actualmente, o Grande Hotel de Paris tenta “catalogar algumas peças, por exemplo, o PBX [sistema de telefone com múltiplas linhas, outrora utilizado sobretudo em empresas], a central telefónica e o piano”, revela Amílcar Gomes.

Edifício é de 1857

Apesar de o hotel ter surgido em 1877, foi em 1857 que o edifício foi construído. Nesse ano, funcionava como casa da Filarmónica Portuense, como explica o livro de Octávio Félix, sendo, na altura, “uma construção apalaçada tipicamente portuense dos arruamentos da época”. O edifício tinha um “alçado sóbrio com uma impressão de verticalidade” e, escreve o autor, ganhava “em profundidade” o que perdia “de frente”. “Foi mandado construir pelo negociante da cidade Manuel Fernandes da Costa Guimarães”, conta Octávio Félix.

Em 1877, “Manuel Fernandes preside o conselho de administração [do Grande Paris Hotel]. O cargo de director responsável é do francês Léopold Cyrille Gabriel Dupuy. Ernesto Chardron e Mathieux Lugan são vogais da sociedade. Os 2 últimos proprietários da Livraria Internacional Ernesto Chardron, depois a famosa Livraria Lello”, relata o livro de Otávio Félix.

“Quando o hotel surge, o Porto estava a viver o crescimento da revolução industrial. Por isso, quando [o hotel] foi inaugurado pretendia ser hotel de primeira [classe], com aquilo que de nacional havia para oferecer. E, durante o período de crescimento da cidade, o hotel também cresceu, transformando-se numa referência”, conta Amílcar Gomes.

No hotel, ficaram alojadas várias celebridades. Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Rafael Bordalo Pinheiro são alguns dos notáveis que passaram pelo Grande Hotel de Paris. Reza a história que foi aqui que Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro reataram uma amizade que andava de “costas voltadas”. “Há uma história engraçada, quando o Camilo Castelo Branco estava no final de vida. O Ricardo Jorge, um médico, patrocinou a visita do Guerra Junqueiro aqui, quando os 2 estavam de costas voltadas, por defenderem teses diferentes. Sendo amigos, ficavam de costas voltadas. E foi nesse encontro que reacenderam a amizade”, conta Amílcar Gomes.

Tertúlias políticas e literárias

Com o tempo, o hotel  ”começou também a ser apelidado de ‘Casa Transmontana’ no Porto. Havia hóspedes estrangeiros, mas a população do Porto também vinha para as tertúlias e discussões politícas, literárias, entre outras”, refere o responsável.

Porém, a ligação umbilical do hotel com a cidade do Porto, que no início ajudou a fazer crescer o Paris, também contribuiu para o seu declínio. “No [início da década de] 80,passou a ser uma residencial. Isto esteve relacionado um pouco com o declínio da cidade do Porto”, explica Amílcar Gomes.

“A autentecidade que o caracteriza, também a localização, o facto de existir uma boa relação com os hóspedes, um ambiente familiar”, são actualmente os pontos fortes do Grande Hotel de Paris e são “vários” os hóspedes “que voltam todos os anos”.

“O segredo é mesmo a autenticidade”, diz, por seu turno, David Ferreira, o director do hotel, que lamenta que os portuenses “que passam na rua não se apercebam” de que ali fica um hotel e um hotel com tanta história.

“A biblioteca [do hotel] é feita pelos hóspedes e para os hóspedes”, que podem deixar e requisitar livros ‘à boleia’ do bookcrossing. “Neste momento, a nossa biblioteca tem livros da Coreia do Sul, da Noruega, obras em inglês de referência a autores menos conhecidos de Itália, por exemplo”, explica Amílcar Gomes.

Dependendo da época do ano, uma noite neste histórico do Porto, que serve pequenos-almoços numa sala ao estilo “Belle Époque” e organiza saraus, pode ficar entre 45 e 75 euros.

Fonte: Porto 24

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Lugar de Memória Camiliana

No próximo dia 18 de Abril celebra-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que foi instituído em 1982 pelo ICOMOS e aprovado pela UNESCO no ano seguinte. A partir de então, esta data comemorativa tem vindo a oferecer a oportunidade de aumentar a consciência pública relativamente à diversidade do património e aos esforços necessários para a sua proteção, conservação, chamando a atenção para a sua vulnerabilidade.

Este ano o Dia internacional dos Monumentos e Sítios é dedicado ao tema Lugares de Memória.

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Embarcamos no barco a vapor chamado Jorge IV. Uma criada, que tinha ares de mestre da minha irmã, veio connosco, estipendiada por conta do nosso património. A senhora Carlota Joaquina não me esquece. Era uma mulher gorda, facuda e frescalhona,

que bolsava os fígados do beliche abaixo, e gritava a d’el-rei de aflita com o enjoo. Era imundo, sujo a mais não poder, o Jorge IV. A camara era comum dos dois sexos, com menos resguardo que os mosteiros dúplices da Idade Media; mas os ânimos dos passageiros pareceram-me a negação de toda a ideia monástica. Os homens do beliche do segundo andar conversavam com as mulheres do primeiro diálogo entrecortados de vómitos. A senhora Carlota, que ficou a minha esquerda, praguejava contra o seu destino; e o meu vizinho da direita, sujeito de grandes barbas, saia do beliche em menores para lhe ter mão na testa. Esta caridade absolve a inconveniência da mistura. Dos passageiros nenhum falava inglês, e o criado da camara, que também era fogueiro, atenta a negrura encarvoada da camisa e cara, quando lhe pediam chá, café ou um caldo de galinha, dava sempre água por um canudo de lata.

Carlota exclamava: – Eu morro! – Tenha paciência, menina!, acudia o homem das barbas. – Não há- de morrer querendo os deuses. Devia de ser pagão o monstro! – Eu morro!, rebramia ela. Quero confessar-me!…

Não peca a confissão a estes brutos, observava-lhe o meu vizinho, que alem de não terem deus nenhum, se a menina lhes pede um padre, trazem-lhe agua na lata surrada. Havia muito mar quando se avistou a barra do Porto; e por isso arribamos a Galiza. A nossa Carlota, assim que pôs os quatro pés e os dois estômagos na hospedaria de Vigo engordou outra vez. O pagão não saia da beira dela. No dia seguinte abalou para Tui por uns calinhos que Deus e a civilização já fizeram desaparecer da face do globo. Ao outro dia passamos Valença; e depois a Ponte de Lima, e de la a Braga em romagem ao Bom Jesus.

Camilo Castelo Branco,

in No Bom Jesus do Monte (1864)

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“Como à força, fora ele uma noite ao teatro lírico, em companhia do abade de Estevães, que amava a música pelo muito amor que tinha à guitarra, delícias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento apaixonado.
Calisto inteirou-se do enredo da ópera, e assistiu em convulsões ao espectáculo, que era a Lucrécia Bórgia.

Saiu da plateia frio de horror e protestou, em presença de Deus e do abade, nunca mais contribuir com oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade. Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: «Amici,noctem perdidi! Melhor me fora estar lendo o meu Eurípedes e Séneca, o trágico! Medeia não mata os filhos cantando, como a celerada Lucrécia! As devassidões postas em música, dão bem a entender que geração esta é! Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o estridor das trompas e dos zabumbas. É um tripúdio isto, amigo abade! Quem sai do seio da natureza rude, e de repente se acha à labareda destes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial filosofia destas tramóias de teatros!»

Assanhou-se o abade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o Estado subsidiava o Teatro de S. Carlos com vinte contos de réis anuais. Calisto fez pé atrás, e exclamou:
– Obstupui!… O abade zomba!… O Estado!… o meu colega disse o Estado!
– Sim, o tesouro… – confirmou o clérigo.
– A res publica? o dinheiro da nação?
– Certamente: pois de quem há-de ser o dinheiro, senão da nação?
– Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas do teatro de Lisboa!
– Vinte contos de réis.
Calisto Elói correu a mão pela fronte humedecida de suor cívico, e sentou-se nas escadas da Igreja de S. Roque, porque ao espanto, cólera e dor de alma seguiram-se cãibras nas pernas. Minutos depois, ergueu-se taciturno, despediu-se do abade, e foi para casa. ”

Camilo Castelo Branco
In A Queda de um Anjo

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