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Archive for the ‘Miscelâneas’ Category

O Conde de Margaride, Luís Cardoso Martins da Costa, bacharel em filosofia, nasceu no dia 8 de Janeiro de 1836. Era filho de Henrique Cardoso de Macedo e de Luísa Ludovina de Araújo Martins. Aos 30 anos, casou com Ana Júlia Rebelo Cardoso de Meneses. Por decreto de 1 de Agosto de 1872, passou a usar o título de Visconde de Margaride; em 1874, tornou-se Conselheiro de Estado. Em 1877, foi agraciado com o título de Conde de Margaride. Destacou-se pela sua actividade política, tendo sido Governador Civil dos distritos de Braga e do Porto. Em Janeiro de 1874, ainda Visconde, foi mimoseado por Camilo Castelo Branco com um texto que foi publicado no primeiro dos quatro números das Noites de insónia, oferecidas a quem não pode dormir, onde o romancista satiriza a festa de aniversário do ilustre vimaranense.

REABILITAÇÃO DO SNR. VISCONDE DE MARGARIDE

S. exc.ª festejou o seu natalício com um baile, em um dia de jejum, por uma noite de Janeiro, breve e esplendorosa. O dia era de abstinência carnal, note-se. Creio que o preceito começava à meia-noite, pontualmente à hora em que a restauração das forças, esvaídas na vertigem dos bailados, reclamava vários fenómenos reparadores desde a trituração até ao filtramento do quilo no sistema sanguíneo. Se eu não odiasse o palavreado vulgar, diria que os hóspedes do snr. visconde precisavam de comer.

À magnitude do apetite correspondeu a magnificência dos acepipes. Era já soada a hora da abstinência do boi, do peru, da galinhola, do salmagundy. E, não obstante, as iguarias condimentosas, a febra, a alimentação rija lourejava nos pratos e nas terrinas entre ondulações de perfumes. Alguns dos convivas sabiam que o dia ou a noite era de peixe. Senhoras de idade canónica, respeitáveis por seus princípios e observantes das disciplinas da igreja, não vendo alvejar a pescada ou o rodovalho entre coxins de batata e cebola, tantalizavam a perdiz em molho de vilão; mas, cerrando os dentes à invasão do pecado, esquivavam-se a sair do baile com o bolo alimentício azedado por escrúpulos. Neste comenos, alguém disse o que quer que fosse a meia voz às pessoas perplexas entre a galinhola truffée e a religião dos Afonsos.

Umas pessoas, depois que ouviram a nova, sorriram, como vencidas de tentação deliciosa, e comeram carnes. Outras, invulneráveis e inflexas na sua abstinência, martirizaram-se com trutas e salmões. Como quer que fosse, houve escândalo. Comeu-se volateria e ruminantes em sexta-feira. Algumas conscienciosas saíram do baile do snr. visconde, às 8 horas e meia da manhã, com o peso do estômago sobre si.

A opinião pública, já em Guimarães, já em Braga, ergueu-se à altura dos princípios, e murmurou. Eu fiz parte desta opinião adversa ao magistrado superior do distrito a quem corre o dever de penitenciar os seus hóspedes com trutas e salmão em dias de peixe, em memória dos augustos mistérios do cristianismo.

Quanto a mim, o snr. visconde era um ateu e os seus hóspedes uma cáfila de heresiarcas. Eis senão quando a imprensa do Porto divulga uma notícia que bafejou um hálito de júbilo na face de Braga, no perfil de Guimarães, e nos três quartos do país. Apresso-me a repeti-la em grifo com uma consolação católica, e tanto ou quê apostólica: O snr. visconde de Margaride tinha obtido dispensa do prelado bracarense para que os seus hóspedes pudessem comer carne.

Orvalhe-se de lágrimas de alegria o rosto da cristandade portuguesa; que eu por mim, quanto um abraço cabe nas potências da fantasia, aqui aperto contra o coração o snr. visconde de Margaride, e felicito os católicos que digeriram inocentemente as suas vitualhas.

Camilo Castelo Branco
In Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº1, Janeiro de 1874, Biblioteca de Algibeira, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Porto

Nota: Salmagundy é uma salada, já usada nos séculos XVII e XVIII, composta com galinha quente, anchovas, ovo cozido, ervilhas, cebola cozida e uvas e temperada com uma vinagreta.

Fonte Memórias de Araduca

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Os Narcóticos


A partir de dois livros de Fernando Palha editados em 1882, Camilo Castelo Branco revisita alguns episódios da História de Portugal. O título «Narcóticos» tem a ver com as tentativas de envenenamento de D. João II, diversas desde 1491 até à morte. Camilo recorda o rei («homicida traiçoeiro, implacável destruidor dos seus parentes, o primeiro que em Portugal queimou hebreus expulsos de Castela, promotor do extermínio de oitenta vítimas ilustres, a veneno e a punhal»), não se mostra surpreendido pela incorrupção do seu cadáver («faltava a ponta do nariz o que não quer dizer nada em matéria de santidade») e avança com uma explicação: «emprega-se o sublimado corrosivo e o cloreto de zinco para embalsamar cadáveres humanos por possuírem essas substâncias as propriedades conservadoras do arsénico.» Camilo aproxima a actualidade europeia (1882) ao passado português (1536) no que respeita ao problema judaico: «O mesmo era matar judeus não processados, como em tempo de D. João II, ou desterrá-los roubados nos bens e nos filhos como em tempo de D. Manuel, ou rebanhá-los em massa e lavá-los daí processionalmente aos suplícios públicos das praças.»
Completam o volume a novela «O senhor ministro» e os textos «A viúva do poeta Ovídio», «Silva Pinto e a sua obra», «Ideias de D. João VI» e «Camões e os sapateiros» Na novela, Amália ouve do tio padre esta frase sobre os sonhos de literato do seu herói: «os melhores poetas de Portugal mendigaram mas os que eram pobres tiveram o bom juízo de não casarem – Camões, Bocage, Tolentino, etc.»

José do Carmo Francisco
Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia

Fonte: Transporte Sentimental

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ACERCA DE JOAQUIM 2.º

(RESPOSTA A UMA CARTA)
A carta, a que respondo, veio do Porto. E o período respondido reza assim:
….. Asseveram-me que o teu Plutarco, anunciado na ACTUALIDADE, é o Joaquim de Vasconcelos, que tem batido à porta dos teus antigos inimigos, pedindo factos e calúnias para urdir a tua biografia. Se isto é tão verdade como é verdadeira a pessoa que mo afiançou, prepara-te para desprezar a afronta, e veste arnês de aço que rebata o ferro do couce. Alguém lhe perguntou que motivo teve para te provocar; respondeu que apenas te conhecia de vista; eu, porém, se a memória me não falha já te ouvi dizer que este Joaquim de Vasconcelos foi teu hóspede em S. Miguel de Seide, etc.
RESPOSTA
Tens boa memória. Joaquim de Vasconcelos foi meu hóspede em S. Miguel de Seide; mas procedeu honradamente, e logo te direi a razão que tenho para te afirmar que se houve briosamente na hospedagem que lhe dei. Foi assim o grão caso. Um dia, no ano do 1870, me escreveu de Guimarães o maestro Francisco de Sá Noronha, prevenindo-me que viria a S. Miguel de Seide apresentar-me um seu amigo de grande talento, notável teorista musical, educado em Alemanha, e literato de muitas esperanças. Alvoroçou-me a notícia, tanto pela visita do célebre violinista, como pela apresentação de um moço prendado das belas cousas do coração e do espirito, que todas brotam de seu onde o amor das amenidades literárias e das deleitações da harmonia lhes aquece os germes.
Em uma alegre manhã de Julho chegaram os snrs. Noronha, e Vasconcelos a esta casinha, à volta da qual os silfos da poesia borboleteiam, desde que o visconde de Castilho e Tomaz Ribeiro por aqui estiveram.
Recebi o snr. Joaquim de Vasconcelos com quanta cordialidade e lhaneza cabia nas minhas posses de aldeão. Dei-lhe o lugar de honra na minha mesa. Ouvi-lhe atenciosamente por espaço de dez horas as suas ideias republicanas, sem lhas impugnar, e as suas teorias sobre música sem lhas perceber, e os seus dislates em literatura sem lhos contrariar.
Ao cair da tarde, o snr. Vasconcelos, que não podia demorar-se, fez-me o obséquio de aceitar o meu cavalo, que teve a honra de o levar à estrada do Porto. Ao despedir-se de mim, o meu afável hóspede abraçou-me com efusão de veementíssimo júbilo por me haver conhecido e devido alegres horas tão rapidamente passadas.
Devolveu-se um ano, sem que eu tornasse a ver o snr. Vasconcelos; não obstante, a imagem deste cavalheiro, uma vez por outra, acudia às minhas reminiscências daquele dia tão literário, tão cheio de palavras, de sistemas, em fim, de mútuas promessas, que me faziam esperar daquele moço alguma coisa menos cruel que um inimigo.
Eis que o snr. Vasconcelos dá à luz um livro de crítica à versão do Fausto, pelo snr. visconde de Castilho; e, ainda antes de o ler, já eu sabia que o meu hóspede tão graciosamente recebido, me insultava como escritor e como homem, enxovalhando-me com vilipendiosas aleivosias, como se não bastasse ao seu injusto rancor malsinar-me de ignorante.
Aqui tens, meu caro amigo, repetido o assinalado sucesso do advento do snr. Vasconcelos a esta quinta de Seide.
Como ele está escrevendo os escândalos da minha vida, que naturalmente veio espionar quando cá entrou, bom seria que ele dissesse que cá tenho grandes infâmias na minha história lendária, e uma das mais graúdas foi recebê-lo em minha casa.
Falta-me explicar-te onde está o procedimento honroso do snr. Vasconcelos na hospedagem que lhe dei. Está no seguinte: quando ele saiu da minha mesa, contaram-se as colheres de prata, e não faltava nenhuma! Honra lhe seja!
                                                   Teu do coração,
                                                            Etc.
P. S.  Se o snr. Joaquim de Vasconcelos, depois da publicação desta carta, entender que me deve pagar o aluguer da cavalgadura, o almoço e o jantar, autorizo a tesoureira das Velhas do Camarão a receber a importância, e passar recibo.

 Camilo Castelo Branco
In Noites de insomnia offerecidas a quem não póde dormir,  N.º 6—JUNHO, 1874, LIVRARIA INTERNACIONAL, pp. 84-88

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Na sua obra que leva por título Teatro do mundo visível, editada em 1743, Frei Bernardino de Santa Rosa discorre sobre a criação do mundo, a existência de macacos e elefantes no Minho, a existência e os feitos de gigantes, de pigmeus, de amazonas, do amor dos delfins pelos homens e pelas delfinas, da mansidão dos ferozes unicórnios quando se deixam adormecer nos regaços de donzelas… Sobre esta obra, Camilo Castelo Branco escreveu um texto satírico, que foi incluído no seu livro “Coisas Leves e Pesadas”, de que aqui fica um excerto.
“Existiram ou não gigantes?
Flávio Josefo disse que a uns homens arrojados e intrépidos se chamou gigantes. Orígenes escreveu que gigantes era um cognomento de ateus. Eusébio de Cesareia denomina gigantes os demónios. O padre Bolducho, que o leitor por força há-de conhecer melhor do que eu, diz que os gigantes, celebrados na Escritura, eram os varões exímios em virtudes. Pelo conseguinte, gigantes de corpulência monstruosa, homens como torres, com olhos de tamanho de janelas, isso é que passava por fabulação de visionários, até à hora em que o doutor tirou a candeia debaixo do alqueire, e rompeu com ela trevas dentro até além do dilúvio universal.
Foi assim o caso: os descendentes de Set, enfeitiçados das formosas filhas de Caim, casavam com elas.
Eles eram homens de bem, e elas mulheres de pouco mais ou menos, como descendentes daquele enorme celerado que matou o irmão à bordoada. Desta mistura de bons moços com raparigas abrejeiradas nasceram os gigantes. Gigantes antem erant super terram... enim ingressi sunt filis Dei ad filias hominum. Foi o castigo que Deus infligiu àqueles casados: deu-lhes filhos daquele tamanho, levando em mira que eles (isto é o mais provável) lhes comessem com aqueles grandíssimos dentes quanto os pais ganhassem. O que o padre não diz é se eles já eram fetos gigantes no ventre das mães, e como as pobres mulheres se arranjariam com aqueles monstros lá no interior delas.
O dilúvio afogou a raça destes brutos descomunais; não obstante de vez em quando a natureza ia dando algum como Nemrod, o caçador, que para apanhar rolas no topo dos pinheirais precisava de se agachar; também foram gigantes o rei de Bazan, o Ferragus da história de Carlos Magno, e alguns tambores-mores do nosso conhecimento.
Gigantes fêmeas, não falando na Amiota, mulher daquele Ferragus, existiram outras, porque não podia deixar de ser. O padre não as conheceu de nome; inclina-se, porém, a crer que as amazonas eram mulheres de bom tamanho.
E, a propósito de amazonas, conta o padre a seguinte façanha das mulheres portuguesas.
O caso é digníssimo de crédito, já porque o padre Bernardino o conta, já porque Manuel de Faria e Sousa o tinha contado. Tirante os Evangelistas, não conheço historiador verídico superior à Manuel de Faria, a não ser o padre Bernardino.
Andávamos às mãos com os galegos, muito antes da era dos Afonsinhos. Éramos quinze mil homens, afora as mulheres armadas de grevas, coxetes, arnês e capacete. Íamos já sobre a galegada, atravessado o Minho. Estávamos já cantando vitória em território deles, quando os alarves depois de bem sovados, nos carregam com o poder da Galiza em peso, e nos obrigam a retroceder. Nisto, avançam as mulheres em campo de batalha, malham como em centeio verde naqueles bestiais inimigos e destroçam-nos. A vitória ficou-se chamando empresa das mulheres.
O padre, relatada a façanha, volta-se ao célebre castelhano Feijó, de estopadora memória, admira-se que ele, encomiando o heroísmo das mulheres, não refira aquele caso, e explica o silêncio: “foi certamente não querer renovar a dor da sua pátria, conhecendo muito bem que esta gloriosa empresa das nossas esclarecidas portuguesas, será nos anais da posteridade opróbrio eterno da sua gente.” Leva nas ventas, meu Feijó!”
Camilo Castelo Branco
In Coisas Leves e Pesadas, em Casa de Luiz José D’ Oliveira – Editor Porto, 1867, pp. 104-106

Fonte Memórias de Araduca

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A façanhosa forneira de Aljubarrota resiste á incredulidade da critica, abordoando-se ás muletas do patriotismo e á pá. Sabe-se pouco das proezas de Nuno Alvares e Mem Rodrigues. Nada referem os historiadores das apostas e porfias dos cavalleiros do Mestre de Aviz. Porém, que a forneira matou sete hespanhoes ebrios, feridos ou prostrados de fadiga, isso, que não póde ser honroso porque é vil, aprendem-o as crianças, e repetem-o adultos com desvanecimento e orgulho. Por honra da minha patria, quero crêr que a lenda da padeira de Aljubarrota é tão authentica e verdadeira como a do caldeirão de Alcobaça, apresado no arraial de D. João I de Castella. Dêem-se-me honras de Niebuhr n’esta cousa do caldeirão de Alcobaça.

Houve outra heroina, mais digna de lembrança, e, todavia, ignorada. Essa praticou um feito de nobre coragem, defrontando-se a rosto com o inimigo, e derrubando-o. Foi o caso que em 1762 os hespanhoes, commandados pelo marquez de Sarria, invadiram Portugal pela provincia de Traz-os-Montes. A cidade de Miranda foi das terras d’aquella provincia a que mais soffreu as arremettidas do exercito invasor. Alli perto, passa o rio Fresno, cujas margens se communicam por uma ponte. Na extrema esquerda d’esta ponte vivia uma mulher casada, cujo marido se alistára nas guerrilhas dispersas pelas empinadas penedias do Douro. Um piquete de hespanhoes, com seu sargento, passou a ponte do Fresno. O sargento viu a mulher do guerrilheiro, que era a mais esbelta e donosa moça da comarca. Postou os soldados de atalaia a pequena distancia da ponte, e voltou de noite, acompanhado de dous, com o proposito de se fazer amar da aldeã por meio do assalto.

Este sargento, em tempo de guerra, não usava das artes maviosas do seu patricio Tenorio. Em vez da guitarra e da escada de corda, fiava na suspensão das garantias, na quebra do direito internacional, na cronha da escopeta, e na pujança de seis rijas espadoas atiradas á porta d’aquella Elvira montezinha. A rapariga, votada ao saque, se não tinha commendador em casa, tinha cousa mais infesta ao sargento: era o marido que, por saudade ou receio, debandára da horda guerrilheira e fôra, encoberto por entre penhascos, pernoitar a casa.

Alta noite, os tres castelhanos bateram á porta. O portuguez não respondeu; foi ella que assomou na adufa do sobrado, perguntando o que pretendiam áquella hora. O sargento, depois de inutilisar algumas phrases lyricas, tomou o pulso á timidez da moça, intimando-a a entregar a praça. O marido estava ouvindo, e perguntou muito de manso á mulher:

–Quantos são?

–Tres–respondeu ella.

–Deixa-me lá ir, antes que venham mais. E ella, sahindo da janella, disse:

–Então vamos lá.

–Tu não venhas.

–Não? isso lá, hei de ir, quer queiras, quer não.

O sargento no entanto voltou-se aos dous soldados e disse:

–A praça rende-se.

D’ahi a minutos, abriu-se a porta da rua. O guerrilheiro deu uma guinada de tigre para a testada da porta, e desfechou um arcabuz em um dos tres, que foi a terra. Dous pelouros ao mesmo tempo lhe bateram no peito; mas o portuguez, ao cahir morto, levava debaixo de si um dos dous com uma navalha hespanhola embebida nas entranhas. Sobrevivêra o sargento aos companheiros, mas sómente o tempo indispensavel para que ella o varasse do peito ás costas com o espeto da cozinha. Depois, como sentisse o tropel da soldadesca, travou do marido, desceu por um algar escuro e pedregoso á ourela do rio, e cahiu prostrada de afflicção, quando conheceu que levava um cadaver. Ao romper da manhã, galgou á cumiada da serra, onde estanciavam os camaradas de seu marido, e viu de lá as ultimas fumaças da sua casinha, que os soldados castelhanos haviam queimado. Nada mais se sabe d’esta mulher. Não consta, sequer, que o governo de D. José I lhe mandasse reconstruir o casebre, acabada a guerra. Houve um poeta contemporaneo, que a descantou em um soneto jocoso, avantajando-a á Brites de Aljubarrota. As musas sérias não acharam a heroina digna de poesia grave. E esse mesmo soneto chocarreiro ninguem o conheceria, se lh’o não publicassemos aqui, precedido de um interrogatorio académico:

_Qual acção é mais memoravel: a da forneira de Aljubarrota, matando os castelhanos com a sua pá; ou a da mulher de Traz-os-Montes, matando o sargento castelhano com o espeto?

    SONETO

É problema que deve disputar-se,
entre os authores de mais nome e nota,
se póde essa mulher de Aljubarrota
com a de Traz-os-Montes comparar-se.

Aquella tem razão para gabar-se
de fazer com sua pá tanta derrota;
esta, que deixa co’a barriga rota
ao sargento, tambem deve estimar-se.

E esta, a meu vêr, melhor juizo tinha,
pois, vingando o marido seu dilecto,
fez o que ao seu genio lhe convinha.

Metteu-se-lhe nos cascos o projecto
de tratar o hespanhol como gallinha,
e, assim que topou um, pôl-o no espeto.

No principio d’este artigo, fallamos de apostas, porfias e promessas de cavalleiros, antes de se desfraldarem os guiões e bandeiras na batalha de Aljubarrota. Vasco Martim de Mello prometteu pôr as mãos no rei D. João I de Castella; Gonçalo Annes de Castello de Vide prometteu ser o primeiro que lhe enristasse a lança ao rosto. Estas promessas são heroicas; mas houve uma de Martim Affonso de Sousa Chichorro extremamente original pela deshonestidade. Vejam com que limpeza de alma este fidalgo se preparava para um conflicto de morte, e deprehendam d’ahi o que eram as crenças da immortalidade no seculo do cavalleiroso Mestre de Aviz. Na hoste de D. João assignalava-se João Rodrigues de Sá, o das Galés, aquelle heroico perfil tão portuguezmente desenhado pelo snr. A. Herculano no _Monge de Cistér. João Rodrigues de Sá, ainda moço n’aquelle tempo, tinha uma bella irmã, abbadessa do mosteiro benedicino de Rio Tinto chamada Aldonsa Rodrigues. Martim Chichorro queria muito á gentil prelada, e não resguardava da censura os seus amores adulterinos com a esposa do Senhor. Na vespera da batalha perguntaram-lhe os fidalgos namorados da ala de Mem Rodrigues que promessa era a d’elle.

–Prometto, se escapar da batalha–respondeu o amoroso selvagem–ir ter uma novena com a abbadessa de Rio Tinto.

Grande cascalhada de riso, naturalmente. Houve logo um bisbilhoteiro que denunciou ao das Galés a fatuidade de Martim, quinto neto por bastardia d’el-rei D. Affonso III.

–Pois eu–disse João Rodrigues serenamente–prometto ir atraz d’elle, e bater-lhe.

Deu-se a batalha. Vasco Martim de Mello morreu no empenho de pôr a lança no rei. Gonçalo Annes sahiu illeso do voto cumprido. E Martim de Sousa, tão extensamente cumpriu a sua–as novenas succederam-se em tanta copia–que a peregrina Aldonsa houve do seu pontual servidor dous filhos que se chamaram Martim e Pedro. O que os genealogicos esconderam á posteridade, edificada com as virtudes das abbadessas e dos Chichorros, foi o genero de sova que o das Galés deu no pai dos seus sobrinhos. Talvez se desforrasse, consoante o gosto do tempo, em o fazer tio dos seus numerosos bastardos. As preladas formosas eram as conciliadoras em contendas d’esta natureza. D. João I morigerava os mosteiros, mandando vestir o habito de commendadeira de Santos a Ignez Pires, depois de a condecorar com a dupla virtude da maternidade. Os nossos reis, quando se enfastiavam das mulheres, davam-as de presente a Deus.

In

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº2 (de 12), 1874

Camilo Castelo Branco

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“Houve um tempo que do Brasil afluíam valiosas esmolas para a fabrica do Bom Jesus do Monte. Era mysterioso o destino do cofre do Bom Jesus. Não se podia admitir que os tutores da milagrosa imagem comprassem as frondosas arvores que aformosentavam o sitio…

Inaugurava-se a corrida dos burros.”

Camilo Castelo Branco
In Echos Humoristicos do Minho. Nº 1. Porto e Braga : Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1880, p. 10-14

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A Igreja foi projetado pelo arquitecto Carlos Amarante, por encomenda do Arcebispo D. Gaspar de Bragança, para substituir uma primitiva igreja, mandada construir por D. Rodrigo de Moura Teles, que se encontrava em ruínas. As obras começaram em 1 de Junho de 1784, tendo ficado concluídas em 1811. É um dos primeiros edifícios neoclássicos em Portugal. A fachada é ladeada por duas torres e termina num frontão triangular.

Fonte: Wikipedia

“Eu tinha dez anos quando, pela primeira vez, fui ao BOM JESUS DO MONTE. Eu, com outros romeiros, vínhamos de Vigo onde nos aproara uma tormenta no alto mar. A minha criada, muito amante da vida, fizera uma promessa ao Bom Jesus; e, no cumprimento da sua palavra, de passagem para Trás-os-Montes, convidara alguns companheiros de jornada a subirem ao alto da mata para agradecerem ao miraculoso Senhor o seu salvamento. Eu, como disse, tinha dez anos, e estava também ajoelhado na capela onde se venera a imponente escultura. Enquanto os meus companheiros agradeciam com fervorosa unção o prazer da vida, recordo-me que cismava, muito em desarmonia com a acção de graças daquela gente. Pensava eu se me não teria sido muito mais benigno o Senhor do Monte, deixando-me resvalar ao abismo, amortalhado em uma das suas ondas, menos amargas que as lágrimas que eu havia de derramar em naufrágios de maiores agonias. Porque eu, aos dez anos, vinha de perder meu pai quando já não tinha mãe; saía do aconchego da casa paternal desfeito como um ninho espedaçado por um furacão; e ia para uma terra desconhecida enviado a parentes que nunca me tinham visto. Era por isso que eu, pensando na infelicidade da existência, cismava se Deus me seria mais benigno deixando-me ir procurar as almas de meu pai e de minha mãe. Há cem anos que este Senhor crucificado vê umas poucas de gerações prostradas diante do seu altar – uns a agradecer, outros a suplicar. Pois, talvez no transcurso de um século, nenhuma outra criança de dez anos repetisse, diante desta sagrada imagem, as palavras de Job: Quare de vulva eduxisti me ? – «Porque me deste o nascimento?”

Camilo Castelo Branco
In Boémia do espírito. Porto : Lello & Irmão, 1959, p. 428-429.

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